Carlos Alberto Lopes

quarta-feira, junho 27

O SUSTO !

Filha de Maria das Dores, era Maria Doroteia.....
Nascera da união de sua mãe com um tal João Caetano, homem de andanças pelo sertão, que só vira a menina uma única vez, quando a guria ainda mamava leite materno.
Vinte e poucos anos já se passaram...
Maria das Dores teve tifo, e poucas semanas depois estava morta , deixando a única de suas filhas solitariamente desamparada.
Nada tendo de seu, nem renda para sobreviver, Doroteia acabou na casa de Flora, que recolhia meninas solitárias para as usar, como diversão para os viajantes, que passavam raramente pelas bandas daquela vila.
Doroteia já era moça feita, embora agisse como menina-moça, que corre dos homens, embora os queria conhecer bem de perto.
Um belo dia, um já idoso senhor, embora bem conservado, passou pela vila.
Passou dois dias na cidade, e durante este tempo dormiu, comeu, bebeu e se divertiu na casa de Flora, onde conheceu Doroteia e por ela se apaixonou.
De fato, foi ele o primeiro a possuir Doroteia, entre os outros que com ela dormiram, no correr da vida.
Quando o homem partiu, Flora perguntou seu nome a Doroteia e, com a resposta, Flora caiu para traz, morta.
Flora conhecia a história de Maria das Dores, e o nome do amante de Doroteia, a fez morrer de susto.
Ele se chamava João Caetano, o caixeiro viajante
!

segunda-feira, junho 25

COISA CORRIQUEIRA

O tiro cortou a rua , e antigiu em cheio o peito de Onofre , que assista ao jogo do Palmeiras , na sala de estar.
Foi um baque surdo , acompanhado de um filete de sangue.....
Onofre nem soube o que o atingiu.......
Quando Maria chegou perto , nada mais havia para ser feito , pois a bala atingira o coração do Palmeirense , com força muito superior a um gol do Corinthians , feito de falta e sem barreira .
A bala atravessou a vidraça da sala , num ângulo perfeito , como se soubesse o endereço do pai de família .
O grito de Maria ecoou pela casa , e chegou a rua , onde a confusão já se fazia formada , pois cabo Laurindo segurava um revolver , apontando-o para o Mário.
Já havia errado um tiro , mas o próximo, não era comum errar .
João Cardoso , dono do armazém tentava conversar com o cabo, que não queria conversar, pois Mário havia destratado Laurindo e isso, o antigo membro da força pública , não admitia.
Quando o grito de Maria alcançou a pequena multidão, foi como um banho de água fria, pois todos se viraram para a mulher que atingia a rua , trazendo as mãos manchadas pelo sangue do marido .
Cabo Laurindo, ao ver o sangue, instintivamente largou a arma, pois entendera o que havia acontecido .
Onofre era seu compadre, padrinho de seu filho do meio, e Laurindo o tinha em alta conta .
Mário correu para a casa de Onofre, e voltou confirmando: a bala atingira o velho Onofre, que lá estava sentado no sofá, com bermuda verde, sandálias havaiana nos pés, camisa do Palmeiras e uma bala, alojada no coração.
Chamou-se a polícia.
João Cardoso recolheu a arma de Laurindo e a guardou na registradora do armazém .A rua em instantes se tornou o centro das atenções do bairro .A polícia chegou meia hora depois.....Laurindo entregou-se.......
Onofre foi para o instituo medico legal e Maria acompanhada pôr Mário e amigos, providenciou o velório....
Coisas corriqueiras, nada mais do que coisa corriqueira .....

AS TELHAS DE ZINCO

Já faziam vinte dias que a chuva maltratava as folhas de zinco, que cobriam o pequeno barracão, onde o pai, a mãe oito filhos menores viviam, amontoados num quadrado três por três, feito de madeirite e coberto por aquelas folhas de zinco, que o pai arrumara com um amigo e prendera aos caibros com cordas de nylon, que a ação da chuva, ameaçava fazer com que se soltassem, num perigo iminente de vir tudo ao chão e ficarem todos ao desabrigo. A luz já havia sido cortada há algum tempo, quando a Companhia numa inspeção de rotina, descobriu que o homem havia puxado um fio clandestino, diretamente do poste da rua. A água vinha de tonéis, que a mulher colhia na fonte natural atrás do casebre, ao pé do morro.
Na parede do lado direito, colado com durex de "segunda", ganho pelo garoto mais velho no Parque Infantil, podia se ver uma foto colorida de Sua Santidade o Papa, ao lado da Basílica de Aparecida do Norte, sem moldura... Do outro lado, uma foto antiga de Fidel Castro, também colada à parede com durex, se sustentava também sem moldura...
Junto à cama, uma mesa ostentava um rádio de pilha já antigo, que teimava em continuar funcionando apesar da goteira que sobre ele pingava sem parada. O fogão, era colocado num canto do barraco. Eram quatro tijolos que seguravam uma grade de ferro batido, (que um dia fôra um portão de uma casa da rua de cima, há muito abandonada). A pia, se é que assim se pode denominar, era um tamborão de lata de 50 litros cortado ao meio, e pintado com piche para não enferrujar, ficava ao fundo. No outro lado do quadrado, uma rede presa aos cantos das folhas de zinco, balançava, fazendo dormir um menino de olhos verdes, nariz escorrendo e chupeta encardida à boca... De repente, a chuva parou.
Minutos depois, um carro estacionava à porta do barraco, se é que podemos considerar como porta de algum lugar, aquelas duas folhas de madeirite, atravessadas por quatro pequenas ripas.
Vamos considerar... pois foi ali que o carro negro estacionou...
Um homem, vestindo terno preto de linho, adentrou pela porta traseira do veículo, aberta gentilmente pelo motorista...
Com um aceno de mão, deu ele adeus à mulher e aos oito filhos, enquanto mandava o motorista seguir em frente...
O carro negro, em sua chapa oficial, denunciava o emprego do pai daquela família:
"Prefeito Municipal"

A DOENÇA DA MARIETA

Ao cair da tarde à porta do armazém de secos e molhados, dois amigos se encontraram, para o “bate papo” de todas as tardes, pontuais como o Big-Bem de Londres.
_Então, compadre Bento, como vão as coisas?
_Assim, assim, compadre Chico! Podiam melhorar um bocadinho!
_O que aconteceu agora, meu compadre?
_É a Marieta!
_O que aconteceu com a pobre?
_Sei não, compadre! Já chamei ate Dr. Anacleto...
_E o foi que o homi disse, compadre?
_Disse que a Marieta tá com a doença ruim...
_Doença ruim, compadre?
_È....parece que é vírus!
_Vírus, compadre? Então é coisa feia mesmo!
_Parece.... óia o que já gastei di remédio, num tá escrito!
_E ela num melhorô nem um bocadinho?
_Melhoro! Ontem, inté que fico di pé, pra desenferruja, mas deitou logo.... acho que vô perde a Marieta!
_Que é isso, compadre? Num pode ser tão grave , vai!
Pois parece que assim é, compadre! A pobre num come nada a quase uma semana! Nem durmi direito! Escuto a pobre gemendo a noite toda!
_E o que ocê pensa faze?
_Dr. Anacleto tá pensando ate em levar a pobre pruma clinica, lá da capital, mas eu não sei não...
_Purque , compadre?
_Ora, acho que a viagem é muita longa pra coitada. Vamo que ela piore na viagem?
_Ora, cumpadre, Dr. Anacleto sabe o que faz homi! E de mais a mais, você vai cum ela, não vai?
_Por certo que vou!
_Intão. Se ela passa mal na viagem, ocê chama o doutor, ora!
_É....ocê tem razão! Acho que é o melhô mesmo! Vou dizer pro Dr. Anacleto que nois vai, e o mais rápido possível! é bom mesmo, cumpadre, pois doença não é brincadeira!
_É ....e o Anacleto já avisô que pode ser contagioso o que a Marieta tem !
_Contagioso??!
_É.... Ele disse que pode pega!
_E como é que ocê vai faze?
_Ora, vou tratar a Marieta!
_E se pega nos outro?
_Não vai ter jeito... Vou ter que sacrificar!
_Todo o rebanho?
_Fazê o que , cumpadre?
_Que pena! A Marieta é uma vaquinha tão bonita!
Conversas de matutos...

SUPEROME

Quem seria capaz de acreditar, se nem eu mesmo acreditava?
O homem pulou de dez metros, e não morreu, ao contrario, saiu andando normalmente!
No meus quase seis anos de vida, já havia visto coisa, que até Deus duvidaria , mas nunca tinha visto aquilo!
Aos três anos e meio, perdi o rumo de casa....
Andei muito, até chegar a essa praça, onde encontrei um punhado de outros meninos, e aqui eu vivo, comendo quando da pra comer, brincando de esconde-esconde e pega-pega com a policia, e dormindo nestes buracos, porque sobe um ventinho quente.
Não vi minha mãe...
Acho que ela desistiu de mim, porque eu pedi a boneca que falava....
As vezes, quando a saudade aperta um pouco, ou o estômago dói de fome, eu choro...
Mas é só um pouquinho, pois logo vem o Juvenal, que é o pai da rua, me dá um pescoço e pronto, o choro vai embora.
A coisa ficou preta, foi quando metralham aqueles “pivetes” lá no rio..... Os “omens” não deram refresco.... quase de hora em hora, a “casa “de um caia, e lá ia ele pra Febem.
O Juvenal, que e um “pai da rua” batuta, levou a gente pra porta de uma grande loja, e lá estamos morando, já vai pra mais de três meses, mas só de dia. À noite, a gente volta pro quentino do buraco, porque senão, o Juvenal falô, que a gente pode morrê de frio.
Foi lá que eu vi o homem cai de dez metros de altura, e não se quebra todo! Vi ele dentro de uma caixa preta, cheia de botões pra aperta.
O Juvenal riu pra caramba quando contei pra ele, assustada, o que tinha visto.
Ele disse que o cara, e o tal do “superome”, e a caixa preta, é a tal da televisão!
Eu queria descobrir e como e o Juvenal sabe dessas coisas...
Acho que é por isso que ele e o “pai da rua”, nê?

