Carlos Alberto Lopes

terça-feira, dezembro 23

COLETÂNIA DE CONTOS DE CARLOS ALBERTO LOPES


Este blog reune os contos de Carlos Alberto Lopes.
Poeta, Editor, Contista, Romancista, Teatrologo, Carlos Alberto Lopes vem desde os 15 anos, num participar constante na vida literaria.
Editor de O Anacoluto Cultural, editou ele outros jornais, em Minas Gerais de quando de sua fase mineira - Os Conjurados de Coimbra ( zona da Mata Mineira) A Tribuna de Visconde do Rio Branco ( tambem na zona da mata mineira) .
Em 2008 recebeu ele a Medalha Afonso Schmidt, a maior honraria cultural do Municipio de Cubatão.
É o autor de " Schmidt - O Rebento dos Bananais" - biografia de Afonso Schmidt, editada eletronicamente e disponivel para consulta.
Com seu Jornal vem ele desenvolvendo um novo modo de fazer jornalismo: o jornal pessoal.
Carlos Alberto Lopes marca a sua tragetoria literaria, pela franquesa de seu escrever, sua forma direta de dizer o que pensa e sua maneira particular de encarar a vida.
Natural do Municipio de Cubatão, onde nasceu em 23.09.1951, a anos desenvolve sua cultura na baixada santista e , atualmente, pela internet e suas páginas e blogs culturais.

ACONTECEU EM MINAS

Na cidadezinha, no meio da Zona da Mata de Minas Gerais, o Gerente do Banco do Brasil resolveu que não mais ia trabalhar. Vinte anos de Banco chegavam para ele. Alegando estafa e valendo-se de meia dúzia de médicos amigos nas cidades vizinhas, entrou de licença médica por conta própria, por dois anos e meio.
Após isso, o Banco do Brasil chamou o homem para uma perícia médica, em Belo Horizonte, a mais de 400 quilômetros de Coimbra, cidade onde residia o gerente.
Coimbra fica na região de Ubá, São Geraldo, por ali...
E lá foi o funcionário para Belo Horizonte, com perícia marcada.
Chegou ao local, e as perguntas de praxe...
- Onde mora?
- Coimbra...
- Onde fica Coimbra?
- Zona da Mata...
- O que faz no Banco do Brasil?
- Gerente, há vinte anos...
- O que os médicos dizem que o senhor tem?
- Estafa, por excesso de trabalho...
- O senhor acha que trabalha muito?
- Sim, senhor.
- E nos finais de semana, o que o senhor gosta de fazer?
- Pescar...
- Pescaria é bom divertimento... e pesca onde?
- No Balde...
- No balde?!
- Sim senhor...
- O senhor tem certeza que pesca no balde?
- Claro, pesco lá desde garoto... Fui criado, pescando no balde!
Diante das respostas, o médico chamou um colega psiquiatra, para acompanhar a perícia.
O psiquiatra, mais experiente nos casos de fraude com mentira, forçou a barra:
- Mas e aí, amigo... e quando o balde não dá peixe?
- Aí, eu ando mais uns dois ou três quilômetros, e vou pescar na bacia. Lá sempre tem peixe.
A perícia do Banco do Brasil constatou estafa emocional e desequilíbrio. Aposentou o sujeito.
O interessante da historia é que o gerente não contou nenhuma mentira na entrevista...
Coimbra possui um rio chamado Rio Balde...
E a três quilômetros, para dentro da zona rural do município, existe uma lagoa chamada Lagoa da Bacia, que também dá peixe...
Ele não tinha culpa, que os médicos de Belo Horizonte, não conhecessem Coimbra, ora bolas...
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Carlos Alberto Lopes
escritor@uol,com.br

sexta-feira, junho 29

UMA FAMILIA NORMAL

O dia nascera com um sol avermelhado, que dava as nuvens aquele tom abóbora. Parecia que o céu pegava fogo.
Carmelita, naquela manhã, madrugara na porta do posto de saúde, procurando marcar consulta.
Era a quarta da fila, embora já estivesse na porta do posto quando o relógio da matriz deu as quatro badaladas.
Era assim mesmo todas as quintas-feiras, único dia da semana que o Dr. Marcelo Novaes Filho atendia, pois a consulta na clinica, era cara demais.
Carmelita era faxineira, e mal ganhava para dar sustento aos filhos, pois o marido lhe morrera a um ano atrás, deixando-lhe três bocas para sustentar, vestir e calçar, como herança.
Com a ajuda de padre Teobaldo, empregara Filomena, com treze anos, com babá do filho mais novo do prefeito, ganhava pouco., a garota, mas menos tinha onde comer e dormir com segurança.
Caramelo, com doze, era o “homem da casa”, pois assim agia, desde a morte do pai . embora pouco mais que uma criança, era engraxate na porta da igreja, e todo cair da tarde entregava a féria do dia nas mãos da mãe.
As vezes nem ia em casa para o almoço, e chegava varado de fome, pois nem o trocado para o lanche tirava da féria. Era o orgulho da mãe, que o tinha em alta conta.
Álvaro, o mais novinho, que ainda ia completar quatro anos , passa o dia na creche da prefeitura e não da trabalho.
Carmelita madrugara no posto, em busca de uma consulta, porque dona Acácia, a vizinha, disse que era bom passar pelo medico vez ou outra, para ver “coisas de mulher”, como dissera a vizinha.
As sete, a moça do posto deu a senha pra carmelita e, às nove e meia , o doutor Marcelo a atendeu.
O medico a examinou e passou alguns exames, o resultado saiu alguns dias depois; Insuficiência cardíaca; vasos entupidos e gordura no sangue.
Carmelita voltou para casa, tomou os remédios que Dr. Marcelo lhe deu, e sentiu-se bem melhor.
O tempo correu, e Carmelita acabou esquecendo ao fundo da gaveta, a receita que o medico lhe receitara.
Uma bela tarde, Carmelita teve leve desmaio e caiu da escada.
Socorrida pelos vizinhos, já chegou sem vida ao hospital.
Filomena ficou com o prefeito...
Álvaro foi para a adoção ...
Caramelo foi pro seminário...
A família se dividiu...
_O que fazer, se Deus quis assim????
Foi o comentário de uma das beatas da igreja matriz, na missa de corpo presente da finada mãe de família.....

TOSTÃO POR TOSTÃO

Nas Minas Gerais de outrora, quando o ouro era encontrado tão facilmente quanto hoje encontra moitas de capim, vivia um homem com fama de mendigo.
Passava o dia a porta da igreja, pedindo aos fieis um tostão para seu sustento. Nunca aceitava moeda ou nota superior a um tostão, podiam investir quando fosse, que o velhinho não aceitava.
Na hora da missa, entrava na nave e sentava-se no último banco, puxando ladainhas em latim, com perfeição no idioma.
Não perdia um enterro! Quando sabia da morte de alguém na cidade, lá ia ele com seu paletó já surrado pelo uso, doação de uma bondosa senhora, ajudar ao bondoso padre no encomendar da alma do finado.
Entendia os rituais da igreja como ninguém, e o próprio padre se admirava de sua memória, já que rezava em latim, sem um único erro de pronuncia.
Viveu na cidade longos anos, sem nunca faltar a uma única missa.
Certa manhã, ao abrir a igreja, o padre o encontrou morto na escadaria, com os pés voltados para a porta e a cabeça, no primeiro degrau.
Nos pés e nas mãos, trazia ele ferimentos profundos ainda sangrantes.
A policia foi chamada, e o corpo recolhido à Santa Casa. O delegado determinou que se revistasse os bolsos do morto, e foi encontrado além de alguns tostões, um bilhete.

