Medalha Afonso Schmidt 2008

Carlos Alberto Lopes

Terça-feira, Dezembro 23

COLETÂNIA DE CONTOS DE CARLOS ALBERTO LOPES


Este blog reune os contos de Carlos Alberto Lopes.
Poeta, Editor, Contista, Romancista, Teatrologo, Carlos Alberto Lopes vem desde os 15 anos, num participar constante na vida literaria.
Editor de O Anacoluto Cultural, editou ele outros jornais, em Minas Gerais de quando de sua fase mineira - Os Conjurados de Coimbra ( zona da Mata Mineira) A Tribuna de Visconde do Rio Branco ( tambem na zona da mata mineira) .
Em 2008 recebeu ele a Medalha Afonso Schmidt, a maior honraria cultural do Municipio de Cubatão.
É o autor de " Schmidt - O Rebento dos Bananais" - biografia de Afonso Schmidt, editada eletronicamente e disponivel para consulta.
Com seu Jornal vem ele desenvolvendo um novo modo de fazer jornalismo: o jornal pessoal.
Carlos Alberto Lopes marca a sua tragetoria literaria, pela franquesa de seu escrever, sua forma direta de dizer o que pensa e sua maneira particular de encarar a vida.
Natural do Municipio de Cubatão, onde nasceu em 23.09.1951, a anos desenvolve sua cultura na baixada santista e , atualmente, pela internet e suas páginas e blogs culturais.

ACONTECEU EM MINAS

Na cidadezinha, no meio da Zona da Mata de Minas Gerais, o Gerente do Banco do Brasil resolveu que não mais ia trabalhar. Vinte anos de Banco chegavam para ele. Alegando estafa e valendo-se de meia dúzia de médicos amigos nas cidades vizinhas, entrou de licença médica por conta própria, por dois anos e meio.
Após isso, o Banco do Brasil chamou o homem para uma perícia médica, em Belo Horizonte, a mais de 400 quilômetros de Coimbra, cidade onde residia o gerente.
Coimbra fica na região de Ubá, São Geraldo, por ali...
E lá foi o funcionário para Belo Horizonte, com perícia marcada.
Chegou ao local, e as perguntas de praxe...
- Onde mora?
- Coimbra...
- Onde fica Coimbra?
- Zona da Mata...
- O que faz no Banco do Brasil?
- Gerente, há vinte anos...
- O que os médicos dizem que o senhor tem?
- Estafa, por excesso de trabalho...
- O senhor acha que trabalha muito?
- Sim, senhor.
- E nos finais de semana, o que o senhor gosta de fazer?
- Pescar...
- Pescaria é bom divertimento... e pesca onde?
- No Balde...
- No balde?!
- Sim senhor...
- O senhor tem certeza que pesca no balde?
- Claro, pesco lá desde garoto... Fui criado, pescando no balde!
Diante das respostas, o médico chamou um colega psiquiatra, para acompanhar a perícia.
O psiquiatra, mais experiente nos casos de fraude com mentira, forçou a barra:
- Mas e aí, amigo... e quando o balde não dá peixe?
- Aí, eu ando mais uns dois ou três quilômetros, e vou pescar na bacia. Lá sempre tem peixe.
A perícia do Banco do Brasil constatou estafa emocional e desequilíbrio. Aposentou o sujeito.
O interessante da historia é que o gerente não contou nenhuma mentira na entrevista...
Coimbra possui um rio chamado Rio Balde...
E a três quilômetros, para dentro da zona rural do município, existe uma lagoa chamada Lagoa da Bacia, que também dá peixe...
Ele não tinha culpa, que os médicos de Belo Horizonte, não conhecessem Coimbra, ora bolas...
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Carlos Alberto Lopes
escritor@uol,com.br