SOLIDARIEDADE

Havia mais de quarenta horas que aquele homem estava sentado ali naquele mesmo local, no corredor do Pronto Socorro Municipal, segurando um chapéu surrado entre as mãos, cabisbaixo, cabelos já grisalhos, paletó pedindo um ferro de passar, sapatos implorando uma graxa de há muito...
Vez por outra, levantava os olhos, procurando alguém... Fazia já quarenta horas que agia assim... Não dizia uma palavra... Não se movia dali...
O local onde estava, era em frente à Unidade de Terapia Intensiva. Há quase quatro dias, trouxera para aquele Pronto Socorro, um menino sem nome... Sem história... Sem nada...
Não era seu parente... Nem sequer o conhecia...
Quarenta horas atrás, viajava o idoso pela estrada de chão batido, indo para casa, após um longo dia de trabalho.De repente, aparecendo não se sabe de onde, surgiu em frente a seu veículo, aquele pequeno garoto, e embora o automóvel não estivesse a muita velocidade, o atropelamento, foi inevitável!
Quarenta minutos depois, tanto o menino quanto o idoso, davam entrada no Pronto Socorro Central!
Após avaliação do Corpo Clínico de plantão, o menino foi internado na UTI, com suspeita de múltiplas fratura, inclusive um traumatismo craniano.
O menino entrou na UTI...
O velho, sentou-se na cadeira...
Quarenta horas...
Dois mil e quatrocentos minutos...
Ali, frente à Unidade de Terapia Intensiva, aquele senhor, olhava para as próprias mãos... sem saber direito o que fazer!
Era a primeira vez que lhe acontecia algo assim... Sentia-se impotente... Solitário... Parceiro somente de seus sentimentos.
Por várias vezes, nas últimas quarenta horas, voltara seu pensamento ao passado, quando ainda tinha uma esposa, dois filhos... uma família!
A esposa, morrera na virada dos anos setenta, vítima de câncer... Os filhos mudaram-se para longe, após casarem-se, e já faziam uns bons dez anos, que não lhe davam notícias...
Acostumara-se a ser só...
Calado...
Pensativo...
Há mais de vinte anos era dono de um pedaço de terra, fora dos limites da cidade...
Ali construíra um pequeno rancho, onde passava as noites...
Pela manhã, dirigia-se aos Correios, onde era o responsável pelo Posto, há mais tempo do que podia lembrar...
Agora estava ali, sem saber o que fazer...
Em certo momento, dirigiu-se ao idoso uma das enfermeiras, trazendo às mãos uma folha de papel...
Era o Boletim!
O garoto teve traumatismo craniano e, em consequência deste, veio a falecer...
O idoso levantou os olhos, olhou para a enfermeira, levantou-se da cadeira que estava sentado, há mais de quarenta horas, e saiu do Pronto Socorro...
Ninguém mais o viu...
Na manhã seguinte, o Posto dos Correios não abriu...
Ficou fechado durante uma semana...
Ao final da tarde do sétimo dia, um desconhecido encontrou um corpo, dentro de um Ford 29, parado à beira da estrada que levava à parte rural do município...
Era o velho funcionário dos Correios e Telégrafos...
O médico legista constatou:
_"Enfarto do Miocárdio!"

OS ALVES

A família Alves era o que se pode classificar de um grupo familiar austero, onde o pai ditava as regras e comandava os seus num regime bem próximo da disciplina militar.
A um simples olhar do pai, qualquer filho seu sentia-se literalmente humilhado, menos Álvaro, o caçula da pequena tropa, que tinha “cinco soldados rasos e duas soldadas rasantes” , apelido que Álvaro colocara na tropa.
As “soldadas rasantes” eram idênticas, pois eram gêmeas, e prendadas nas coisas do lar, visto que eram as mais velhas na tropas dos “sete subordinados” do General” e da “Generala”, como entres si, denominavam os pais.
Álvaro no entanto, embora obedecesse as ordens do “comando superior”, podia ser considerado como um rebelde naquela pequena tropa de elite, pois nunca deixada de fazer suas travessuras.
Sim. Tinha respeito aos pais, mas longe estava do pavor que seus irmãos sentiam do “comando superior”, seguia as ordens, mas o fazia ao seu modo, mantendo-se com a personalidade livre das influências dos pais.
Pois não foi Álvaro, que colou o chapéu do pai no cabide de casa da avó, no último Domingo de Páscoa? Não havia sido ele que soltara o tal sapo, na reunião para o chá, que a mãe organizara na sala de jantar, pouco antes do Natal? Não havia esvaziado os quatro pneus do carro de seu vigário, de quando da visita que o bom padre fez a família, quando Neuza pegou catapora?
Álvaro não deixava passar a oportunidade de divertir-se, não levando em conta as conseqüências. Tinha ele seus quinze anos ou menos, quando aprontou sua maior proeza.
Já a tempos, comentava com os irmãos que estava sentindo algo estranho”, e que crescera pêlos naquele lugar.
O Pai chamou-o e explicou certas coisas, de uma forma rude e rápida, sem haver maiores esclarecimentos, da mesma forma que havia explicado aos irmãos, quando estavam na mesma idade.
O menino começava a tornar-se homem, e a coisa agora era outra, pois as travessuras haviam de mudar de rumo, e foi o que aconteceu, quando uma prima., já mocinha, veio passar férias na casa dos Alves.
Criada fora da rigidez das primas, garota, já com seus quatorze anos, vestia-se com liberdade. Liberdade que Neuza e sua irmã não se permitiam, por ordem dos pais.
Mas a prima era visita, e o “Pelotão” ganhou nova “recruta”, mas com menos rigor a ela dispensado.
Álvaro, ao ver a prima circulando pela casa, com os joelhos a mostra, e os seios à saltar do colo, começou a pensar coisas que nunca havia permitido que passasse a léguas de sua imaginação, e começou verdadeiro cerco à prima .
Com o tempo, tornou-se verdadeira sombra da prima, seguindo-a como um cordeirinho faminto.
Não havia lugar que a garota estivesse, que lá não se encontrasse Álvaro com aquele seu olhar de pedinte esfomeado.
Certa feita, o alto comando” resolveu levar à tropa para almoçar fora. Foi uma correria!
No meio da confusão, a porta do quarto de hóspedes foi deixada entreaberta ,enquanto Flávia, a tal prima, trocava-se após o banho.
Álvaro, aproveitando a correria da casa, se postou frente a porta, só saindo dali quinze minutos depois, quando Flávia já estava totalmente vestida.
Embora já pronto para sair, Álvaro teve que trocar-se novamente, antes de entrar no carro do pai para o passeio.
No outro dia, pela manhã, a garota encarregada a lavagem da roupa da casa, encontrou as roupas de baixo do Álvaro como que úmidas, parecendo que haviam caído em um tonel de cola... ou coisa parecida.

PEDRO FILÓ

Pedro Filô era um daqueles que nasceram , e Deus esqueceu de dar juízo.
Já passava dos trinta anos, mas ainda vivia pelos terreiros, a dar corrida nas galinhas, empinando e fazendo quadrados, enfernizando a vida do gato, a quem amarrava latas ao rabo, só pra se divertir com o desespero do animal.
Estivera uns tempos em um hospital da capital, onde os médicos atestaram que, embora cronologicamente já passasse dos trinta anos, tinha ele mentalidade de um garoto de seus quatro anos, quando muito.
Mesmo tendo pouco juízo, Pedro Filô era um bom filho, sempre pronto a ajudar aos pais, quando chamavam.
Alto, bem apanhado, tinha ele a força de dois homens.
Vivia ele e a família, em cômodos alugados do coronel Justino, que tinha Pedro Filô em alta conta, visto que não tinha filho homem.
Coronel Justino tinha uma única filha, já com seus quinze anos e Pedro era companhia constante da menina.
Um dia, a filha do coronel Justino apareceu prenha.
Foi um Deus nos acuda!
As senhoras das redondezas comentavam o fato, e analisavam quem seria o pai.
Todos os rapazes da redondeza eram suspeitos, menos o pobre do Pedro Filo, pois não o julgavam capaz do feito.
A Joaninha, filha do coronel Justino, nunca revelou o nome do pai da criança, que nasceu nove meses depois .
O menino criou-se forte como um touro, mas com distúrbio mental, que os médicos , a quem o coronel Justino levou-o para consulta, alegaram que era um caso de atraso mental congênito, trazido desde a concepção.
O pai de Juaninha não entendeu nada que o medico disse, e trata o neto com o maior carinho.
São coisas da vida!

SERÁ QUE CHOVE?

De certa feita, na estrada que liga a cidade de Coimbra a Viçosa, na tal das Minas Gerais, dois matutos se encontraram.
Um, ia de Viçosa para Coimbra, e o outro vinha no sentido contrário, viajando sem destino.
Dizia a quem lhe perguntasse, que havia "saído para distrair as idéias", isso há uns vinte anos e ainda não havia conseguido". Portanto "não podia voltar. Voltar, seria dar prova de mentiroso, pois como podia voltar, se suas idéias ainda não estavam distraídas?"
O que tinha destino, perguntou-lhe então:
_"Será que chove?"
O andarilho, pensou um pouco... olhou para o céu... coçou a testa levantando o chapéu de palha... sentou-se num toco de árvore morta que havia ali no acostamento da estrada... enfiou uma das mãos no bolso da camisa, retirando um punhado de palha especial, enquanto que, com a outra retirava do bolso das calças, um bom pedaço de fumo-de-rôlo curtido. Depois, do outro bolso fez sair um canivete afiado... Picou um bocado do fumo, ofereceu ao outro, que recusou, porque não fumava e passou então a fazer seu cigarrinho... sem pressa nenhuma... mas, consciente de que o companheiro lhe fizera uma séria indagação.
Quando o cigarro ficou pronto, ele colocou-o nos lábios, ascendeu-o, tirou uma bela tragada, colocou o cotovelo no joelho esquerdo e virando-se para o companheiro, disse:
_"E se ma'le pregunte... Pruquê o amigo qué sabê?"
O outro matuto, que trazia às costas uma enxada de bico, dessas de desenterrar mandioca, apoiou-a no chão, encostando-a no barranco...
Arregaçou as pernas das calças, postou-se de cócoras em frente ao outro, retirou do bolso da camisa uma latinha própria para transportar rapé... tirou dela uma boa pitada... levou a uma narina, depois à outra, deu uma forte fungada... guardou a latinha, e respondeu:
_"Pur nada não... só tava puxano prosa..."
O outro, levantando-se, arrumou o chapéu na cabeça, enfiou os dedos polegares por dentro do cós das calças, um de cada lado, deu leve puxão, e levando-a até à cintura, respondeu:
_"Ah bão... nesse caso, chove não!"