“Meus bens, deixo como legado a igreja matriz desta bondosa cidade, que soube acolher-me e dar-me o que comer, vestir e beber, sem perguntas procurar fazer-me. No barraco, onde moro, sem nada pagar ao proprietário, será encontrado meu legado.”

No barraco, encontrado foi um cem número de barris, abarrotados de moedinhas de um tostão.
O montante, deu para o padre reformar a nave da matriz e construir um grande orfanato.
Coisas da fé.....

OBRIGADO, JULIO!!!

Júlio era o que se podia classificar de um “João Ninguém”, pois nunca conseguia criar família, ter emprego fixo, possuir propriedade ou outra coisa qualquer, pois nunca tivera juízo bastante para isso, vivendo, dormindo e comendo graças à caridade e bondade do povo da pequena cidade, que o considerava “patrimônio municipal”, pois Júlio tinha coisas ao seu favor: Não bebia e era de alta confiança.
Era a pessoa ideal para fazer pequenas tarefas, mas nunca duas ao mesmo tempo, pois sua mente misturada tudo e ele entrava em depressão.
Os comerciantes da cidade, nomearam Júlio numa espécie de “continuo coletivo”, pois fazia pequenos trabalhos, e com isso ganhava o suficiente para não ser pedinte, o que lhe dava um certo respeito próprio.
Seu quartinho, atrás do armazém de miudezas do Januário, é arrumadinho e limpo ao extremo, pois Júlio detesta sujeira.
Aos domingos, pela manhã, que ninguém procure Júlio, pois ele esta na casa paroquial, cuidando da faxina, e por mais que o sacerdote queria lhe dar pagamento pelo trabalho, não há quem o faça aceitar, pois diz que é Deus quem lhe faz o pagamento, dando-lhe direito a dignidade.
Quem não conhece Júlio, facilmente o confunde com um executivo, pois vive vestido com terno completo, camisa branca de mangas compridas e gravata.
Tinha, no quartinho, um guarda-roupas quase de primeira, pois todos os comerciantes da cidade lhe davam roupas quase novas, ou novas mesmo, pois Júlio merecia, visto que cuidava da aparência e do asseio próprio como poucos.
Júlio era respeitado por todos na cidade, pois estava sempre pronto ajudar seu próximo.
Ninguém conhecia o passado de Júlio ou sua família.
Aparecera na porta da casa paroquial, a uns vinte anos atrás, e nunca mais abandonou a cidade.
Certo dia, um caminhão perdeu o controle na descida do morro do cruzeiro e entrou, desgovernado, na praça da matriz.
Ao meio da praça, na inocência de seus quase dois aninhos, brincava Bianca , filha única de Fabiola e Gilberto.
O veiculo, carregado e sem controle, invadiu a praça, levando pelo caminho bancos e árvores centenárias.
Sua possível trajetória, tinha o local exato onde Bianca brincava com sua bonequinha de louça, que a vó lhe dera no último Natal.
Júlio estava na padaria.
Ao ver o caminhão entrando na praça, correu como nunca e, em segundo, tirava Bianca da trajetória do veiculo, mas não conseguiu evitar que o caminhão o atingisse, fazendo de Júlio sua única vitima.
Júlio ainda foi levado ao hospital, mas não havia mais tempo pra nada. Júlio estava morto!
Seu velório, na câmara municipal, foi o mais concorrido da cidade.
Seu enterro, o de maior número de pessoas.
Por iniciativa do comércio, foi decretado luto não oficial por três dias.
Isso aconteceu há mais de dez anos ,e até hoje o nome de Júlio é sinônimo de bondade, na cidade onde Bianca brinca na praça da matriz, deixando sempre uma rosa branca na placa que lá esta, onde se lê:


“Ao amigo Júlio, a cidade agradece!!!”

A rua, que liga o cruzeiro a praça, foi rebatizada como “Alameda Júlio; a creche, onde Bianca estava matriculada na época do acidente, recebeu o nome de seu salvador.
O sacerdote da matriz reza, anualmente, uma missa em memória de Júlio, na data do acidente e o prefeito decretou a data como feriado municipal.
Júlio, o homem sem família ou sobrenome, tornou-se herói, não só pelo seu ato, mas por sua maneira cristã de ver a vida.

O VENDEDOR DE VELAS

O Padre de matriz via todos os dias um menino, de seus dez ou doze anos, não mais que isso, sentado na escadaria da igreja matriz, oferecendo velas aos paroquianos .
_Como e teu nome, menino?- perguntou-lhe certo dia o bondoso sacerdote.
_Me chamo Mário, seu padre!- respondeu o menino, tirando o chapéu de palha da cabeça...
_Quantos anos tem?
_Mãe diz que já fiz dez, mas certeza mesmo, tenho não senhor! Nunca, nunquinha mesmo, comemorei aniversario!
_Sabe ler, escrever, fazer conta?
_Olha seu padre, sei ler as letras....mas quando coloco elas todas em carrerinha não entendo mais nada. Quanto aos tais dos números, conheço eles..... mas se puder um em riba dos outros, com mais de dois andar, eu num sei como junta eles não. Mãe diz que isso a gente aprende na tal da escola, mas eu nunca fui lá não! Tenho que trabalha, por morde de que o Marcelo, meu irmãozinho ainda toma leite. Ele é pequeno ainda!
_E seu pai?
_Morreu faz um tempinho, numa brigas com um sujeito lá na favela, onde nois mora! O sujeito não gostava do pai, e ai mato ele, com a peixeira! Depois, veio uns home, que colocaram o pai num carrão preto e sumiu! Meia hora depois, a mãe veio conta que ia ao tal do instituto medico legal, busca o pai, pro velório, mas não sei o que aconteceu, pois a mãe demorou e nois, eu e o Marcelo, durmimo. No tal do enterro, fui não, pois dona Rosa, vizinha de nois, lá na favela, disse que nois era pequeno demais pra vê enterro, então a mãe deixo nois em casa e foi enterra o pai, e nunca mais vi ele. Mãe diz que ele tá cum Deus! É verdade, seu padre?
_É filho! –Disse o padre comovido.
_Então mãe não mentiu! Que bom! Depois disso tudo, eu arresolvi ser o homi lá de casa, e vim aqui pra porta da igreja, vende velas, pra dar o leite do Marcelinho, pois os peito da mãe não da leite pra ele, e a pensão do pai, mal dá pra paga o barraco!
_E ninguém ajuda vocês?
_Pra fala a verdade, seu padre, vez ou outra chega lá em casa umas mulhe, trazendo uns biscoito duro, e um punhado de coisas pra mãe cozinha, mas não é sempre não.....é bom, mas a mãe falô que nois num deve acostuma com a caridade dus outro, e que devemo trabalha pro sustento, pois quando a caridade faia, a gente passa fomi! Eu, pro meu lado, arresolvi: Vou acostuma a ganha o meu, mas no honesto, por isso é que vendo vela, no luga de pedi trocado pros outro!
_Dá pra ganhar o suficiente?
_Oia, seu padre, desde que comecei a vende as velas, o Marcelo teve leite todo dia! Não ganho muito não, mas para o leite do menino, consigo ganha!
_Mas para o resto, meu filho? –Perguntou com lagrimas nos olhos, o reverendo.
_Ora, senhor padre, o senhor mesmo disse, na missa que eu assisti outro dia, que Deus olha pra quem necessita a ajuda, quem merece! Nois necessita e acho que nois também merece, portanto ele vai nos ajuda, não é mesmo? De mais a mais, nois não temo luxo, seu padre.....mãe esquenta no forno o pão, que seu Valdemar guarda pra mim, da fornada de ontem, e nois num passa fome não, padre! Tem gente que tem menos que nois, não é assim, seu padre?
_É filho! É assim mesmo!
Naquela noite o vigário dormiu mais tranqüilo, pois sabia que na escadaria da igreja, logo pela manhã, um anjo, em forma de vendedor de velas, lá estaria, demostrando com seu trabalho, sua fé em Deus e seus ensinamentos