Sexta-feira, Junho 29

UMA FAMILIA NORMAL

O dia nascera com um sol avermelhado, que dava as nuvens aquele tom abóbora. Parecia que o céu pegava fogo.
Carmelita, naquela manhã, madrugara na porta do posto de saúde, procurando marcar consulta.
Era a quarta da fila, embora já estivesse na porta do posto quando o relógio da matriz deu as quatro badaladas.
Era assim mesmo todas as quintas-feiras, único dia da semana que o Dr. Marcelo Novaes Filho atendia, pois a consulta na clinica, era cara demais.
Carmelita era faxineira, e mal ganhava para dar sustento aos filhos, pois o marido lhe morrera a um ano atrás, deixando-lhe três bocas para sustentar, vestir e calçar, como herança.
Com a ajuda de padre Teobaldo, empregara Filomena, com treze anos, com babá do filho mais novo do prefeito, ganhava pouco., a garota, mas menos tinha onde comer e dormir com segurança.
Caramelo, com doze, era o “homem da casa”, pois assim agia, desde a morte do pai . embora pouco mais que uma criança, era engraxate na porta da igreja, e todo cair da tarde entregava a féria do dia nas mãos da mãe.
As vezes nem ia em casa para o almoço, e chegava varado de fome, pois nem o trocado para o lanche tirava da féria. Era o orgulho da mãe, que o tinha em alta conta.
Álvaro, o mais novinho, que ainda ia completar quatro anos , passa o dia na creche da prefeitura e não da trabalho.
Carmelita madrugara no posto, em busca de uma consulta, porque dona Acácia, a vizinha, disse que era bom passar pelo medico vez ou outra, para ver “coisas de mulher”, como dissera a vizinha.
As sete, a moça do posto deu a senha pra carmelita e, às nove e meia , o doutor Marcelo a atendeu.
O medico a examinou e passou alguns exames, o resultado saiu alguns dias depois; Insuficiência cardíaca; vasos entupidos e gordura no sangue.
Carmelita voltou para casa, tomou os remédios que Dr. Marcelo lhe deu, e sentiu-se bem melhor.
O tempo correu, e Carmelita acabou esquecendo ao fundo da gaveta, a receita que o medico lhe receitara.
Uma bela tarde, Carmelita teve leve desmaio e caiu da escada.
Socorrida pelos vizinhos, já chegou sem vida ao hospital.
Filomena ficou com o prefeito...
Álvaro foi para a adoção ...
Caramelo foi pro seminário...
A família se dividiu...
_O que fazer, se Deus quis assim????
Foi o comentário de uma das beatas da igreja matriz, na missa de corpo presente da finada mãe de família.....

TOSTÃO POR TOSTÃO

Nas Minas Gerais de outrora, quando o ouro era encontrado tão facilmente quanto hoje encontra moitas de capim, vivia um homem com fama de mendigo.
Passava o dia a porta da igreja, pedindo aos fieis um tostão para seu sustento. Nunca aceitava moeda ou nota superior a um tostão, podiam investir quando fosse, que o velhinho não aceitava.
Na hora da missa, entrava na nave e sentava-se no último banco, puxando ladainhas em latim, com perfeição no idioma.
Não perdia um enterro! Quando sabia da morte de alguém na cidade, lá ia ele com seu paletó já surrado pelo uso, doação de uma bondosa senhora, ajudar ao bondoso padre no encomendar da alma do finado.
Entendia os rituais da igreja como ninguém, e o próprio padre se admirava de sua memória, já que rezava em latim, sem um único erro de pronuncia.
Viveu na cidade longos anos, sem nunca faltar a uma única missa.
Certa manhã, ao abrir a igreja, o padre o encontrou morto na escadaria, com os pés voltados para a porta e a cabeça, no primeiro degrau.
Nos pés e nas mãos, trazia ele ferimentos profundos ainda sangrantes.
A policia foi chamada, e o corpo recolhido à Santa Casa. O delegado determinou que se revistasse os bolsos do morto, e foi encontrado além de alguns tostões, um bilhete.

“Meus bens, deixo como legado a igreja matriz desta bondosa cidade, que soube acolher-me e dar-me o que comer, vestir e beber, sem perguntas procurar fazer-me. No barraco, onde moro, sem nada pagar ao proprietário, será encontrado meu legado.”

No barraco, encontrado foi um cem número de barris, abarrotados de moedinhas de um tostão.
O montante, deu para o padre reformar a nave da matriz e construir um grande orfanato.
Coisas da fé.....

OBRIGADO, JULIO!!!