domingo, junho 24

DONA DURVALINA

Aquele senhor, já estava sentado no banco da praça, quando Dona Durvalina passou por lá, às seis e meia da manhã, para ir enfeitar o altar de São Loureço, por causa da graça que alcançara, quando pedira ao bom Santo, para fazer com que seu marido criasse juízo e parasse de beber, pois a recomendação do médico fôra taxativa: "ou parava, ou ia ser a principal atração de um velório... o seu".
A velha senhora não estava com disposição para ser chamada de viúva, e espalhara aos quatro ventos: "ou o Santo dá seu jeito, ou o velho toma vergonha. O que não quero é enterrar-me em vestimentas de luto fechado, por um porqueira, que nunca valeu coisa alguma!"
Segundo Dona Durvalina dizia, o Santo fez o milagre, e ela pagava seu quinhão da promessa, com fervor e gratidão, pois não era mulher de dever nada a ninguém, principalmente a São Lourenço, que devia ter um prestigio dos diabos, pois conseguirá fazer o velho desistir da cachaça, coisa que nenhum ser humano conseguira, por isso todos os dias, às seis e meia da manhã, atravessava ela a praça, e entrava pela porta lateral da Igreja, indo enfeitar o altar do Santo, chovesse canivete ou tivesse um sol de lascar.
Aquele senhor, com terno de casimira quadriculada e camisa branca de mangas compridas com colarinho alto, calça azul-marinho, meio desbotada pela ação das lavadas constantes, meias brancas, sapatos pretos impecavelmente sujos de lama, gravata de seda, com motivos florais e um pequeno chapéu de feltro, com uma pena azul-turquesa do lado esquerdo, que caía-lhe sobre os olhos, estava sentado no mesmo lugar, quando Dona Durvalina voltou da Igreja, às nove da manhã, logo após a missa.
Ao meio dia, Dona Durvalina atravessou novamente a praça, pois lembrara-se que tinha de buscar massa de tomate para o macarrão, prato que resolvera preparar naquele domingo, e seu Alencar, Dono da Mercearia, arreava as portas de seu estabelecimento as doze horas e quinze minutos, pontual como o Big-Bem, só voltando às suas atividades comerciais na segunda feira.
Quando passou pela praça, tanto na ida como na volta do mercadinho, Dona Durvalina avistou o mesmo senhor, no mesmo lugar, com as mesmas vestimentas.
Eram treze e trinta, quando Dona Durvalina colocou, ao centro da mesa, a bela travessa de porcelana chinesa, com a sua já famosa macarronada, e chamou os filhos: três meninas, já gastando pequena fortuna na caderneta da farmácia de Seu Valdomiro, em absorventes íntimos, que usavam como se fossem rolos de papel higiênico; um menino de doze anos, que vivia perseguindo as meninas do Colégio Municipal, onde há quatro anos não alcançava nota para sair do primeiro ano do primário, e o mais velho, que completaria vinte e um anos no próximo sábado, com missa encomendada ao Monsenhor Nonato, que já cedera o Salão Paroquial para os festejos, já encomendados ao Buffet de Marcolina, a mesma que fizera a festança do filho do Senhor Prefeito, da qual Dona Durvalina gostara tanto...
Com o almoço à mesa, e os garotos todos sentados, Dona Durvalina, após servir um a um, também sentou-se...
Foi aí que lembrou-se:
_"Cadê o Mané?!
Foi uma correria!...
A casa foi revirada de ponta a cabeça, e nada...
Quando os garotos já estavam se cansando da procura e reclamavam que a macarronada esfriara, D. Durvalina, teve um "estalo" de memória...
_"Augusto! - falou ao filho de doze anos - Corre na praça e avisa teu pai que o almoço está na mesa. Ele esta lá, sentado no banco, esquentando o chapéu de feltro!"

A ELEIÇÃO

A eleição terminara, e o resultado levava a oposição ao poder! A situação não fizera o Prefeito e nem conseguira colocar maioria na Câmara de Vereadores, que de nove edis, só um sendo situação, conseguiu reeleger-se.
A cidade entrou em festa! Rojões cortavam o céu! Bandeiras da oposição se faziam dependurar nas janelas! Cabos eleitorais vitoriosos, festejavam nos bares e nas casas noturnas!
A casa de "Maria Cavanhaque", Dona "Cavanhaque", como os fregueses chamavam a já idosa prostituta, tinha gente que não acabava nunca. As "raparigas", com camiseta do novo Prefeito eleito, sem nada mais por baixo, cortavam o salão, numa verdadeira orgia eleitoral, "tudo, tudinho", bancado pelo "fundo de Campanha" do partido vencedor!
Na casa de "Jacinta Bigoduda", cuja dona, uma também ex-prostituta, que ganhara este apelido, pelo grande número de pêlos, que haviam se acumulado em sua "antiga fonte de renda", nada era diferente, pois suas meninas, nuas em pêlo, entretinham os vitoriosos, que conseguiam abarrotar as duas casas, transformando a rua do baixo meretrício na maior orgia que aquela cidade já tinha visto, superando e muito, a farra que montou o Bispo, quando o Papa descobriu que ele tinha o hábito de ali passar as noites, e o destituiu do cargo, levando-o a montar uma festa quase tão boa quanto esta, que a oposição estava patrocinando, com o dinheiro suado dos contribuintes do partido, que também participavam da festa, mas nem se lembravam que era o seu próprio dinheiro que mantinha as duas casas e as meninas, abertas para a farra até o dia amanhecer.
No outro dia, a cidade só funcionou normalmente após o meio-dia, pois, como diria o Seu Manoel, dono da Padaria Sol Nascente:
_"Temos uma cidade, sim senhor, mas ela dormiu com cavanhaques e não pretendem vocês quererem que ela acorde, antes de pentear os bigodes."
Lá pelas duas da tarde, o Prefeito chamou o Chefe de Gabinete, convocou seu Secretariado, e anunciou oficialmente o resultado das urnas:
_"Ele ganhou, nós perdemos... agora, somos oposição, portanto, a coisa muda de figura..."
E deu por encerrada a reunião.
Ao fim do dia, o Prefeito voltou para casa.
Na hora do jantar, o velho Coronel era o senhor Todo-Poderoso, sentado à cabeceira, o último dos grandes senhores da terra, pai de um rebanho de três filhos: dois rapazes e uma mocinha.
Após o jantar, o orgulhoso Coronel, chamou o filho mais velho ao Gabinete...
_"Tudo correndo bem meu rapaz?"
_"Tudo, senhor meu pai!"
_"Como estão eles encarando a coisa?"
_"Otimamente senhor... sem problemas!"
_"Está certo "senhor Prefeito"... faça uma boa administração e não me deixe dívidas, para que eu as tenha que pagar daqui a quatro anos!

SUICIDA

Parado à beira de um rio profundo, um homem resmungada consigo mesmo.
_Me jogo, ou não me jogo? Acho melhor jogar-me logo, e acabar com isto!
Um senhor, de certa idade, que passava pelo local, escutou aquilo e resolveu intervir.
_O que é isto moço? Porque quer se matar tão jovem?
_A vida não me vale de nada! Minha esposa trocou-me por um caixeiro viajante; meu filho esta preso, por roubo; minha filha se prostituiu e não sei onde anda; meu filho do meio, levado pelo irmão anda não sei onde, traficando bolinhas; a minha sogra, depois que minha mulher se mandou, nunca mais quis saber, nem de mim ou de meus filhos; meus amigos me devem uma nota preta, e não me pagam nem os juros, minha amante {que eu não sou de ferro} apareceu de barriga. Tenho certeza que o filho não é meu: o senhorio pediu-me a casa, e já recebi a ordem de despacho: meu carro, que comprei à prazo, a financeira tomou de volta, por falta de pagamento: a companhia telefônica cortou a linha lá de casa, só porque não paguei a conta: fui assaltado ontem a noite, e o ladrão levou meu relógio rolex, que ganhei de meu pai: nervoso com o assalto, cai em um buraco perto de casa, e acabei quebrando meus óculos; Tive uma discussão com o padre, e ele me excomungou da igreja; fui no centro de Pai de Ogum, e o guia me disse que costuram meu nome na boca de um sapo: minha empregada pediu as contas, por falta de pagamento: meu cachorro, que criei desde pequeno, atacou-me ontem, e por pouco não me tirou um bife da canela; e ainda por mal dos pecados, minha mãe se recusa a falar comigo, porque diz que não criou filho pra ser corno. O que o senhor faria, numa situação destas?
_Me sentava em frente a TV, e assista a um bom filme...
_A TV pifou a semana passada!
_Então monta um joguinho de buraco...
_Não posso! o desalmado do cachorro comeu as cartas!
_Então vá fazer uma viagem...
_Ate que eu ia, mas não tenho dinheiro prá passagem...
_Vá a pé’!
_Sofro de gota!
_De bicicleta!
_Os pneus estão furados!
_Que tal uma pescaria?
_Não sei pescar!
_Passear a beira mar...
_A salitre me faz mal...
_Um passeio de canoa...
_Sofro enjôo...
_Escutar rádio...
_Sou meio surdo...
_Porque então não da um tiro nos miolos?
_Pensei nisso , vendi o revolver à tempos, pra comprar comida!
_Porque não assalta um banco! Você reage, e a policia te mata!
_E se não matarem?
_Te prendem, ora !
_Ai fico vivo!
_Mas na cadeia, e mais fácil morrer!
_Como!
_Te enforca com os lençóis!
_E se não derem lençóis?
_Eu não sei
_Então vamos fazer o seguinte: olha pra aquele lado ali, é da um Alô pros parentes, pois você acabou de participar da “pegadinha do Faustão”!

EITA CIDADE PORRETA....

Aquela e uma boa cidade , com uma boa população.
A Igreja Matriz fica na praça 2 de julho , ao lado da agência do Banco do Brasil , onde seu vigário tem conta corrente , que sempre esta no vermelho.
No terreno da Matriz , fica a casa paroquial , onde mora o seu vigário , Ederaldo , o sacristia e Carmem , sua esposa , dona de um corpo estruturalmente bem proporcionado , que a turminha de parceiros de turco , juram que é amante do vigário , mas nunca se conseguiu provar o “corneamento compulsivo” do Ederaldo , mas assim mesmo segue o comentário, que já ultrapassou a mesa do jogo de truco, com certeza.
Do outro lado da praça , fica a padaria do Germano , o cinema e a casa de dona Elclacia, a dona do terreno onde o Marcos “boa boca” montou o único posto de gasolina da cidade, e ficou rico.
Elclacia, além do terreno do posto, é também a dona de todas as casas da rua de baixo, onde fica a casa de Maria Boa Bisca , que recolhe meninas desprotegidas pela vida e as coloca a disposição dos amigos, mantendo a casa aberta, com festa todo dia, a partir das nove da noite.
Elclacia é viuva do Honorário, que foi prefeito, mas isso a muitos anos , quando a cidade valia a pena. Agora, em tempo de eleição, os partidos tem que catar candidato quase a unha, pois o orçamento da cidade não da pra nada!
Filomena dos Santos, Dona Filó, é a única professora da cidade . O ordenado de Filomena e tão pouco que, pra sobreviver, Filó faz “bico” na casa de Maria Boa Bisca. Como se não bastasse o ordenado ser uma miséria Filó não recebe a oito meses, pois a prefeitura alega não ter recursos. Com isso, ganha a cidade, pois a mesma professora que ensina o ABC para os pequenos, ensina o resto da lição, para os mais velhos.
Diz o prefeito que isso é democracia, e ninguém discorda dele, pois afinal a Filó é boa professora e sabe bem dar suas aulas, indo muito além do que diz os planos educacionais da Prefeitura.
A Carmem veio para a cidade com um grupo de ciganos , e se perdeu de amores pelo Ederaldo que estava ainda “ensaiando” para ser sacristão e, quando os ciganos foram embora, Carmem ficou.
Seu vigário apoiou o casal , fez o casamento e deu ao Ederaldo o cargo de sacristão. O mais estranho é que, antes disso, seu vigário nunca quis ninguém na casa paroquial, mas agora anda à comprar roupas pra Carmem, que anda pela cidade em tal luxo que coloca a Maria das Mercês, filha do coronel Fugêncio, nos chinelos.
Não e toa que a turminha do truco fala que o padre passa o Ederaldo pra traz.
A cidade fez movimento pra expulsar a tal da Carmem, quando os ciganos foram embora , mas seu vigário conteve os ânimos.
Agora, com o passar do tempo, Carmem já tem seu espaço, sendo inclusive filha de Maria, respeitada até pelo João Curtido, que vive de porre, vive na praça e faz “xixi” na campa do pobre do Honório, todo dia de Finados, em honra do amigo.
Quem não gosta muito desta “Honraria” com o Honório é a viuva, dona Elclacia, que molha sempre os cotovelos, quando vai rezar o terço no cemitério, em dia de Finados. Aliás, Elclacia reza um terço pró marido, ao lado da campa, no cemitério, todo santo dia às seis da tarde. Seu vigário tá cansado de dizer que é exagero, mas a viuva não leva a sério o aviso do padre, e atrasa o fechar do cemitério todo dia.
Talvez esteja na hora da viuva saber que o Honório não era lá este santo que todo mundo diz, pois mantinha casa montada, sem que a Elclacia soubesse, pra Joana do Peito Caído, ex-afilhada de Maria Boa Bisca, lá na rua do cartume, mas não há quem ganhe coragem de contar pra Elclacia.
É coisa que todo mundo sabe, menos a pobre viuva.
O mais engraçado de tudo isso a Joana Peito Caído, que “na vida civil”, tem o nome pomposo de Joana Albuquerque, vive de “leva e traz” com Elclacia, pois as duas são filhas de santo do terreiro de Pai Germano, no morro do cemitério. Passam o dia de Sexta-feira as duas, lado a lado, fazendo os tais quitutes para os santos e, no cair da noite, lá estão as duas, na reza do atabaque. Preparam o banquete, todo enfeitado com lírios silvestres, doces diversos, salgados, farofa sem sal e sem açúcar e o galinha preta. Pouco antes do barracão abrir, há o banho das sete ervas, que Joana prepara com esmeros. Ao cair da tarde de Sexta-feira, pouco depois do crepúsculo, Joana Peito Caído abre as portas do barracão e começa o chegar do povo, gente humilde, trabalhadores do corte da cana, que escolheram o barracão, ao invés da majestosa igreja matriz.
Quando as badaladas da matriz avisam que já são oito da noite de Sexta-feira, Elclacia sai do quartinho e senta-se na cadeira de espalmo longo, no centro do barracão. Agora não e mais a dona da rua de baixo, a proprietária do terreno do posto de gasolina, viuva do Honório; filha de Maria.....
Hoje e Sexta.
Dia de função no terreiro de Pai Germano, onde dona Elclacia e mãe pequena.