O SUSTO DO LAURINDO

Na choupana, onde funciona a xiboca do Horácio, que faz a melhor caipirinha do morro , o Bola Sete jogava sinuca com filho da Maroca, que já puxou dois anos de cadeia e ainda não se emendou, vivendo de arrumar confusão.
_ Marcelo não tem vergonha!
É o que diz, sempre que tem o oportunidade, a Maroca, mãe do pimpolho.
Para a mãe, é o Marcelo, mas para o morro era Nego Cipó, forte como um touro e ágil como um gato.
O único que merecia seu respeito era Bola Sete, pois o crioulo era de assustar qualquer um, e poucos tinham coragem de enfrenta-lo. Eram dois metros de músculos, onde se distribuíam cento e vinte quilos de peso, era um verdadeiro trator, quando perdia a paciência, mas uma moça, no trato do dia a dia.
Puxara oito anos de cadeia, quando deu um murro no cabo Getúlio e o mandou ”visitar São Pedro”, só com passagem de ida.
Vivia ele de bicos, e assim sustentava a velha mãe, já com quase setenta primaveras.
Tinha lá seus amigos, e um deles era Negro Cipó, pois os dois lá se entendiam.
Era comum o joquinho de sinuca, no mano-a-mano, todo inicio de noite, na xiboca do Horacio.
Naquela noite, porém, a coisa foi diferente, pois lá pelas oito da noite, Maria Filomena das Dores entrou, trazendo o pequeno rebento ao colo, chorando que nem uma desesperada.
Cipó pegou o menino ao colo, enquanto o bola procurava saber o que havia acontecido.
Depois de muito choro, Filomena conseguiu contar que o Sargento Laurindo, seu caso a tempos, e pai do menino, havia chegado de cara cheia e resolveu comprar barulho, dando-lhe uns tapas e quase acertando no menino.
Enquanto escutava a história, o rosto de Bola Sete avermelhava, ganhando um tom roxo, que assustaria qualquer um.
A mulher do Horacio recolheu o menino e Filomena, enquanto os dois amigos saiam, sem nada dizer.
Não levaram dez minutos, para estarem na porta do sargento Laurindo, que tinha este titulo porque era sargento, nos fuzileiros, quando era mais moço.
Quando Laurindo atendeu à porta, ainda meio de cara cheia, veio com meia dúzia de palavrões feios.
Bola não disse uma única palavra, apenas juntou Laurindo pelo colarinho e o levantou ao chão uns bons dois palmos.
Laurindo, com o susto, curou a bebedeira rapidinho, e começou a se dizer autoridade; que o Bola o soltasse, e outras coisas mais.
O Bola olhava no olho do homem e o segurava com uma mão só enquanto Nego Cipó revistava a casa, em busca da arma do sujeito.
Quando a encontrou, Bola soltou o sujeito, que estava vermelho que nem um pimentão.
Laurindo sentiu o dedo do Bola em seu peito, e ouviu o estrondo da voz do “brutamontes”, que ressoou ao ouvido.
_Se oce toca novamente, ou em Filo, ou no menino, os tais dos fuzileiros não vão gasta muito, pra enterra oce, viu?
Laurindo ficou branco...
As pontas dos dedos gelaram...
Ainda estava assim, quando Cipo e Bola saíram, voltando ao seu joquinho interrompido.
Filomena voltou pra casa horas depois, e nunca mais o Laurindo tocou num fio de cabelo dela ou do menino.
A vizinha contou que, no outro dia pela manha, Filomena estava no tanque, lavando um pijama de Laurindo, pois o mesmo estava borrado.
Deve ser verdade, pois Bola Sete tem fama de fazer safado borrar as calcas, vez ou outra.

O SANTO PADRE

Aquela pequena cidade tinha se unido e construído com as próprias mãos, a sua Igrejinha... Pequena no tamanho, mas grande na fé de seus paroquianos, que economizaram tostão por tostão, recolhendo o necessário para mandarem vir da Capital, a imagem de Nossa Senhora do Rosário, esculpida em Jacarandá a quem por querer comum, elegeram Padroeira do humilde lugarejo, que no mapa do Estado, figurava como "cidade", mas que na realidade era apenas uma "vila", com falta de tudo, menos da fé...
A imagem já estava na cidade há dez anos e todos os dias às oito horas em ponto, o sino de bronze dava as oito badaladas, levando para a pequena Nave, a maioria dos habitantes, que com fé imensa, escutavam e participavam da Santa Missa!
Quando anoitecia, e o relógio da Estação Ferroviária avisava que já eram sete da noite, novamente o sino tocava, e lá iam os fiéis de Nossa Senhora, para a Reza diária...
Vez por outra, a "dona morte", resolvia passar pelo local. Nestas ocasiões, a pequena Igrejinha, transformava-se no recinto em que os amigos do finado dele se despediam...
A água de sal era jogada nos recém-nascidos, acompanhada por clássicas palavras em latim...
Quem olhava a procissão de Nossa Senhora do Rosário, cortando a cidade de ponta a ponta, em 13 de maio, diria que nada havia de errado...
Mas quem observasse com maior cuidado, verificaria, que puxando a procissão; ministrando a Missa; abençoando aos recém-casados; molhando a cabeça dos recém-nascidos ou encomendando o espírito dos convidados de "dona morte", não estava um Padre, como seria o natural...
Quem fazia as vezes do Vigário, naquele local esquecido pelo Senhor Bispo, era "Pai Germino", benzedor e raizeiro, que morava na Rua do Morro, e que à sextas-feiras, movimentava o seu Terreiro de Candomblé!