Júlio era o que se podia classificar de um “João Ninguém”, pois nunca conseguia criar família, ter emprego fixo, possuir propriedade ou outra coisa qualquer, pois nunca tivera juízo bastante para isso, vivendo, dormindo e comendo graças à caridade e bondade do povo da pequena cidade, que o considerava “patrimônio municipal”, pois Júlio tinha coisas ao seu favor: Não bebia e era de alta confiança.
Era a pessoa ideal para fazer pequenas tarefas, mas nunca duas ao mesmo tempo, pois sua mente misturada tudo e ele entrava em depressão.
Os comerciantes da cidade, nomearam Júlio numa espécie de “continuo coletivo”, pois fazia pequenos trabalhos, e com isso ganhava o suficiente para não ser pedinte, o que lhe dava um certo respeito próprio.
Seu quartinho, atrás do armazém de miudezas do Januário, é arrumadinho e limpo ao extremo, pois Júlio detesta sujeira.
Aos domingos, pela manhã, que ninguém procure Júlio, pois ele esta na casa paroquial, cuidando da faxina, e por mais que o sacerdote queria lhe dar pagamento pelo trabalho, não há quem o faça aceitar, pois diz que é Deus quem lhe faz o pagamento, dando-lhe direito a dignidade.
Quem não conhece Júlio, facilmente o confunde com um executivo, pois vive vestido com terno completo, camisa branca de mangas compridas e gravata.
Tinha, no quartinho, um guarda-roupas quase de primeira, pois todos os comerciantes da cidade lhe davam roupas quase novas, ou novas mesmo, pois Júlio merecia, visto que cuidava da aparência e do asseio próprio como poucos.
Júlio era respeitado por todos na cidade, pois estava sempre pronto ajudar seu próximo.
Ninguém conhecia o passado de Júlio ou sua família.
Aparecera na porta da casa paroquial, a uns vinte anos atrás, e nunca mais abandonou a cidade.
Certo dia, um caminhão perdeu o controle na descida do morro do cruzeiro e entrou, desgovernado, na praça da matriz.
Ao meio da praça, na inocência de seus quase dois aninhos, brincava Bianca , filha única de Fabiola e Gilberto.
O veiculo, carregado e sem controle, invadiu a praça, levando pelo caminho bancos e árvores centenárias.
Sua possível trajetória, tinha o local exato onde Bianca brincava com sua bonequinha de louça, que a vó lhe dera no último Natal.
Júlio estava na padaria.
Ao ver o caminhão entrando na praça, correu como nunca e, em segundo, tirava Bianca da trajetória do veiculo, mas não conseguiu evitar que o caminhão o atingisse, fazendo de Júlio sua única vitima.
Júlio ainda foi levado ao hospital, mas não havia mais tempo pra nada. Júlio estava morto!
Seu velório, na câmara municipal, foi o mais concorrido da cidade.
Seu enterro, o de maior número de pessoas.
Por iniciativa do comércio, foi decretado luto não oficial por três dias.
Isso aconteceu há mais de dez anos ,e até hoje o nome de Júlio é sinônimo de bondade, na cidade onde Bianca brinca na praça da matriz, deixando sempre uma rosa branca na placa que lá esta, onde se lê:


“Ao amigo Júlio, a cidade agradece!!!”

A rua, que liga o cruzeiro a praça, foi rebatizada como “Alameda Júlio; a creche, onde Bianca estava matriculada na época do acidente, recebeu o nome de seu salvador.
O sacerdote da matriz reza, anualmente, uma missa em memória de Júlio, na data do acidente e o prefeito decretou a data como feriado municipal.
Júlio, o homem sem família ou sobrenome, tornou-se herói, não só pelo seu ato, mas por sua maneira cristã de ver a vida.