JOÃO DE DEUS E O COBERTOR SALTANTE

A casa se localizava à beira da estrada. Fôra construída em barro, jogado aos montes, sobre a armação de bambu, tanto por fora quanto por dentro...
Era uma casa de três cômodos, sendo sala, cozinha e quarto, com um banheiro no fundo do quintal.
Nas paredes, já se via o surgir do musgo, que ali se formava por excesso de umidade e escassez de cuidados com o imóvel, que a Unidade Municipal de Saúde, já constatara por duas vezes, estar com foco do "Barbeiro", o inseto transmissor da "doença de Chagas"!
Mas os proprietários continuavam ali, sem arredar o pé, tomando água de uma fonte natural não potável, que corria a céu aberto, descendo do barranco de barro vermelho, que se podia ver aos fundo do quintal.
O casal de idosos, que nos fins de tardes sentava-se à porta da frente, a menos de dez passos da movimentada rodovia, trazia no rosto as marcas do tempo, e no andar, o peso da idade...
Eram os avós do pequeno garoto, que corria sobre a luz do infinito, tentando capturar um pequeno coelho do mato, que teimava em deixá-lo chegar perto, mas corria-lhe das mãos, em saltos, que faziam o menino se divertir.
A esperteza do animal, o estimulava, ao ponto de não o deixar desistir de colocar-lhe as mãos.
Não o iria transformar em sopa, ou na refeição do dia...
O queria como mascote, como companheiro de aventuras, como aquelas que o avô contava-lhe, quando estava de "boa maré", sobre o homem "caolho", de óculos e chapéu de couro cru, que havia existido no antigamente, e que havia perdido a cabeça junto com uma bela mulher, só porque queria justiça, nada mais do que justiça!
Por certo, para conseguí-la, foi vez por outra injusto, mas o erro é dos mortais, e como dizia seu avô:
_".... O homem foi macho!"
Pois é. Queria ser macho também, e não seria aquele "Cobertor Saltante", que o faria desistir de ter o seu mascote, não senhor!
Queria, porque queria, e pronto...
E era "aquele mascote"... Outro não o contentava!
Já se acostumara com ele, ora bolas!
O tio, que morava na cidade, já havia lhe trazido um "vira-latas", mas o pestinha foi atravessar a pista, não se sabe para que, e... virou adubo do roseiral do avô, que lá o enterrou, com direito a uma cruz de galho seco, e lá ainda estava ela, já com uma roseira lhe aproveitando como apoio.
Pelo menos, depois de morto, o "pestinha" do vira-lata servia para alguma coisa, pois a roseira da cruz, era a que melhor estava aguentando o calor que estava fazendo...
O asfalto da estrada, ficava marcado com os pneus das "jamantas" pesadas, que passavam numa velocidade tamanha, que se podia escutar até o vento, assobiando...
Mas o danado do "Cobertor Saltante", não se assustava com o barulho da estrada. A única coisa que o assustava um pouco, mas também não era muito, era a vassoura da vovó, quando ela resolvia, vez por outra, varrer o chão batido e levantar poeira...
Mas não era só o "Cobertor Saltante" que reclamava...
A mãe do menino, uma moça que a uns tempos atrás resolveu ir de carona até a cidade, e ao voltar, trazia já no ventre seu rebento, sem saber direito explicar quem havia sido o caminhoneiro com quem passara a noite, também reclamava com a anciã, este seu costume, principalmente se o praticasse, quando a roupa estava no varal. A moça tinha que lavar tudo de novo, pois os lençóis que já não eram tão brancos como deveriam ser, ficavam amarelos, "que nem se tivessem com ecterícia", como dizia ela, reclamando com sua mãe...
Quem também não era muito chegado no varre-varre, era o velho, que na noite em que a velha tinha esses "ataques de limpeza", não pregava o olho, numa tosse danada, e um pigarro que ardia-lhe a garganta.
O "Cobertor Saltante", quando a idosa senhora começava o varre-varre, se escondia em sua toca, e lá ficava, até que ela desistisse da tarefa de limpeza.
O menino era outro que não gostava, mas não era por nada não. Ele não gostava, é porque com a poeira que se levantava com o uso da vassoura, ele não conseguia ver onde seu companheiro se escondia, pois, se soubesse, já estaria com ele ao seu lado há muito tempo, desde o dia , em que a mãe não o viu sair do cercado, e o pegou ainda engatinhando ( pois não tinha mais do que uns seis meses), quase já no meio da pista, indo atrás daquele a quem hoje já chama de "Cobertor Saltante", mas que naquele tempo chamava apenas de... - "dá...dá...dá..."
Mas o tempo do dá...dá...dá... , já era passado...
Daqueles tempos, ao hoje, já se podiam contar seis longos anos de correria cansativa pelo chão batido, com o menino, sempre a três ou quatro passos atrás do "Cobertor Saltante"...
Às vezes, quando o tempo mudava e a chuva caía, transformando o barro batido em lama vermelha, a jovem mãe não deixava o valente corredor sair de casa, e ele ficava pelos cantos, brincando com meia dúzia de gravetos, vez por outra procurando pela janela, com aqueles seus olhinhos vivos, o companheiro de aventuras, e sempre o via a saltar na chuva, refrescando-se...
Naqueles dias de chuva, além dos bolinhos de farinha de trigo, água e açúcar, queimados na gordura quente, eram os dias das perguntas:
_"Mãe, por que o vô é vô?"
_"Porque ele é meu pai, filho.."
_"E por que eu sou filho?"
_"Porque você nasceu de mim..."
_"E cadê o meu pai?"
_"Não sei... Deve de tá por aí..."
_"E como é meu nome?"
_"João de Deus!"
_"Por que... de Deus?"
_"Porque foi Deus que te deu prá mim!"
_"E não me deu prá um pai também?"
_"Não sei..." - Uma lágrima rola dos olhos da jovem mãe...
_"Mãe!!! Porque que ocê tá chorando?"
_"Não é choro não, filho... É cisco!
_"Há! Bão! Deixa eu assopra, que passa..."
Certo dia, um carro bonito, com quatro grandes portas e um cavalinho de aço no capô, parou frente à casa...
Dele, saiu um senhor, que a mãe apresentou ao menino como sendo o seu Tio Antônio, que viera da cidade grande, em visita aos velhos.
Após beijar o menino, levou o estranho mais de duas horas, em conversa com a jovem senhora.
Quando terminou a conversa, a mãe chamou João de Deus, e lhe disse:
_"João, você já está ficando um rapazinho. É hora de você estudar, ir para a Escola, ficar inteligente... O Tio Antônio veio da cidade, para buscar você. Você vai morar com ele, e a Tia Gertrudes, mais a Magda e a Hortência, suas primas..."
_"E ocê, mãe?"
_"Eu vou ficar aqui, para cuidar da vovó e do vovô..."
_"E eu num posso ficar não?"
_"Tá na hora de você ir pro Colégio, e aqui não tem Colégio... Só lá na cidade, onde mora o Tio Antônio mais a Tia Gertrudes..."
_"E eu não vou voltar mais?"
_"Vai... Quando puder... Nas férias..."
_"E o "Cobertor Saltante"?"
_"Quem?"
_"Meu amigo... o "Cobertor Saltante"!"
_"Há... Teu Coelho... Eu cuido dele prá você!"
"Ocê num esquece de dá comida e água?"
_"Não esqueço não, filho..."
_"Promete, mãe?"
_"Prometo, filho!"
_"E ocê vai ver eu?"
_"Vou... Assim que puder..."
_"Óia, mãe, se o pai aparecê, dizendo que Deus deu eu prá ele também, dá o endereço do Tio, e manda ele levá o "Saltante", prá passá um tempo comigo... Talvez, com a aula lá no Colégio, eu aprenda a correr mais que o "Cobertor", né mãe?"
_"Talvez, filho... Talvez..."
_"Intão eu vou!"
A jovem mãe, com lágrimas nos olhos, arrumou as roupas do menino na única mala da casa, uma antiga maleta de papelão... Deu banho no garoto numa antiga bacia de alumínio, que o avô usava para lavar os pés, trocou-o com a roupinha nova, que o Tio lhe trouxera, e lá foi João de Deus, para a cidade grande, tentar ser que nem seu Tio Antônio: estudar, ser gente, ter carro grande... e esquecer pai e mãe...
Dois dias se passaram...
O pequeno coelhinho vinha até a porta da casa, corria de um lado para outro, fazia festa, e como João de Deus não aparecia, sumia pela vegetação rala e as moitas de capim...
Na manhã do terceiro dia, não houve festa na porta da casa...
Nem correria, de um lado para outro...
Bem em frente à casa, na estrada, jazia "Cobertor Saltante", que um caminhão havia atropelado...
Virou adubo de roseira, o amigo de João de Deus.