O RAIO ATRAZADO

O relógio da Matriz marcava: 11:45 minutos, daquele dia de sol quente e mormaço assustador, que fazia até o Senhor Vigário vir à porta da Sacristia e, numa atitude inesperada, levantar a batina, procurando, com isso, se refrescar um pouco...
Do Colégio Público, que se fazia majestoso no alto do morro, começou a sair a "Manada Estudantil", apelido que dera o Senhor Vigário àquele mar de jovens, que quando faltava um quarto para o meio dia, dos chamados dias úteis da semana, descia a ladeira do Colégio, em conversas intermináveis e brincadeiras, nem sempre divertidas, aos olhos do Senhor Vigário, pois não raro resolviam jogar barro nas batinas do Padre, que descansavam no varal, para esquentarem um pouco, entre a missa da manhã e a oração da noite, coisa que já havia até se tornado ponto principal da homilia de um dos domingos anteriores, coisa que acabou fazendo a nave da Igreja ser palco de uma gargalhada geral, visto que a missa das dez, é a mais freqüentada pela "manada estudantil".
Mas naquele dia, mal a "Manada" terminou de descer o morro do Colégio, o céu escureceu de repente, e um raio cortou o espaço, atingindo o velho Colégio Municipal, fazendo em pedaços boa parte de sua velha estrutura, que há muito pedia uma boa reforma!
Saíram feridos do episódio, oito dos funcionários da limpeza, a velha Diretora, com um grande corte na cabeça, e dois estudantes do último ano, que estavam realizando uma pesquisa na Biblioteca!
Ao saber do ocorrido, o velho Padre, ajoelhou-se frente ao altar e, comovido, disse:
_"Obrigado, Senhor, por haver permitido que aquele raio chegasse atrasado para a aula...

quinta-feira, junho 28

O PRESENTE

O morro estava em festa , pois dona Eularia, a mais antiga moradora, completaria oitenta na quadra da escola de samba do morro, com gastos pelo centro e por alguns comerciantes. com os sambistas se apresentando e o morro em peso como convidados, em uma festança como nunca havia sido feita .
Dona Eularia, mãe do santo das melhores, era uma das criaturas que se coloca no mundo só com coração, sem outra coisa.
Era a parteira oficial do Canta Galo, desde que se conhecia como gente, que fez o primeiro parto aos dez anos, trazendo ao mundo o velho Justino pouca prosa, que acabou casando com sua filha Malvina, trinta anos depois.
Justino já estava no “andar de cima “, mas Malvina ainda estava lá, ao lado da mãe.
Quando perguntavam a Eularia sobre a saúde, ela responde:
_Vai como Deus quer e permite! Aqui vou estar, até que o criador me avise que esta na hora de “bater com as dez” e ir prestar minhas contas, que estão penduradas em um prego já enferrujado!
Pois assim era Eularia, sempre de bom humor e com uma gargalhada pronta para a vida.
A festa, preparada com carinho, tinha de tudo, tinha e de tudo provou Eularia... até tomou o tal do “whisky” que chamava de “cachaça de gringo”, do litro que ganhou de presente do Juvenal, presidente da escola de samba do canta galo.
Lá pelas duas da manhã com o salão lotado e o arrasta pé pegando fogo, entrou pelo portão um punhado de pessoas, os convidados se entreolharam, e o salão ganhou profundo silêncio.
Eularia, do alto de seus oitenta anos, desceu os dois degraus que a separavam do salão, largou o lugar de honra que ocupava no palco e, amparada por dois de seus netos, se dirigiu ao grupo que entrava.
Era um grupo de dez ou doze homens, todos vestidos de negro, com luvas de couro de mesma cor, trazendo pintado nas jaquetas uma caveira dourada.
Trançada do meio por dois sabres.
Todos do morro conheciam aquela marca...
Era a marca do grupo de delinqüentes comandados por Mauro Cara de Cavalo, elemento com vasta lista de contravenções e crimes procurado pela policia como elemento de alto perigo.
Pois foi justamente ao Mauro, que Eularia se abraçou, dizendo!
_Meu menino! Pensei que não pudesse vir!
_Não deixaria minha madrinha, sem o abraço costumeiro! – disse Mauro, beijando as mãos de Eularia.
A anciã abandonou o apoio dos netos e, de braço dado com Mauro, voltou ao seu lugar no palco, com largo sorriso na face.
Mauro, após colocar Eularia com todo cuidado, em sua cadeira, dirigiu-se aos presentes:
_Em homenagem a madrinha, eu e meus rapazes resolvemos dar um presente ao morro. Não foi comprado com dinheiro desonesto posso lhe garantir!
Neste momento, as portas do salão foram totalmente aberta entrou uma ambulância, equipada para funcionar como UTI móvel.
Nas portas, trazia uma inscrição:
“Ao povo, com o abraço de Eularia Maria da Conceição.”
_Esta ambulância, continuou Mauro _ Vem acompanhada de
um motorista enfermeiro e medico, que pessoalmente vou cobrir os custos até que a comunidade, com minha ajuda e de meus rapazes, consiga construir, em mutirão, o posto de saúde, no terreno que já comprei. ao lado da igreja. O terreno foi comprado e pago, e tem a escritura tirada em nome de Eularia Maria da Conceição, para que não fiquem dúvidas no que eu disse. Também já esta comprado e pago todo material necessário para a construção do posto de saúde.
Dizendo isso, Mauro Cara de Cavalo deu um beijo na testa da madrinha, e retirou-se com seus rapazes.
Seis meses depois , já com o posto de saúde e a ambulância em pleno funcionamento Mauro Cara de Cavalo tombava, num confronto com a policia militar.
Ao saber que Mauro falecera, Eularia comentou.
_Um bom menino... um homem de bem...
Após a missa de sétimo dia, que Eularia mandou rezar, em memória de Mauro, a mesma Eularia retirou o pano de inauguração de uma placa de bronze, no principal salão do posto de saúde, onde se lia:

“Por pior que se possa pensar que e um ser humano, há nele algo de digno, se houver em alguém dignidade em procurar!
Em honra de Mauro Cara de Cavalo