O VENDEDOR DE VELAS

O Padre de matriz via todos os dias um menino, de seus dez ou doze anos, não mais que isso, sentado na escadaria da igreja matriz, oferecendo velas aos paroquianos .
_Como e teu nome, menino?- perguntou-lhe certo dia o bondoso sacerdote.
_Me chamo Mário, seu padre!- respondeu o menino, tirando o chapéu de palha da cabeça...
_Quantos anos tem?
_Mãe diz que já fiz dez, mas certeza mesmo, tenho não senhor! Nunca, nunquinha mesmo, comemorei aniversario!
_Sabe ler, escrever, fazer conta?
_Olha seu padre, sei ler as letras....mas quando coloco elas todas em carrerinha não entendo mais nada. Quanto aos tais dos números, conheço eles..... mas se puder um em riba dos outros, com mais de dois andar, eu num sei como junta eles não. Mãe diz que isso a gente aprende na tal da escola, mas eu nunca fui lá não! Tenho que trabalha, por morde de que o Marcelo, meu irmãozinho ainda toma leite. Ele é pequeno ainda!
_E seu pai?
_Morreu faz um tempinho, numa brigas com um sujeito lá na favela, onde nois mora! O sujeito não gostava do pai, e ai mato ele, com a peixeira! Depois, veio uns home, que colocaram o pai num carrão preto e sumiu! Meia hora depois, a mãe veio conta que ia ao tal do instituto medico legal, busca o pai, pro velório, mas não sei o que aconteceu, pois a mãe demorou e nois, eu e o Marcelo, durmimo. No tal do enterro, fui não, pois dona Rosa, vizinha de nois, lá na favela, disse que nois era pequeno demais pra vê enterro, então a mãe deixo nois em casa e foi enterra o pai, e nunca mais vi ele. Mãe diz que ele tá cum Deus! É verdade, seu padre?
_É filho! –Disse o padre comovido.
_Então mãe não mentiu! Que bom! Depois disso tudo, eu arresolvi ser o homi lá de casa, e vim aqui pra porta da igreja, vende velas, pra dar o leite do Marcelinho, pois os peito da mãe não da leite pra ele, e a pensão do pai, mal dá pra paga o barraco!
_E ninguém ajuda vocês?
_Pra fala a verdade, seu padre, vez ou outra chega lá em casa umas mulhe, trazendo uns biscoito duro, e um punhado de coisas pra mãe cozinha, mas não é sempre não.....é bom, mas a mãe falô que nois num deve acostuma com a caridade dus outro, e que devemo trabalha pro sustento, pois quando a caridade faia, a gente passa fomi! Eu, pro meu lado, arresolvi: Vou acostuma a ganha o meu, mas no honesto, por isso é que vendo vela, no luga de pedi trocado pros outro!
_Dá pra ganhar o suficiente?
_Oia, seu padre, desde que comecei a vende as velas, o Marcelo teve leite todo dia! Não ganho muito não, mas para o leite do menino, consigo ganha!
_Mas para o resto, meu filho? –Perguntou com lagrimas nos olhos, o reverendo.
_Ora, senhor padre, o senhor mesmo disse, na missa que eu assisti outro dia, que Deus olha pra quem necessita a ajuda, quem merece! Nois necessita e acho que nois também merece, portanto ele vai nos ajuda, não é mesmo? De mais a mais, nois não temo luxo, seu padre.....mãe esquenta no forno o pão, que seu Valdemar guarda pra mim, da fornada de ontem, e nois num passa fome não, padre! Tem gente que tem menos que nois, não é assim, seu padre?
_É filho! É assim mesmo!
Naquela noite o vigário dormiu mais tranqüilo, pois sabia que na escadaria da igreja, logo pela manhã, um anjo, em forma de vendedor de velas, lá estaria, demostrando com seu trabalho, sua fé em Deus e seus ensinamentos