A PRIMEIRA MISSA

O menino partira, de perto de seus pais, aos doze anos, levado pelo Sacerdote, que resolvera fazer de seu coroinha mais fiel, o seu sucessor.
Arrumara a matrícula do garoto no Seminário, e todos os meses, mandava-lhe notícias de Seu Juca e Dona Ester, pais do noviço, gente humilde, que se sustentava com a venda do trabalho braçal de Seu Juca, como meeiro de Manoel Paranhos, o proprietário da terra e padrinho do menino, que todo orgulhoso, espalhava aos quatro ventos, que brevemente, seu afilhado seria Bispo, se não conseguisse ser Papa, já que em Roma seu prestígio de Coronel era pouco.
Mas Bispo, batia o pé que conseguiria fazer do garoto, nem que para tanto, tivesse que "queimar" alguns cartuchos na política da Capital...
_"O filho do Juca vai ser Bispo, sim senhor!"
O Seu Juca, o pai, pouco falava sobre o assunto. E só concordara com o Seu Vigário, porque Dona Ester lhe pediu muito, e não negava nada a sua esposa.
Ele era "espírita de carteirinha", com cadeira cativa no Terreiro de Pai-Ogum, e não se sentia muito bem com aquela história toda, ainda mais com a conversa do Coronel, espalhando aos quatro ventos, que o menino ia virar Bispo...
Já estava fazendo dez anos, que o menino deixara a Vila, com aquela conversa de ser Padre, e Seu Juca, nunca mais o vira...
Naqueles dez anos, sujeitou-se a trabalhar feito mula, para que Dona Ester, pudesse comprar à prestação no Turco, os paramentos e as batinas necessárias para que o filho realizasse sua Primeira Missa, que segundo o Seu Vigário, iria acontecer no próximo domingo, às dez horas, com a presença do Bispo, do Senhor Prefeito, do Seu Coronel, e todos os padres das Paróquias da redondeza, segundo mandava os tais dos "rituais", coisa que Seu Juca, não entendia muito bem mas, "se era o gosto de Ester, vá lá... que se compre os tais Paramentos... e as tais batinas... e que se realiza o "ritual..."
Que Ester mande fazer seu vestido bordado, na Mariquinha Costureira... Ele, o velho Juca, vai à missa com o terno de sempre...
Só para seu "desencargo de consciência", pedira a Pai -Ogum para jogar os Búzios para o rapaz, e o santo ditara:
_"O menino será feliz, e que o pai conforme-se, e apoi-o, se puder..."
O domingo chegou...
Às oito, chegou o rapaz, em carro especial do Bispado, e trancou-se na Casa Paroquial...
_"Nem sequer foi dar um beijo na mãe, o ingrato!" - Pensou com seus botões, Seu Juca...
Às oito e quarenta, chegava ao casebre de Seu Juca e Dona Ester, um "Padreco" desconhecido, dizendo-se representante Oficial do Bispado, e ali estava, por ordens do Senhor Bispo, para orientá-los e leva-los à missa.
Seu Juca olhou o relógio, fez as contas, e respondeu:
_"Óia, Seu Padre, a cadêra taí... O Sinhô senta, e ispera, inquanto eu vô dá mio prás galinha e lavage prus porco... A Ester, vai sirvi um cafezim pro Padre!... É gostoso, pruque nóis adoça cum rapadura. O Sinhô fique à vontade, viu?!"- e saiu...
Dona Ester serviu o café ao "Padreco", e "entrou na prosa", contando para o Padre, quase toda a história do filho. Às nove e meia, Dona Ester entrou para se arrumar, colocando o vestido negro, bordado na gola, nas mangas e na barra, vestimenta que a renovava uns vinte anos...
Seu Juca, após lavar os pés em uma bacia de alumínio, entrou também para o quarto, deixando ao "Padreco" como companhia, a velha Maricota, uma galinha caipira, orgulho de Seu Juca, que Dona Ester ameaçava transformar em canja todo domingo.
Às nove e cinquenta, saiu do quarto o casal...
Seu Juca, com terno negro, gravata preta e camisa branca, com punhos e gola engomados, além do cabelo muito bem penteado para traz, e a barba perfeitamente escanhoada, estava irreconhecível...
Em companhia do "Padreco", deixaram o casebre...
Quando o casal entrou na Igreja, lá encontrou toda a cidade, espalhada pelos bancos. Até Pai-de-Ogum , lá estava, com seu terno de linho branco, e camisa da mesma cor, tendo como campainha sua esposa, e como gravata, suas "guias de santo", além das filhas de seu terreiro, todas ricamente vestidas com os paramentos de seus respectivos "santos de Cabeça"...
O Coronel, também lá estava, com sua esposa e filhos, todos com a roupa de domingo, muito bem vestidos, por sinal...
Ao canto na nave, Seu Juca avistou a turma do Truco, seus amigos do "Buteco do Juarez", todos inacreditavelmente sóbrios, acompanhados por suas "elegantes" esposas...
Ao fundo da nave, foi Dona Ester que viu "Maria Pouca Roupa" e suas meninas, e pensou: - "Não é lugar pr'essas decaídas!" - Mas quando ia reclamar com Seu Juca, ele a chamou para sentar-se no lugar a eles reservado, no primeiro banco.
Sentaram-se, tendo ao seu lado o Senhor Prefeito, sua esposa e a única filha do casal, com seus dezoito anos, ainda solteira e descompromissada...
Dizem as más línguas, que a moça é tão virgem como no dia em que nasceu, pelas mãos de Dona Violeta, a parteira, "única autoridade médica" daquele fim de mundo, como diria o Justino, o Farmacêutico, sentado ao lado de Dona Violeta, dois bancos atrás de Seu Juca...
Lá também estavam todos os filhos do Terreiro de Pai-Ogum, por força do convite que lhes levara o Representante do Bispado, quem nunca mais esqueceria, o vexame de ter que entrar num "terreiro de macumba", só por causa dos caprichos de um jovem Padre, que fazia questão da presença de todos os seus amigos, sem distinção de raça, cor ou religião, isto sem falar na ideologia, pois o Farmacêutico, Seu Justino, era "Comunista"...
Todos em seus devidos lugares, o Órgão da pequena Igreja se fez escutar. E teve início, aquela que seria a Primeira Missa do menino, que um dia fôra Coroinha, naquele mesmo altar...
Seu Juca e Dona Ester, com os olhos rasos d'água pela emoção, viram, depois de dez longos anos, seu menino saindo da Sacristia, e subindo os três pequenos degraus que levavam ao altar...
Se tornara um homem!
Tornara-se robusto, forte, porte atlético, rosto fino, barba comprida e bem aparara...
Dona Ester, ao vê-lo usando os paramentos que comprara no Turco, e ainda não acabara de pagar, sentiu uma lágrima molhar-lhe o rosto...
"Maria Pouca Roupa", ao ver tal figura, puxou uma de suas meninas pelo braço, e sentenciou-lhe ao ouvido:
_"Que disperdício de homem!!!"
O Coronel, também puxando sua esposa pelo braço, disse-lhe:
_"Será nosso Bispo, não tenha dúvidas!!!"
A parteira, com os olhos úmidos, virou-se para o Farmacêutico, e falou:
_ "Nasceu raquítico... Olha só no que se tornou!"
Na hora da comunhão, o jovem padre desceu do altar, ajoelhou-se aos pés da mãe, e lhe disse:
_"Mãe, dá-me sua benção!"
Dona Ester, profundamente emocionada, beijou a testa do filho, que logo depois levantou-se, e estendendo a mão, cumprimentou o pai, dando-lhe um grande abraço.
Seu Juca sentiu então, uma lágrima correr-lhe a face, e disse-lhe baixinho:
_"Deus te abençoe, filho meu!"
O rapaz, quando voltou ao altar, trazia os olhos marejados, e duas lágrimas, lhe molhavam as barbas...
Ao fim da missa, o Bispo anunciou:
_"Minhas senhoras e meus senhores, caríssimos paroquianos, de amanhã, em diante, sua paróquia ganha novo Sacerdote: o Padre Joaquim Bernardo, filho da terra e amigo de vocês. Aos seus pais, os meus mais profundos respeitos, e ao jovem Sacerdote, minhas bênçãos pessoais e o meu desejo sincero, de que tenha de Deus, a ajuda para sua missão!"
Foram quatro dias e quatro noites de festa...
O Prefeito, decretou feriado municipal...
O Coronel mandou matar oito bois, dois por dia...
A parte líquida da festa, correu por conta do "Buteco do Juarez", pagamento feito pela "Turma do Truco"...
"Maria Pouca Roupa" abriu sua casa gratuitamente, em comemoração ao belo Padre, que a Matriz ganhava...
Um mês depois, já se podiam ver as mudanças...
Toda a "Congregação das Filhas de Maria", se renovara. Na listagem, apareciam os nomes de diversas filhas de fazendeiros da região, que nunca frequentaram, com bom grado, as atividades da Paróquia, indo às missas dos domingos, quase aos trancos, por imposição dos pais...
De uma hora para outra, todas corriam à Sacristia, dando seus nomes como integrantes da Congregação.
Até a filha do Prefeito, colocou seu nome entre as novas "Filhas de Maria"!!
A Igreja, com o novo Padre, abriu conta no Banco, para fazer frente a uma reforma, já necessária de há muito...
O jovem Padre encomendou da Capital, um novo Jogo de Sinos para substituir o antigo, pequeno e já ganhando ferrugem...
Em menos de um ano, a cidade ganhava nova vida. Parecia que o "belo Padre", com sua mentalidade evoluída, fizera a cidade se renovar...
A nave foi reformada em seis meses, tempo recorde, ficando ainda "boa importância", na conta bancária...
Dois meses depois da inauguração da nova Nave da Matriz, uma "bomba" estourava na cidade!...
O filho de Seu Juca e Dona Ester, não era mais o Sacerdote da Matriz...
Era agora "Filho do Terreiro de Pai-de-Ogun", e... noivo de Marcolina, filha do Senhor Prefeito, grávida de quatro meses.

A SOBREMESSA

Dona Carmela, era há mais tempo que a memória se lembra, a responsável pela Agência dos Correios da pequena cidade, onde tudo era de conhecimento de todos, e os segredos dos "antigamente", guardados a sete chaves, das quais, Dona Carmela, já tirara cópias de há muito!
A vida de Dona Carmela, viúva há tanto tempo, que nem mais sabia onde andava a sua certidão de casamento, era a de uma senhora de meia idade, embora comentassem vez por outra, que algumas noites, a boa senhora, deixava a porta dos fundos aberta, por onde entrava Seu Malaquias, altas horas da noite, pé-ante-pé... e só saía pouco antes do galo cantar.
Comentavam que Dona Carmela fazia o pobre do Seu Malaquias suar frio, frente às posições eróticas que inventava, à luz do lampião...
O finado, aparecera morto certa manhã, nu em pêlo, com os olhos arregalados e um sorriso sacana aos lábios...
O médico, chamado às carreiras, constatou que o pobre morrera do coração!
Assim ficara viúva Dona Carmela, que acostumara-se, com o correr do tempo, a deixar a porta dos fundos aberta...
No dia anterior ao velório do finado, Dona Carmela, mestra de forno e fogão, preparara para a janta, moqueca de linguado, regada a azeite de dendê, e contava, algumas horas antes do sepultamento de seu marido, que o finado, havia se empapuçado com sua deliciosa iguaria!
Contam, aqueles que ao velório compareceram, que o defunto teve de ser enterrado com a barrigudinha, das calças, aberta, pois não houve "Cristo" que conseguisse fazer seu "mastro" baixar a bandeira!
Motivo foi de risos no "Buteco do Turco Abdala", amigo do falecido, onde o finado passava as horas da tarde, em constante contar de causos...
Dona Carmela arrumou a maior confusão no velório, quando "Joaquina Prega-Aberta", uma velha cafetina da cidade vizinha, resolveu aparecer, com "duas fulaninhas"...
O trio, encostado ao caixão, chorava aos soluços, enquanto a velha cafetina, alisava o "mastro", que não descera a bandeira...
O enterro do finado foi o mais concorrido da cidade, pois o caixão, por causa da altura do "mastro", não fechava, e teve de ir de casa ao cemitério aberto!
Seu Lindolfo, velho amigo do falecido, mas "sarrista de carteirinha", garantia no velório, de "pés juntos", que o que matara o finado, não fôra a moqueca de linguado...
-"Foi a sobremesa, preparada com esmêro e qualidade, que só a comadre Carmela sabe fazer!"