O PEQUENO MÁRIO

Mário tinha seis anos de idade.
Aparentada ter, de corpo, uns quatro e, de vivência ,uns dez, visto que vivia nas ruas, dormindo onde podia e comendo, quando lhe davam.
Seus pais, ele não sabia quem eram, pois nunca os conheceu.
Fora deixado, ainda de colo, num dos bancos da Praça da Sé, em São Paulo, e chegou aos seis anos graças a um grupo de garotos que o adotaram, ainda trocando fraudas.
A mãe, que conheceu e reconhece, é Julia, uma garota de dezesseis anos, que na época tinha dez, e cuidou dele como pode, roubando até, para que não lhe faltasse o leite.
Julia , hoje, não mais esta nas ruas, pois os homens da Febem a colocaram num hospital, pois Julia esta com uma doença grave que o pequeno Mário não sabe explicar direito.
“Cabeça de Prego” é quem cuida de Mário agora, e foi ele quem contou pró Mário sobre Julia.
Mário e os outros meninos vivem na praça, dormindo nos buracos do metro, pois e o único lugar quente que conhecem.
Vez ou outra, um dos garotos é pego pela policia, e fica fora das ruas pôr uns tempos, mas logo volta.
Só quem nunca volta é Julia.
De vez em quando, Mário chora, com saudades de Julia.
Mas chora baixinho, sem ninguém ver, pois o “Cabeça de Prego” não admite que Mário chore, pois diz que chorar e coisa pra mulher, e o Mário fica com vergonha.
Nas ruas, Mário já aprendeu muita coisa: já sabe amarrar os tênis, que ganhou do Juarez, pois não serviam mais pra ele; sabe fazer “cara de fome”, pra ganhar trocados das senhoras que passam na praça: sabe escolher o pão mais mole, dos que encontra no lixo do bar da esquina: sabe que tem que respeitar o padre da matriz, pois e ele quem da os presentes na época do Natal ;e os ovos de Páscoa, além de roupas e outras coisas, vez ou outra.
Outra coisa que a vida ensinou a Mário, foi evitar a policia , pois foi ela quem levou Julia, e o deixou só .
No correr dos anos, Mário conquistou alguns amigos .
Seu Onofre, dono da padaria, lhe garante o café da manhã, chova ou faca sol: o Melquito, dono do restaurante, prepara todos os dias o prato de Mário, e não e com restos não, pois Mário come numa mesinha, ao lado do pessoal da cozinha, com direito até a um copo de suco, que varia todos dias.
Mário tinha um cachorro, o “Felpudo”, mas o caminhão atropelou.
Quando o dia tá quente, Mário e seus amigos vão pra fonte e “caem n’água “, quando a policia não esta vendo.
Vez ou outra, Mário e a turma vão passear de metro, e é sempre divertido, pois Mário “faz de conta” que é tatu, cortando a terra e entrando nos buracos de concreto.
Talvez o dia mais triste da vida de Mário, foi quando o Souza, um menino da turma, com menos de dez anos, pegou carona na carroceira de um caminhão e acabou caindo, batendo a cabeça no asfalto, chegou morto ao hospital.
No Natal passado, Mário ganhou um pião de seu Onofre, com fieira e tudo.
Parece mentira, mas Mário conserva o presente como ganhou. Nunca rodou o pião.
Nem uma única vez.
Assim vive Mário, menino da Praça da Sé .

O MATUTO

(Em memória de Massilom Bueno)


O jovem nascera cuidando de plantação. Não sabia e não queria fazer outra coisa. Foi por causa disso, que havia se sujeitado a ser "alugado".
A única coisa que pediu, foi que o Coronel, dono da terra, lhe permitisse viver isolado, num barraco que ele mesmo levantou, no meio do matagal, a dez metros onde ficava a roça de cana-de-açúcar, que o Coronel encarregara-o de cuidar.
O combinado, era que em cada lote de tonelada de vareta caiana, que fosse colocado nos caminhões, o Coronel pagaria a ele, dez por cento do valor do carregamento, ao preço do dia.
O dono da terra, ao fechar o negócio, não achou que o pagamento ao peão, que trabalharia sozinho em grande extensão de terra, fosse um grande dinheiro.
Acontece, que ninguém conhecia o método de plantio e colheita do qual o matuto era conhecedor, e... não deu outra!
No final da safra, o pedaço de roça do matuto, apresentou quatro vezes mais peso em tonelada, do que qualquer outro pedaço de terra do velho Coronel, e este, rompendo o compromisso, negou-se a pagar contra-entrega.
O matuto foi à casa grande, e o dono da terra, no lugar de o pagar, não o recebeu, mandando seus capangas lhe darem uma boa surra.
Não contente com isto, remeteu ao pedaço de terra do matuto, meia dúzia de homens, que atearam fogo em seu barraco...
O matuto, após recuperar-se da surra, conseguiu emprestado de um amigo, uma espingardinha "pica-pau", e carregando-a com caquinhos de vidro, sorrateiramente chegou ao principal curral do fazendeiro, fez mira, e descarregou a "pica-pau" bem entre os olhos do touro reprodutor do Coronel, orgulho da fazenda.
Não contente com tal façanha, o matuto, munido de uma caixa de fósforos e um galão de querosene, ateou fogo no canavial!
Como era época de "noroeste", em menos de duas horas a fazenda inteira era uma fogueira só!
No outro dia, pela manhã, enquanto chegava à cidade a notícia do Coronel arruinado, que cometera suicídio, entrava no buteco do Oscarim, um matuto, com uma espingardinha "pica-pau" descarregada ao ombro; um cigarro apagado à boca e uma caixa de fósforos vazia no bolso, pedindo ao balconista, um fósforo, para acender o cigarro.
Ao escutar o comentário sobre o suicídio do Coronel, sentou-se num banquinho existente à porta do buteco, puxou longa tragada do cigarro de palha, e disse:
_"Grande perda! Honesto que nem aquele, nunca mais encontrarei! Mais ainda bem que consegui cobrar dele, tudo o que ele me devia!

O HOMEM TAVA OCUPADO

_Eu quero falar com o senhor prefeito! – dizia o homem bem vestido, à secretaria do burgomestre.
_O senhor marcou audiência prá hoje? – perguntou a experiente funcionaria publica, abrindo a enorme agenda.
_Não houve tempo para isso, senhora! Apenas troquei a camisa e vesti o paletó!
_Audiência hoje, sem hora marcada impossível!
_Mas e uma questão fundamental! É necessário que eu fale com o prefeito agora!
_Hoje e impossível! Sr. Prefeito embarca daqui a pouco para Brasília! Tem audiência marcada! É impossível!

Duas horas depois, na cidade vizinha , um majestoso enterro tinha inicio, saindo do hospital modelo em direção ao cemitério local.
À porta do cemitério, dois senhores, trajando preto completo, conversavam.
_Então ? o homem vem?
_Não sei ainda... mandei chamar1
_Eu não entendo o que esta acontecendo...
_Nem eu, que sou mais velho que você!
_Ele não apareceu no hospital nenhum vez?
_Só no inicio da semana passada... ficou dez minutos e saiu... alegou que tinha compromissos...
_Isso não esta correto, você não acha?
_Nem correto... nem ético...
No meio da conversa chegou outro homem um pouco mais moço... o mais velho lhe perguntou.
_Então? Falou com o Home? _Não, pai .... a secretaria disse que ele não podia atender!
_Você insistiu, filho?
_Quase invadi o gabinete?
As cinco da tarde, o cortejo fúnebre saia do necrotério...
As cinco e seis da tarde, um prefeito embarcava num avião de carreira, na cidade vizinha....
O filho, famoso, ia ao planalto...
A Mãe ,orgulhosa, ia para o alto...
Coisas da política!