DIA DE ELEIÇÃO

Panfletos de propaganda eleitoral manchavam a cidade, transformando cada de suas principais avenidas em um tapete de papel picado.
Eram os chamados “santinhos”, de todas as cores , tamanhos e tendências, pois a câmara municipal ia renovar-se e o todo poderoso prefeito deixava a cadeira, coisa que levou um punhado de “bons cidadãos”, e outro punha de novo “não tão bons assim”, a concorrerem aos cargos vagos.
Era uma verdadeira “salada de frutas partidária”, pois nada menos que seiscentos possíveis candidatos lançaram-se na disputa, era um candidato para pouco mais de duzentos eleitores, quando isso.
Um por cento, ou mais da população, estava diretamente envolvida na eleição. Indiretamente, acabou se envolvendo o restante, e a cidade ganhou movimentação nunca visto!
Geraldo da Rosa, que tinha esse nome por estar casado com Rosa Adelaide, a eterna miss da cidade era o dono do Bar Sport, onde a oposição fazia o seu quartel general, e foi no bar do Geraldo da Rosa, que tudo começou.
Miguel Borboleta, o vendedor de bilhetes da federal, que também era “escrevinhador” do bicho, foi agredido fisicamente pela “turma da situação”, no comissão da praça, e baixou no Bar Sport, depois do acorrido, com enorme hematoma no rosto, além de vários arranhões pelo corpo, contando sua história, para quem tivesse paciência de escutar.
Geraldo da Rosa , um dos “cabeças” da oposição acabou por pegar as dores do borboleta e, juntando-se com uma meia dúzia, foi atrás dos agressores.
O encontro dos grupos, aconteceu em frente a igreja matriz, com o sol à pino.
Foi uma pancadaria dos diabos, pois até Maria da Foice se meteu, e acabou com fratura exposta na perna direita, e deu início a outra briga, pois sendo a Maria dona da “casa das tias”, reduto do baixo meretrício, o Álvaro da farmácia, única autoridade no ramo da saúde em toda a cidades negou a acudir a perna sangrenta de Maria da Foice, e a pancadaria recomeçou agora entre os amigos de Maria e os amigos do Álvaro, que acabou atendendo a ferida, pois o José das Dores deu fim na briga, com um tiro de doze, que disparou no forro da farmácia, ameaçando “estourar” a cabeça de Álvaro, se não atendessem Maria, como ela merecia e necessitava.
O Álvaro percebendo que o Zé falava sério, atendeu a Maria, mas o fez de tal má vontade, que a pobre nunca mais andou direito, ficando com a perna torta.
Quando a turma saiu da farmácia, para levar Maria para seu “palácio”, a coisa esquentou novamente.
A praça pegou fogo, pois as “mães de família” da cidade não gostaram nada de verem seus “santos maridos” defendendo Maria da Foice, e a coisa esquentou.
A confusão se generalizou, com marido apanhando de frigideira, pau de macarrão e cabo de guarda chuva.
Quando deu cinco horas, foi que o Geraldo da Rosa se lembrou que ainda não havia votado, e foi uma correria dos diabos até o local da votação, com “empurra - empurra” na fila e outras coisas, que nem e bom falar.
Dr. Marcolino, o juiz eleitoral, diante da confusão formada, deu ordem para se prolongar por meia hora a eleição, e ai o tumulto se generalizou, pois a situação armou o maior banzé contra a decisão de Dr. Marcolino.
A eleição ganhou novo aliado: o desrespeito a lei, pois Dr. Marcolino errou, e a situação errou também, sem falar no Geraldo da Rosa, que berrava que nem um desesperado , defendendo seu direito de votar fora da hora legal.
Seis horas da tarde, seu Lindolfo, chefe dos correios, trouxe um telegrama.
O Tribunal Eleitoral da capital do Estado, diante do ocorrido, anulava a eleição na cidade.
O resultado foi uma briga bem maior!
Foram três dias de confusão generalizada, com saldos negativos para todos os lados!
Dr. .Marcolino respondeu processo de crime eleitoral; Geraldo da Rosa foi preso, por desacato à autoridade, pois deu um murro no sargento Custódio; “vai de valsa”, bêbado enveterado da cidade, foi enternado com trauma alcóolico, por comemorar a vitória de ninguém; Miguel Borboleta teve que vender a casa , do alto do morro, para pagar o prêmio da milhar, pois na confusão, esqueceu de passar a banca o jogo que João das Coves mandou “escrevinhar”, e o João acertou na cabeça, no terceiro prêmio; Masculina Cavadão, filha da Maria da Foice, resolveu “tomar as dores” da mãe, e deu um surra “de criar bicho”, no Álvaro da farmácia.
Dona Masculina, do Açougue Pé de Vento, o único da cidade, não contente com a confusão que ajudou a armar, frente a matriz, pegou o marido desprevenido e rachou a cabeça do pobre, com uma perna de boi, levando o pobre para a UTI do hospital da cidade vizinha.
Na confusão, o vigário da matriz esqueceu de ir até o leito de morte do Analecto, que foi mordido pelo cachorro do Horácio e contraiu raiva.
O pobre acabou morrendo sem extrema-unção!
Maria das Dores funcionaria da coletoria estadual, foi pega sentada no colo do chefe e acabou perdendo o emprego, por atos imorais, tendo que pedir abrigo na casa de Maria da Foice, pois seu marido a expulsou de casa só com a roupa do corpo, causando forte comentário em toda cidade.
O Juarez, dono do posto de gasolina, com a confusão, resolveu fechar o posto mais cedo e ao voltar para casa, fora de hora, encontrou a Joana , sua mulher, só de calcinhas como Marcondes, na sala de estar, no maior carnaval.
Com o susto e a emoção, de se descobrir “corno” coisa que a cidade toda já sabia, menos ele, o Juarez caiu para traz mortinho da silva, com enfarte fulminante.
Como se não bastasse a Carlota, filha do Horácio, o dono do cachorro que mordeu o Analecto, recebeu a noticia de gravidez precoce.
Na altura de seus quinze anos, foi ela contar a grande novidade pro Zé, seu namorado. O rapaz, diante do fato consumado, perdeu as estribeiras e plantou a mão na Carlota, num surra que deu gosto, alegando que o filho não era seu. Carlota, em desespero, jogou-se na ribanceira do rio, sendo encontrada horas depois, com uma hemorragia dos diabos.
A cidade só voltou ao normal depois que o vigário, já recuperado do esquecimento da extrema-unção do Analecto, benzeu com água benta casa por casa.
Só quem não quis a casa benzida foi dona Masculina, pois era filha de santo do terreiro de Pai Onofre, mas providenciou limpeza ao seu modo.

FOFOCAS DE BAIRRO (.)

O dia amanheceu chuvoso...
A goteira do quarto de Leocádio pediu urgentemente, a presença da panela, que sua mãe correu para colocar no chão, aparando a água que pingava, antes que tudo se transformasse numa poça, como acontecera na última vez.
_"Menino! Tem que subir no telhado, e arrumar a telha!"
_"Amanhã, mãe... Sem falta!"
Era a mesma conversa, toda vez que chovia...
Leocádio era noivo de Mercedes, a filha do meio de Dona Esperança, que morava na rua de baixo, no sobrado que fora do José Messias, o mesmo que embuchou a filha da Rosária, e teve que casar às pressas.
O casamento durou pouco, e o José Messias vendeu o sobrado para a mãe de Mercedes, quase a preço de bananas, com medo das pragas que lhe rogou Rosária, Mãe-Pequena do terreiro de Pai-Marinho, dito e falado que recebia uma esquerda que conseguia secar pimenteira, só no olhar atravessado daquele já idoso homem de côr, com cabelos côr de neve, sempre vestindo branco, trazendo ao pescoço, aquela montoeira de colares de contas multi-coloridas, que tanto assustaram José Messias, quando foi lá no terreiro, procurando Dona Esperança, viúva de há pouco, e lhe ofereceu o sobrado, por um preço tão barato, que a viúva não teve como recusar, mudando-se oito dias depois, pouco antes de Mercedes fazer seus doze anos.
Já faziam dez, que vivia ali a velha viúva, Marcolino, seu filho mais velho, com seus já trinta anos completos, professor de Música e, diziam os rapazes, "meio afeminado"; Mercedes, que já estava com seus vinte e dois e era Professora Primária, e a mais nova, Efigênia, com dezoito anos, namorada do Joguimar, motorista da ambulância do ambulatório da Prefeitura, que ganhava tão pouco, que para economizar, filava a bóia na casa da sogra todos os dias, e comentavam as más línguas, já passara Efigênia "nos cobres", e já fazia tempo...
Gente simples, a família da noiva de Leocádio, filho único de Dona Mariinha, e Seu Epifânio, que era padeiro por profissão já há mais de dez anos, sendo o profissional da Padaria Nova Lisboa, de propriedade do velho português, Seu Joaquim, pai da Rafaela, que as fofoqueiras do bairro não cansavam de chamar de perdida, só porque gostava de namorar com o Agrimaldo, filho do dono do Posto de Gasolina, atrás do muro do Cemitério, e vez por outra, era vista no "Buteco da Vovó", um recanto no alto do "Morro do Cipó", onde tocava violão, o Rolando, que gostava de vê-la dançar rumba, enquanto ele tocava seu violão, ajoelhado a seus pés...
Leocádio já namorara Rafaela, mas desmancharam, quando ele a viu dançando rumba e a chamou para ir embora, mas ela não atendeu, grudando no pescoço do Rolando...
Foi uma briga "dos diabos", e o Seu Epifânio só não pediu as contas da "Nova Lisboa", porque o velho Joaquim lhe disse que a vida pessoal dos filhos, nada tinha a ver com a Padaria...
Oito meses depois, já era o noivo de Mercedes, com direito à macarronada de Dona Esperança, todos os domingos, com chuva ou sol quente, e com direito também, após o farto almoço, a um cálice duplo de licor de Jenipapo, feito no capricho, pela futura sogra, que ainda faz questão de mandar meio litro, toda semana, ao Seu Epifânio, pai de Leocádio, que embora não goste da bebida, recebe o presente, e o transfere para o patrão, Seu Joaquim, viciado em Licor de Jenipapo e jogo de sueca, o qual, promove todo fim de tarde, no quintal aos fundos da Padaria Nova Lisboa, onde um dos parceiros diários, é Seu Gumercindo, pai de Flávia, que costuma falar alto, todo o sábado, lá pelas quatro da manhã, discutindo com o Flávio, seu irmão, sempre pelo mesmo motivo: o excesso de falta de pano nas suas saias...
Seu Gumercindo é casado com Dona Inocência, e além da Flávia e do Flávio, é filha deles também, a jovem Dorotéia, que foi para o Convento das Carmelitas, há treze anos atrás, e virou Serva de Deus...
O tempo passa na velocidade que quer, nesta pequena porção da cidade, que é o bairro da "Padaria Nova Lisboa", e se vocês estão esperando um "Gran Finale" para essa história, eu só lhes posso dar um ponto final... bem pequenino... Este (.)


autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br

E LA VEM REGRA....

A menina saiu correndo do barraco!
Vestia uma sainha de chita, com uma blusa de frio sobre a camiseta de campanha eleitoral, já bem surrada pelo uso.
Passou em tamanha carreira pelo "Buteco de Joana", que nem deu o "Boas Noites" costumeiro ao Pai, que ali já estava há bom tempo, tomando sua cachacinha, jogando conversa fora, já que era um dos "eternos desempregados", vítima por própria conta, dos planos econômicos do Governo...
Quando virou o rosto, procurando Mariazinha, sua filha mais velha, agora com dez anos, só conseguiu ver o vulto que descia a escadaria do morro em uma carreira que dava gosto!
Voltou ele os olhos para o balcão e disse a Joana, dona do buteco, mulher conhecida como decente, embora vivesse com o Nêgo Osório, mais novo que ela vinte anos, em sistema de "amigamento", do qual vieram ao mundo Rafael, soldado do Oitavo Batalhão, e Jandira, agora com dezoito anos, professora recém-formada, que dava aula aos meninos da favela, no barracão atrás do buteco:
_"Êta! Não é que minha menina sabe corrê bem, cumadre? E óia que nem escorregou no limo!
Joana, em resposta ao freguês, comentou:
_"Eu inté tô percupada viu? A menina nunca dexô de me cumprimentá!"
_É... - disse o pai, coçando a cabeça - Isso é istranho mermo... Acho que vô inté l'em casa, só para vê como vai a coisa!
Largou ele a pinga no copo, e subiu até seu barraco, que ficava a alguns metros do buteco...
Lá chegando, ainda da porta, foi falando:
_"Ô Zefa!... qui carrêra era aquela de minha Preta?"
_"Entra Zé!... qui eu te conto tudo, tim-tim pur tim-tim...
Zé entrou, e encontrou a mulher sentada numa cadeira com as pernas abertas, tendo uma bacia ao chão, onde caiam filetes de sangue...
_"Muié!!! O qui aconticeu?!"
_"Sei não Zé... A coisa cumeçô a brotá sangri!!!"
_"Cruiz'im Credo, muié!!! O que tu pensa qui é?"
_"E eu lá sei homi?! Nunca vi isso!!!"
_"E dói??"
_"Óia, duê num dói... mais qui enche o saco, enche..."
_"E o qui vamo fazê?... Será qui pon'açucra, pára?"
_"Sei lá! Foi pru'isso qui eu mandei a menina chamá a Nega Bia... Com tanta rapariga em sua casa, ela deve de sabê o qui tá aconticeno...!
_"Mais Fia... Logo aquela tár de Bia?!"
Mal acabou ele de dizer isso e entrava pela porta, Dona Bia, que vendo aquela cena, começou a rir que nem uma desesperada.
O Zé, achando um despropósito as gargalhadas daquela "fulana", disse:
_"Ora!... Minha muié tá banhano em sangri, e ocê se cagando de ri?!!"
A experiente Bia, contendo o riso, disse:
_"Ora, isso não é nada!... Acontece de vinte e oito, em vinte e oito dias, depois dos doze anos!
O marido, assustado, perguntou:
_"E pru quê, nunca aconticeu antes?"
_"Porque você nunca deixou!!! Com dez anos de casado, tem treze filhos!!! Não há regra que desça desse jeito!

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br



sexta-feira, junho 22

UM ATEU, NA MISSA DAS DEZ!

Sabedor que na manhã daquele Domingo, durante a missa das dez, o padre da matriz pediria ajuda aos fieis para a reforma do telhado da nave, destruído parcialmente durante o último vendável, Juvenal avisou a mulher para mandar passar seu terno de linho branco, pois no Domingo iria na missa das dez.
A esposa não podia acreditar! Casada com Juvenal a mais de trinta anos, só viu o marido entrar em uma igreja no dia do casamento, assim mesmo com muita má vontade pois, por ele, casavam só no civil.
Nem nos batizados dos filhos compareceu. Agora, de uma hora pra outra, mandava preparar o terno de linho branco e avisava que ia a missa? Era um acontecimento, digno de ser classificado como algo fora do comum, e foi Maricota, depois da mulher, a primeira a saber da novidade, enquanto estendia roupas no varal da casa do lado, onde morava com o marido Lourenço, parceiro permanente do Juvenal no truco, que acontecia todas as tardes, atrás da padaria do Acácio Mota, frente a praça Vinte e Oito de Setembro.
A noticia de que Juvenal compareceria na missa das dez do Domingo, se espalhou como pólvora, quando Lourenço contou o fato para os amigos, na cervejinha do cair da noite, no bar do Juarez, que fazia funcionar aos fundos o “Bordel da Marinha”, grande amiga do Juvenal, que não acreditou na noticia.
Juvenal, nascido e criado na cidade, era conhecido por sua vocação de “Ateu Convicto”, embora tivesse amizade estreita com monsenhor Nonato de Carvalho, titular da matriz e profundo apreciador das macarronadas de Rosa, mulher do Juvenal.
Rosa era filha de Maria e, no dia das reuniões, Juvenal a levava ate a porta da igreja, mas não entrava. Ficava no papo e na cerveja, na padaria do Acácio Mota, até que Rosa resolvesse “suas” coisas lá com a igreja.
_Compadre Juvenal? Na missa de Domingo? Isso é coisa que quero ver!
Comentou Acácio Mota, quando lhe contaram, na reunião do truco.
O monsenhor Nonato, quando soube da novidade, pois nada ficava sem o saber do monsenhor comentou:
_Acho que ai tem coisa, mas em todo caso, que ele venha! Vou ate reservar um banco, bem na frente, para o casal!
O comentário na cidade, naquela semana, correu solto.
Uns garantiam que Juvenal ia a missa e outros, a maioria, batia pé de que era apenas fofoca.
Diante disto, Leonardo, que era o banqueiro do bicho na cidade, abriu apostas, e quase a cidade inteira fez sua “fezinha”, pois aquele era o assunto do momento.
O prefeito, na Sexta-feira, suspendeu um compromisso que havia marcado na cidade vizinha, para domingo de manhã.
Quando seus assessores mais chegados quiseram saber o porque, respondeu:
_Tenho que estar na missa das dez, deste domingo, pois não posso perder este acontecimento!
O comentário de que Juvenal, querido e respeitado por todos na cidade, estaria na missa das dez do Domingo, ultrapassou até as barreiras das doutrinas cristãs, pois o pastor da assembléia de Deus garantiu aos fieis, no culto de Sexta-feira, que estaria na missa das dez do domingo , na matriz de São João Batista, pois haviam comentários que o santo faria o milagre de levar Juvenal a assistir a missa, e este feito ele não ia perder!
No Domingo , às dez em ponto o monsenhor Nonato Ribeiro de Carvalho, titular da matriz de São João de Batista, dava início a missa.
A nave da igreja estava repleta, com gente em pé põe todos os vãos livres da igreja.
Sentados no primeiro banco, estavam Rosa, vestida com o uniforme da irmandade de filhas de Maria e Juvenal, com seu terno de linho branco, impecavelmente limpo e bem passado.Após a missa, monsenhor Nonato verificou que a coleta do dia dava e sobrava para a reforma do telhado.
Entre os donativos, um papel apareceu, e dizia:

Meu caro Nonato.
Sabe o amigo que sou Ateu, e assim morrerei. Espero que os donativos de meus curiosos amigos sejam o bastante para a reforma do teto da matriz. Se ficar faltando algum, não me culpe, pois fiz o possível.
Juvenal

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br



A PAIXÃO DE SEU TOICINHO

No tempo que os animais, e as coisas falavam, em lancholandia, vivia o Seu Toicinho.
Era um rapaz pacato.
Respeitado por todos, mas triste. Solitário... Amargurado...
Em uma conversa com Seu Salmão, uma espécie de conselheiro da cidade, graças a sua experiência de anos, vivendo no mar, revelou Seu Toicinho, que estava perdidamente apaixonado por Dona Mortadela, filha mais nova do Seu Presunto...
Seu Salmão, nem necessitou perguntar porque estava o amigo angustiado.
Dava pra perceber, só olhando para Seu Toicinho, e sua gordura avantajada...
Mandou então Seu Salmão, Seu Toicinho procurar Dona Coruja, que a anos mantinha um Salão de Estética na rua de traz da Igreja de São Francisco.
Dona Coruja, só de olhar, resolveu qual seria o tratamento..... Seu Toicinho tinha que queimar gorduras, e a única forma que ela conhecia, era Defumação.
E lá ficou Seu Toicinho, 18 dias, pendurado debaixo de um fogão de lenha...
A gordura que dele escorreu conseguiu encher mais de 9 litros , que Dona Coruja iria usar para tratamentos de pele, para peixes, e camarões.
Ao fim dos 18 dias, Seu Toicinho era outro!
Sentia-se mais leve, menos preso ao andar, com maior resistência.
Correu em casa, e vestiu sua melhor roupa.
Seria neste mesmo dia, que pediria a mão de sua amada.
Ao bater na casa da amada, qual foi seu susto, quando quem atendeu a porta, foi Seu Salame... Que havia contraído núpcias com /dona Mortadela, a 10 dias.
Seu Toicinho ficou super abatido...
Nem conseguiu voltar pra casa...
Jogou-se numa frigideira quente...
Tornou-se parte de um dos sanduíches do Mac Donald.


autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br

NO MORRO DO PEPINO

Quando o dia amanheceu, o sol entrou pela fresta existente no teto, e sua claridade. alcançou os olhos do pequeno Marcelo, que dormia sossegadamente ao lado da cama de seus pais numa rede de barbante.
Com o choro, acordou o casal, que levantou pouco depois.
Enquanto o pai lavava o rosto, numa bacia de alumínio, colocada ao lado de sua cama, a mãe em outro canto do único cômodo da casa, iniciava o preparo do café, colocando uma lata que fôra de leite, cheia de água, no fogão já acesso de uma só boca, que estava amarelado por ferrugem, correndo o risco de explodir a qualquer momento.
O cômodo possuía pouca mobília. Eram, uma rede de solteiro, uma cama de casal; um armário, feito com caixa de frutas, que a mulher transformara em "armário de cozinha", onde três pratos de louça encardida pousavam ao lado de duas canecas de alumínio, dentro das quais alguns talheres de alpaca foram colocados ao acaso.
Encostada na outra parede, havia uma velha caixa de papelão, fazendo as vezes de "guarda roupa", onde ficavam guardadas as poucas peças que a família possuía.
Em um canto, uma caixa de maçãs, coberta por uma já rôta toalha de croché, cheia de buracos, fazias as vezes de mesa, onde estava colocada uma grande estátua de Jesus Ressuscitado, com os braços abertos... Imagem, que na religião dos donos da casa, era chamada de Oxalá.
Frente à imagem, após tomar um pouco de água tingida, muito longe de ser café, o jovem pai ajoelhou-se, orou por instantes e após dar um beijo na esposa e outro no pequeno Marcelo, saiu pela porta, dirigindo-se ao seu trabalho, como fazia todas as manhãs, com sol ou chuva...
Desceu a ladeira e, pouco depois, estava na avenida, onde embarcaria no ônibus, que o levaria à cidade...
Quando a noite desceu, no Morro do Pepino, a alameda ganhou o breu da escuridão...
A única luminosidade que se via, eram os clarões, que saíam pelas frestas dos barracos...
A mãe de Marcelo começava a preocupar-se, pois seu companheiro nunca chegava após o escurecer, sempre voltava pouco antes das seis da tarde...
O leite do pequeno Marcelo acabara, e era necessário providenciar outra lata, mas o dinheiro estava com Domingos, pois receberia "vale", naquele dia...
Com o tempo correndo, a preocupação da jovem senhora aumentou, e ela resolveu, para distrair-se, ligar o seu minúsculo rádio de pilha, presente que ganhara de Domingos, quando recebera ele umas horas extras, tempos atrás...
Poderia, para distrair-se, escutar uma música bonita, como aquela que Domingos costumava cantarolar aos sábados, enquanto varia o quintal do pequeno barraco, pendurado em uma das alamedas do Morro do Pepino...
Ligou o rádio, e uma voz anunciou:
_..."Foi encontrado, na Alameda que dá acesso ao Morro do Pepino, por volta das cinco da tarde, um homem jovem, vítima de assalto... Infelizmente, a vítima faleceu, ao dar entrada no Pronto Socorro. ... Em seus bolsos, foram encontradas a quantia de oito reais, e sua Carteira Profissional... Seu nome era Do...
Nesse momento, a jovem senhora desligava o rádio, dizendo:
_"Chega de notícias ruins... Vou deitar-me! Quando Domingos chegar, levanto e esquento a janta..."

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br

ALGUÉM LÁ EM CIMA... OLHANDO!

A bela menina está fazendo, naquela manhã de sol quente; em que os pássaros resolveram cantar a plenos pulmões; em que as flores do jardim teimaram em se abrir em cores vivas; em que as galinhas do galinheiro do fundo da casa, resolveram pôr o dobro dos ovos que costumavam pôr; em que seu pai resolvera dar uma parada no vício (de quarenta anos), de tomar uma pinguinha antes do café; em que seu irmão resolvera não urinar na cama de cima do beliche; em que sua mãe resolvera dormir de camisola de renda; em que seu avô depois de anos, resolvera contar a história de como matou a onça; em que o seu tio voltara da rua, pela primeira vez na vida, antes do dia amanhecer...
A menina estava fazendo... oito anos, que partira para o Reino do "Papai-do-céu"... E via tudo isso acontecer, sentada numa nuvenzinha cor-de-rosa, a meio caminho entre a Terra e a porta do céu, onde São Pedro, de barbas brancas e chave na mão, controlava a entrada e a saída dos bonzinhos, iguais a ela, que saíra só para fazer uma pequena visita à Terra, mas já estava voltando... com um sorriso nos lábios...
Ao passar por São Pedro, disse-lhe:
_"Que bom!... eles não choram mais!... Minhas asinhas já estão quase secas!


autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br

A GREVE

No tempo do antigamente, quando tudo e todos tinham o poder do raciocínio e da fala, houve uma grande seca, porque às nuvens, que são as encarregadas de trazer a terra a chuva, resolveram decretar uma greve, porque o seu raio foi como clandestino em uma das viagens fez um barulho medonho.
Pôr causa disto São Pedro chamou as nuvens “As falas”, dando-lhes tremenda bronca.
As nuvens, mangadas e envergonhadas, pois afinal São Pedro brigou com elas sem motivo, resolveram fazer uma greve, e por causa disso a terra ganhou em período de seca, que levou alguns rios a terem que diminuir de tamanho, e outros, os menores, retornaram às suas nascentes, esperando dias melhores.
A greve das nuvens durou muito tempo, e os se resolveu quando um mediador poderoso se meteu no assunto.
O mediador foi o senhor vento, que foi reclamar com São Pedro pois, pôr não haver chuvas, ele estava trabalhando dobrado, e isso não era justo.
O sol fez também sua reclamação pois, sem nuvens, ele não tinha onde descansar e avisou que, se São Pedro não resolvesse logo aquele assunto , ele também entraria em greve.
Quando se espalhou a notícia que o sol ameaçava também entrar em greve, dona lua se esquentou :
_ Como ?! Então vou ter que trabalhar sozinha ? Isso não e justo.
Diante da situação, o mar, na qualidade de o mais antigo elemento da natureza, mandou uma carta a São Pedro:
“Meu caro Pedro
As coisas já estão ficando difíceis. Venho suprindo água para todo mundo. Não sei se posso aquentar esta situação pôr muito tempo. Acho bom vocês ai em cima, começarem a colocar ordem nas coisas , ou este treco aqui vai pró vinagre”.
“OCEANO”


Para complicar um pouquinho mais a vida do pobre do São Pedro, a “associação dos rios caudalosos” entrou com um mandato de segurança, pedindo garantias de rente oração dos seus antigos leitos, pois já estavam começando uma invasão , pelo “Movimento das Plantas Sem Espaço”.
O PPLS = Partido dos Plantadores em Leito Seco = , aproveitando a situação, solicitava uma reforma agrária nos leitos, pois como estavam, eram áreas improdutivas
O congresso celestial dos arcanjos, pôr sua vez, mandou pedido de explicações a São Pedro , pois já havia a preparação de uma “CPI” para encontrar solução para o problema.
Em contra partida, o Ministério da Saúde Vegetal fez pedido de verba suplementar, pois o estoque de líquidos dos hospitais ecológicos já se encontravam em estado critico.
A Polícia Celestial também mandava representação, já que a seca causava mortes em excesso, e a situação já começava a fugir do controle.
O Sistema Aéreo Animal, atendendo a solicitação de seus subordinados, pedia providencias para o retorno das nuvens, pois sem sombras, já acontecera diversos acidentes aéreos, pôr insolação em pleno vôo.
Como se não bastasse, a “Associação Internacional dos Peixes de Água Doce” entraram com um pedido de garantia de espaço, pois com a diminuição dos leitos fluviais, os leitos existentes estavam com excesso de população , e já acontecia problemas como excesso de detritos fecais e um contingente incalculável de peixes desabrigados.
Diante disto tudo, o Congrego Permanente dos Elementos da Natureza convocou reunião em caráter de urgência.
Desta reunião, saiu um documento, responsabilizando São Pedro pôr todas as calamidades existentes.
Com isso, São Pedro e seu gabinete ficaram em situação delicada perante o Congrego dos Arcanjos.
Numa reunião sigilosa com o “Todo Poderoso”, o nobre chaveiro do céu colocou seu cargo a disposição, mas foi recusada a sua demissão, e se encontrou outra saída: uma reunião entre São Pedro e a Comissão das Nuvens Grevistas.
Nessa reunião , São Pedro foi um excelente diplomata, pois reconheceu que havia sido injusto, ao culpar as nuvens pelo erro do tal raio clandestino.
As oitos da manhã , do sábado de aleluia, o céu ficou negro!
Todas as nuvens voltaram ao serviço com força total.
Foram seis meses de chuva , sem descanso !
Ai , aconteceu um imprevisto. A escala de serviço do Sindicato das Nuvens Carregadas, tinha atraso e não havia como acertar a escala , a não ser com horas extras.
Acontece que a carga de chuva , com hora extra e tudo , deu motivos para reclamações de inundações pôr todo canto.
Mas esta historia fica para outra oportunidade , pois tenho que chamar um pedreiro , para tapar umas goteiras, pois a minha mesa esta já , com poça d’água!
_ É nestas horas que tenho saudades do período da seca.....


autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br

O PARTO

O vento noroeste se fez presente com a fúria costumeira, fazendo a copa das árvores centenárias da praça da matriz vergarem e os pequenos animais procurarem abrigo.
Foi no meio do noroeste, que Maria de Fátima resolveu, sem mais aquela, avisar o Felisberto que seu primeiro filho tava dando seus primeiros sinais de vida e que, se não corresse, ela o colocaria no mundo ali mesmo.
Felisberto se apavorou.
_Como pode ser isso? Já esta na hora?
Maria de Fátima não respondeu, apenas se colocou na posição mais confortável possível, enquanto Felisberto saiu que nem um desesperado, em busca de um local para o inevitável parto, que já estava a caminho.
Em poucos minutos, tia Maricota, parteira de renome, estava
ao lado de Maria de Fátima, para ajuda-la no momento certo.
O noroeste, por sua vez, ganhava mais força e mais violência, fazendo as flores do jardim central da praça, perderam suas pétalas, e o cata-vento, que estava no alto do coreto, de tanto rodar, acabou despencando, caindo no pequeno lago artificial, existente bem em frente ao busto de Teodoro da Fonseca, patrono da cidade.
A igreja, com a força dos ventos, perdeu meia dúzia de telhas, que acabaram caindo no terreno de dona Juvelina, que em dia de noroeste não saia de casa, passando todo tempo rezando diante da imagem de Santa Bárbara.
Seguindo os passos do noroeste, veio a chuva fina, que encharcou a terra esturricada do canteiro das rosas de dona Ercilia, que era professora primária a tanto tempo que escrevia farmácia, usando “PH”.
Maria de Fátima estava em trabalho de parto e o Felisberto desesperado, corria de um lado para outro, tentando encontrar um local seguro para o nascer de seu rebento.
A chuva e o vento continuavam fortes e persistentes, tanto que a companhia de força e luz, achou melhor cortar a luz da cidade, para evitar acidentes.
Sem luz, para mover o maquinário, à usina São João parou a produção, acompanhada por todas as industrias da cidade.
A padaria Lisboa , como tinha forno à lenha, não parou, mas o proprietário mandou acender meia dúzia de lampiões à querosene, para iluminar a padaria e poder atender os fregueses.
Enquanto isso, Maria de Fátima continuava em trabalho de parto, e Felisberto continuava que nem doido, buscando um lugar seguro.
Eram mais ou menos três da tarde, quando um pedaço de telha, caído não se sabe de onde, atingiu a cabeça do menino Lindolfo, filho de Hernestina, e fez Acácio abrir a farmácia, que fechara com medo do vento, e dar oito pontos na cabeça do moleque.
Filomeno, o senhor de mais idade da cidade, com certidão de nascimento escrita a mão e com o brasão do império, que já estava no museu da cidade doada pela família, começou a passar mal lá pelas quatro da tarde e , pelas seis, estava morto
O Dr. Edgar, chamado para atende-lo, diagnosticou que Filomeno morrera de velhice, nada mais que isso.
De uma hora para outra, como tinha começando, o noroeste e a chuva sumiram, dando a um lugar a um lindo entardecer.
Felisberto viu nascer seu rebento quando o noroeste foi embora.
Maria de Fátima e Felisberto ficaram felizes como nunca, pois nascera seu herdeiro, na copa mais alta da jaqueira da praça.
Era um lindo curió, como o pai, só que trazia umas penas de cor indefinidas, como a mãe.

autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br