O FUNCIONÁRIO PÚBLICO


O homem fazia, há quarenta anos, a mesma coisa: chegava na repartição às sete e cinquenta da manhã; batia o ponto; ia para a sua sala; sentava em sua cadeira, frente à mesa; pegava o jornal do dia e o lia, do começo ao fim...
Em seguida, lá pelas oito e trinta da manhã, abria o grande armário, retirando de lá um calhamaço de papel, o qual colocava sobre a mesa...
O selecionava, de acordo com os assuntos.
Separava meia dúzia de carimbos, os molhava na almofada de tinta azul, e começava...
Carimbo na almofada...Carimbo no papel...
Carimbo na almofada...Carimbo no papel...
Isto ia até ao meio dia, quando saía para o almoço, engolido meio às pressas, pois às treze horas, lá estava ele novamente, sentado em seu lugar...
Carimbo na almofada... Carimbo no papel...
Dez para as cinco da tarde, juntava ele os papéis ainda por carimbar, e os guardava no antigo armário...
Os devidamente carimbados, iam para a mesa do Chefe, que mecanicamente os assinaria, mas somente no dia seguinte, pois o expediente da Repartição, estava terminado...
Eram dezessete horas em ponto...
Após o "até amanhã" aos companheiros, voltava o velho funcionário para casa...
No outro dia, às sete e cinquenta da manhã, começava tudo de novo...Quarenta anos...
Um belo dia, aposentaram-no por serviços prestados ao Estado, com direito a salário integral e um ótimo relógio de ouro massiço!
Passaram-se seis meses...
Certo dia, lá pelas quatro da tarde, o telefone da repartição avisou:
_"... O velho servidor havia falecido!"
No enterro, onde compareceram todos os seus antigos amigos, o médico da família comentou:
_"Morreu de Tédio!"

O CASO DA ONÇA

Quando Juca entrou no bar, trazendo pela coleira uma onça pintada, foi um reboliço só, pois ninguém esperava aquilo, ainda mais vindo de Juca, um pacato lavrador, que morria de medo quando os amigos contavam histórias de animais.
Mas era o Juca, o medroso do Juca, que trazia a onça na coleira pra dentro do bar, sem nenhuma cerimonia e sem aviso nenhum, quase matando o velho Onofre, dono do boteco e cardíaco. de susto.
Tudo começou na semana passada, quando o Januário, filho de seu Onofre, resolveu dar uma de valente, e desafiou o Juca para um duelo de coragem.
Venceria , quem trouxesse o bicho mais perigoso ate o boteco, no prazo de uma semana.
Na Sexta foi a vez de Januário, que trouxe um jacaré de dois metros, dentro de uma jaula de ferro.
O Pessoal cumprimentou Januário, tomaram cerveja em comemoração, mas susto mesmo, ninguém tomou com o jacaré.
O Juca ia deixar as coisas acabarem assim, mas o Januário levado pelos comentários sobre o medo do Juca, amolou demais o coitado do adversário, chegando mesmo a chama-lo de “boiola“ e outros nomes feios.
Juca então resolveu trazer a onça, e acabou com a prosa do Januário, que tremeu feito vara verde na porta do banheiro do boteco, pedindo copo d’água, pra acalmar o medo.
Duas horas depois, as coisas já estavam mais calmas na cidade, e o Juca pode levar embora a onça, que havia sido alugada de um circo, na cidade vizinha.
Alem de ser uma onça domesticada, acostumada ao publico, Juca ainda havia tomado a precaução de dar uma injeção de tranqüilizante no bicho .
Vê lá se Juca era besta de correr riscos!

O CARROCEL

O carrossel girava sem parar e, montados nos cavalinhos de madeira, os meninos da favela se divertiam, fazendo de conta que eram mocinhos e bandidos, em perseguições intermináveis.
Havia três dias que o carrossel ali se instalava, no espaço entre o Auto posto do Mathias e o bar de seu Alfredo, local amplo, usado para o futebol diário daqueles que na favela viviam, sem diversão e sem luxo.
Fora obra de Mathias, a vinda do Carrossel, pois que o comprara já usado, de um parque de diversão que entrou em falências.
Como não havia perspectiva de aumento do Posto de Gasolina, pelo menos por enquanto, Mathias resolveu usar o terreno para o divertir dos pequenos, e assim a favela ganhou seu carrossel.
Tinha ele dez cavalinhos de madeira, em cores diversas, já começando a descascar a tinta.
Entre um cavalinho e outro, um pequeno banquinho, para as crianças menores.
Funcionava por intermédio de um amontoado de engrenagens, movidas por um motor elétrico, ligado por fios à tomada central do Auto Posto do Mathias.
Funcionou o Carrossel por quatro dias, sem problemas, levando alegria e diversão aqueles garotos sofridos e sem futuro.
Na manhã do quarto dia, um curto-circuito na instalação do Posto, provocou pequeno incêndio. Por sorte ninguém saiu ferido, e o fogo não atingiu a reserva de combustível, apenas danificou por completo a rede elétrica.
Sem a rede elétrica, além de não funcionar as bombas do Posto, não funcionava também o Carrossel, e isso deixou as crianças decepcionadas.
Mathias saiu, em busca de um eletricista e as crianças por sua vez, começaram a correr de porta em porta, procurando ajuda para que o Carrossel voltasse a girar.
Em pouco tempo a favela inteira estava envolvida.
A parte elétrica, foi substituída por dois motores usados de geladeira, os fios foram trocados por fiação nova, doada por José da Ajuda, dono da loja do Sopé do Morro, e já que era prá ajuda, os filhos da Maria do Morro e pintores de parede dos bons, se prontificaram a pintar os cavalinhos, já que estes já se descascaram.
Juntaram com os amigos, varias latas de tintas à óleo, de diversas cores, e se puseram na pintura, enquanto a parte elétrica era consertada.
Quando o Mathias chegou, ao final da tarde, com um eletricista, o Carrossel já estava todo pintado com cores brilhantes e o Auto posto também já funcionava a pleno vapor, pois as crianças também haviam conseguido uma caixa nova de força, presente de seu Melquito, dono da loja de materiais para a construção, que não só deu a caixa de força, como também mandou trocar toda a fiação do Auto Posto, coisa que o Mathias ameaçava fazer a anos.
Mathias, ao ver o Carrossel todo pintado de novo, e funcionando, e o Posto atendendo a freguesia sem problemas, sentou-se em um pequeno banco de madeira e deixou duas lágrimas banharem seu rosto.
Vendo-o emocionado, as crianças o rodearam, e um menino, o mais pequeno deles, disse ao já idoso comerciante:
_ Não chore, seu Mathias, pois nosso Carrossel está lindo de novo, e nós o amamos muito !
Foi ai que Mathias chorou de verdade, pois compreendeu que aquelas crianças, embora na humildade dos pobres, souberam reconhecer o presente do velho aos seus iguais, e tiveram fibra, para fazer a comunidade entender.
O Carrossel ainda lá está, girando como sempre, com a comunidade preservando-o.
Os filhos de Filó, dão mão de tinta nos cavalinhos periodicamente... Mathias já faleceu, mas em testamento, doou o terreno do Carrossel à comunidade, que o mantém como tributo ao seu benfeitor.

O BAÚ DE SEU PADRE

A igreja matriz da pequena cidadezinha estava lotada, pois o vigário pedira a presença da comunidade na missa das dez daquele domingo, e a religiosidade do povo se fez presente, principalmente dos paroquianos mais humildes.
Na comunhão, padre falou aos fiéis sobre o sacrifício do cristo e da essência do significado do ato da comunhão, que era o simbolizo da união dos homens com a fé do cristo.
Da Omelia, entretanto, pouco falou o vigário sobre religião, pois o assunto era reforma da matriz, que estava com o telhado quase despencando.
Pediu o padre ajuda a seus fiéis e logo depois foi feita a coleta dos donativos
Ao meio da coleta, entretanto, forte chuva teve inicio na cidade, com um vento que chegava a doer.
Quando a chuva cessou, e o vento se tornou apenas uma brisa suave, a missa já havia terminado.
Meia hora depois ,o padre recolhia-as à sacristia, após despedir-se dos fiéis à porta da igreja.
Sob à mesa, encontrou ele um pequeno baú, contendo dobrões de ouro.
Junto ao baú ,uma carta:
_“Use este ouro para construir uma igreja nova, ou reformar esta. não peça a quem não tem nada para dar. Espere o poder divino, pois ele tarda, mas não falha”
A carta não trazia assinatura.
O baú trazia, na tampa, gravado a fogo, à marca do cristianismo.
Em cada dobrão de ouro, gravado estava o peixe, como no baú.
O padre, assustado comunicou o fato ao bispo, e este relatou o fato a Roma .
A igreja foi reformada, e o baú, guardado no cofre da Sacristia.
O baú continha cento e oitenta dobrões de ouro.O interessante e que lá ainda estão os cento e oitenta dobrões de ouro, pois embora o padre os tenha vendido para a reforma da igreja, dois dias depois eles apareceram no baú, sem ninguém os recolocarem lá, pois estavam no cofre da sacristia.
Coisas da Fé, presume-se...

O ARMAZÉM

O armazém do Custodio era muito mais do que um simples armazém de secos e molhados, como podia parecer para quem via o armazém, pois aquele local era o centro de tudo, naquela cidade, que nem no mapa do estado aparecia.
Ali, se resolvia tudo, em nome da comunidade e se ditava as regras de conduta de conduta até da própria vida da população.
Foi no armazém do Custodio, que a oposição conseguiu encontrar um nome , para ganhar as ultimas eleições gerais; foi ali também que lançou-se o nome do Justino, para presidente da Associação Comercial, além de sair dali o nome do presidente do Clube Campestre, que de campestre não tem nada, pois fica na parte central da cidade mas, com fala o Sebastião, sacristão das matriz, o nome não é coisa importante desde que o tal clube sirva a população, e é o que acontece; pois é no “campestre” que nasce todas as ajudas comunitárias, dirigidas à população carente.
O Armazém do Custodio é, sem duvida, o coração da cidade, pois é daquelas três mesinhas de armar, que o Custodio coloca frente ao armazém, invadindo a calçada, que sentam para o aperitivos “notáveis” da cidade, pois a cidade é do povo, mas quem manda realmente, senta-se naquelas mesas, com toda certeza.
Foi ali que nasceu a candidatura de “Chico Filo”, para deputado estadual.
O coitado do Chico só ficou sabendo dois dias depois, quando invadiram seu sitio, ao pé do morro, pra lhe informar que ele, o Chico, era o candidato da cidade.
O Chico perdeu a eleição, mas ganhou um bocado de amigos, que na eleição pra prefeito ajudaram a oposição a ganhar a prefeitura e doze cadeiras na câmara municipal.
Chico não foi o candidato, pois esta honra ficou para o Dr. Pimenta, mas o Chico ajudou muito, tanto que Dr. Pimenta arrumou um emprego para o filho do Chico que agora é continuo da prefeitura.
O Chico fala que o filho ganhava mais no escritório de despachante, que trabalhava a mais de cinco anos, quando o Pimenta o levou para a prefeitura, mas agora é emprego fixo e isso, nos dias de hoje, vale alguma coisa.
O engraçado é que o Chico, depois da eleição do Pimenta, pouco aparece no armazém e, quando o faz, nem chega a esquentar a cadeira, muito diferente do que acontecia na época da eleição, quando o Chico era figura constante e obrigatória.
Padre Clementino é quem deve estar com a razão, quando diz que política é a arte de plantar e colher depressa pois, quem espera, perde a safra.
_Chico plantou, e bem plantado, mas na hora de colher, esperou demais, e ai, o Pimenta aproveitou!
Disse o padre certa vez, numa conversa na casa de dona Marcolina, no aniversario de casamento da bondosa senhora e seu Lindouro, líder da situação, quando o nome do Chico foi colocado numa conversa sobre o armazém.
Carmelita, mulher do Custodio disse que o armazém nunca esteve tão movimentado como no dia que a “casa amarela” foi fechada pela policia e a Maria Pouca Roupa resolveu colocar a boca no trombone, e escolheu o armazém, para palco de seu discurso.
O que Maria disse de verdades naquele dia, deixou muita gente de cabelo branco e, menos de duas horas depois o Dr. Fugencio relaxava a ordem de fechar a “casa amarela”.
Nunca mais a policia chegou perto da casa de Maria Pouca Roupa, e Custódio nunca tremeu tanto como naquele dia, pois a Maria fez uma confusão tão grande no armazém, que em certo momento, não se sabia mais quem era da situação e quem era da oposição, pois Maria lavou a roupa suja, sem se preocupar, toda misturada, e foi difícil secar peça por peça.
Foi no armazém também que o Américo se escondeu, quando Melquito o pegou nu, na cama de casal, com a Ernestina e o jogou pela janela do segundo andar do sobrado, nu como havia nascido.
De certa feita o Paiva, dono do cartório, resolveu contar nas paginas do “diário”, as histórias do armazém, mas a coisa não durou muito, pois depois que o jornal publicou a primeira história, o Paiva apareceu com escoriações pela corpo, e desistiu da idéia.
No carnaval passado quase que acontece o fim do armazém do Custodio, pois um grupo de jovem, ligados à situação, que agora é oposição ao Pimenta, jogou uma bomba caseira no armazém bem quando tava todo mundo reunido para o papo diário.
Foi uma correria dos diabos!
Acabou levando dois para a farmácia do Juares, com escoriações pelo corpo e com um talho no olho do filho da Cremilda, que não tinha nada que ver com a história, apenas tinha ido buscar dois quilos de feijão mulatinho pra mãe e acabou quase cego do olho esquerdo.
Cremilda saiu em defesa do filho e por pouco o armazém do Custodio não é fechado permanentemente, pois a Cremilda, viúva do finado Jetulino, que antes de morrer havia sido prefeito por três vezes, fez o maior fuzuê com o acidente do filho, responsabilizando o Custodio pelo ocorrido.
A coisa foi tão feia, que até processo na justiça rendeu, e Custodio se viu em papos de aranha pra pagar a tal indenização, que o juiz determinou ser paga ao menor, que era arrimo de família”.
Cremilda, quando foi procurada pelo seu vigário, a pedido do Custodio, para um acordo, foi taxativa:
_Não tem acordo! Tá na hora destes cabras descobrirem que existe lei, e que é pra ser respeitada!
Foi assim que o Custodio quase perde o armazém.
O teria perdido se Dr. Pimenta não lhe adiantasse algum.

NUM HOUVE TEMPO

Maria era uma humilde do campo, que havia saído do sitio de seus pais com o casamento, e viera para a casa de seu marido, na cidade.
Casinha pobre, construída pelas próprias mãos, com três cômodos de alvenaria, com pintura de azul claro por fora, um amarelo indefinido por branco, com piso de vermelhão, que Maria acostumou-se a manter encerado. O casal, sem filhos, viveu naquela casinha, ao pé do morro, mais de dez felizes anos.
Cremente, marido de Maria, era pedreiro por conta, trabalhando somente por empreitada mesmo assim, nada faltava ao casal, pois Maria lavava roupa para fora e contratada foi para lavar roupas de um motel, que ficava na estrada.
O casal não possuía parentes, a não ser um ao outro.
Certo dia, com uma milhar, Cremente ganhou no bicho.
Foi uma festa, com bolo de fubá e refrigerante de garapa!
Naquela mesma semana, entrou na pequena casinha uma geladeira nova e uma TV à cores, coisas que Maria “namorava” a muitos anos.
_Viver só de juros, é pecado!
Diria Maria, quando Cremente lhe contou que o gerente do banco, onde aplicou o dinheiro, avisou-lhe que o juro mensal da aplicação, dava mais do que o dobro do que eles ganhavam por mês, trabalhando de sol à sol.
Em poucos meses, só com os juros, conseguiam o suficiente para comprarem um bom terreno na beirada da estrada.
Alguns meses depois, Cremente começou a construção da nova casa, feita com bom material e no capricho!
A nova casa ficava frente a curva da estrada, no final de uma ladeira.
Possuía um bom quintal na parte, onde Maria montada uma pequena horta, de onde tirava as verduras para o dia à dia.
Nada faltava ao casal, pois o capital estava bem aplicado e os juros, lhes dava uma boa renda.
Num sábado pela manhã, Cremente resolveu dar uma boa limpeza na horta e Maria resolveu ajuda-lo pois gostavam de ter longas conversas.
No alto da ladeira, antes da perigosa curva, uma carreta com grande peso, perdeu os freios.
A carreta, desgovernada, não pode fazer a curva....
Não houve como evitar....
O quintal da frente da bela casinha foi destruído.....
Não houve tempo para fugas......
Não houve tempo para nada.......

NA RUA DA FORCA

O bairro da forca ficava distante...
_Longe pacas!
Como dizia Clementino, quando perdia o ônibus e tinha que voltar do serviço “solando asfalto “
La nunca existiu calçamento oficial, pois nem o bairro tinha oficialidade, visto que era um amontoado de casebres, feitos em mutirão, em um terreno de invasão, que o proprietário a tempos tenta retomar.
Clementino, antes de morar no bairro da forca, vivia mudando de ponte em ponte, com a mulher e os meninos, visto que era um dos milhares de “sem teto”, que enfeitam as cidades grandes.
Diz Clementino que sua vinda para o bairro da forca foi comum milagre, pois ao meio dia estava sendo despachado da ponte e, na mesma noite, conseguira dar à família um teto, que já era seu lar a uns bons quatro anos.
_Pra quem quer teto, para ter pão, mutirão é a solução!
Não cansa de repetir o bom Clementino, quando tem oportunidade.
Nasceram ele, a mulher Rosa, e os três meninos, na caatinga do nordeste da Bahia.
Vieram para o sul, procurando melhores dias.
Clementino, embora não escreva uma única palavra, é pedreiro de mão cheia, e não lhe falta vaga, nas construções da cidade grande mas, sem estudo, ganha salário mínimo. Daí, como vai pagar aluguel?
Rosa, para ajudar o marido, “pilota tanque” para quem pode pagar, e levanta outro salário, quando muito!
Com cinco bocas para sustentar, sobra pouco para o aluguel e Clementino nada mais pode fazer, a não ser procurar qualquer abrigo por família.
Primeiro, foram as pontes e viadutos.....
Agora, o barraco de zinco...
Quando subia a rua de casa, que não e nem uma rua, mas uma picada, cercada de matagal e pequenos casebres de madeirite, com coberturas de zinco com luzes de lampião à querosene, como a embelezar a escuridão, Clementino deparou com algo estranho: um papelzinho dourado, com umas listas e uns números, que Clementino não sabia ler, não sabia dizer também o que era, mas abaixou-se e pegou o papel, colocando-o no bolso da camisa.
Não se podia classificar Clementino de ignorante, pois embora analfabeto, tinha lá seus dotes de esperteza. Guardou, portanto, com muito cuidado, o papelote colorido.
Quando o despertador avisou que eram cinco da manhã, Clementino já levantou pronto, pois dormira vestido.
Apalpando o bolso da camisa, constatou que o pequeno papelote ainda estava lá.
_Hoje descubro o que é isso!
Pensou ele com seus botões, enquanto requentava o café, que Rosa fizera na noite anterior, e dele tomava um gole.
Fazia já algum tempo que o tal do sindicato tinha conquistado vale refeição, e isso tinha conseguido evitar que Rosa tivesse que levantar as três da manhã, para fazer a bóia do marido, como antigamente.
Clementino já conseguia dar a esposa algum sossego, e isso lhe fazia bem.
Após o beijo costumeiro na esposa e nos filhos, saiu o pai de família para o escuridão, em busca do sustento.
À hora do almoço, passou ele pôr uma casa lotérica.
Na porta , viu ele alguns bilhetes em exposição.
Será que aquilo é um tal destes bilhetes? Que o Joaquim da Carminha vive comprando ?Como será que funciona este treco?
Pensou Clementino, enquanto entrava na casa lotérica e pedia explicações para a funcionaria.
Após as explicações, Clementino enfiou a mão no bolso da camisa e, com muita dificuldade, foi conferir o tal papelote.
Naquela tarde, a casa 98, onde morava Rosa, os meninos e o pedreiro Clementino foi esvaziada.
A família voltou para o sertão da Bahia, onde Clementino montou casa, um pequeno bar com petiscos e colocou os meninos em boa escola.
Rosa nunca mais pilotou tanque, pois o bilhete, que Clementino encontrou na rua da forca, estava premiado pela loteria federal.