O SUSTO DO LAURINDO

Na choupana, onde funciona a xiboca do Horácio, que faz a melhor caipirinha do morro , o Bola Sete jogava sinuca com filho da Maroca, que já puxou dois anos de cadeia e ainda não se emendou, vivendo de arrumar confusão.
_ Marcelo não tem vergonha!
É o que diz, sempre que tem o oportunidade, a Maroca, mãe do pimpolho.
Para a mãe, é o Marcelo, mas para o morro era Nego Cipó, forte como um touro e ágil como um gato.
O único que merecia seu respeito era Bola Sete, pois o crioulo era de assustar qualquer um, e poucos tinham coragem de enfrenta-lo. Eram dois metros de músculos, onde se distribuíam cento e vinte quilos de peso, era um verdadeiro trator, quando perdia a paciência, mas uma moça, no trato do dia a dia.
Puxara oito anos de cadeia, quando deu um murro no cabo Getúlio e o mandou ”visitar São Pedro”, só com passagem de ida.
Vivia ele de bicos, e assim sustentava a velha mãe, já com quase setenta primaveras.
Tinha lá seus amigos, e um deles era Negro Cipó, pois os dois lá se entendiam.
Era comum o joquinho de sinuca, no mano-a-mano, todo inicio de noite, na xiboca do Horacio.
Naquela noite, porém, a coisa foi diferente, pois lá pelas oito da noite, Maria Filomena das Dores entrou, trazendo o pequeno rebento ao colo, chorando que nem uma desesperada.
Cipó pegou o menino ao colo, enquanto o bola procurava saber o que havia acontecido.
Depois de muito choro, Filomena conseguiu contar que o Sargento Laurindo, seu caso a tempos, e pai do menino, havia chegado de cara cheia e resolveu comprar barulho, dando-lhe uns tapas e quase acertando no menino.
Enquanto escutava a história, o rosto de Bola Sete avermelhava, ganhando um tom roxo, que assustaria qualquer um.
A mulher do Horacio recolheu o menino e Filomena, enquanto os dois amigos saiam, sem nada dizer.
Não levaram dez minutos, para estarem na porta do sargento Laurindo, que tinha este titulo porque era sargento, nos fuzileiros, quando era mais moço.
Quando Laurindo atendeu à porta, ainda meio de cara cheia, veio com meia dúzia de palavrões feios.
Bola não disse uma única palavra, apenas juntou Laurindo pelo colarinho e o levantou ao chão uns bons dois palmos.
Laurindo, com o susto, curou a bebedeira rapidinho, e começou a se dizer autoridade; que o Bola o soltasse, e outras coisas mais.
O Bola olhava no olho do homem e o segurava com uma mão só enquanto Nego Cipó revistava a casa, em busca da arma do sujeito.
Quando a encontrou, Bola soltou o sujeito, que estava vermelho que nem um pimentão.
Laurindo sentiu o dedo do Bola em seu peito, e ouviu o estrondo da voz do “brutamontes”, que ressoou ao ouvido.
_Se oce toca novamente, ou em Filo, ou no menino, os tais dos fuzileiros não vão gasta muito, pra enterra oce, viu?
Laurindo ficou branco...
As pontas dos dedos gelaram...
Ainda estava assim, quando Cipo e Bola saíram, voltando ao seu joquinho interrompido.
Filomena voltou pra casa horas depois, e nunca mais o Laurindo tocou num fio de cabelo dela ou do menino.
A vizinha contou que, no outro dia pela manha, Filomena estava no tanque, lavando um pijama de Laurindo, pois o mesmo estava borrado.
Deve ser verdade, pois Bola Sete tem fama de fazer safado borrar as calcas, vez ou outra.

O SANTO PADRE

Aquela pequena cidade tinha se unido e construído com as próprias mãos, a sua Igrejinha... Pequena no tamanho, mas grande na fé de seus paroquianos, que economizaram tostão por tostão, recolhendo o necessário para mandarem vir da Capital, a imagem de Nossa Senhora do Rosário, esculpida em Jacarandá a quem por querer comum, elegeram Padroeira do humilde lugarejo, que no mapa do Estado, figurava como "cidade", mas que na realidade era apenas uma "vila", com falta de tudo, menos da fé...
A imagem já estava na cidade há dez anos e todos os dias às oito horas em ponto, o sino de bronze dava as oito badaladas, levando para a pequena Nave, a maioria dos habitantes, que com fé imensa, escutavam e participavam da Santa Missa!
Quando anoitecia, e o relógio da Estação Ferroviária avisava que já eram sete da noite, novamente o sino tocava, e lá iam os fiéis de Nossa Senhora, para a Reza diária...
Vez por outra, a "dona morte", resolvia passar pelo local. Nestas ocasiões, a pequena Igrejinha, transformava-se no recinto em que os amigos do finado dele se despediam...
A água de sal era jogada nos recém-nascidos, acompanhada por clássicas palavras em latim...
Quem olhava a procissão de Nossa Senhora do Rosário, cortando a cidade de ponta a ponta, em 13 de maio, diria que nada havia de errado...
Mas quem observasse com maior cuidado, verificaria, que puxando a procissão; ministrando a Missa; abençoando aos recém-casados; molhando a cabeça dos recém-nascidos ou encomendando o espírito dos convidados de "dona morte", não estava um Padre, como seria o natural...
Quem fazia as vezes do Vigário, naquele local esquecido pelo Senhor Bispo, era "Pai Germino", benzedor e raizeiro, que morava na Rua do Morro, e que à sextas-feiras, movimentava o seu Terreiro de Candomblé!

O RAIO ATRAZADO

O relógio da Matriz marcava: 11:45 minutos, daquele dia de sol quente e mormaço assustador, que fazia até o Senhor Vigário vir à porta da Sacristia e, numa atitude inesperada, levantar a batina, procurando, com isso, se refrescar um pouco...
Do Colégio Público, que se fazia majestoso no alto do morro, começou a sair a "Manada Estudantil", apelido que dera o Senhor Vigário àquele mar de jovens, que quando faltava um quarto para o meio dia, dos chamados dias úteis da semana, descia a ladeira do Colégio, em conversas intermináveis e brincadeiras, nem sempre divertidas, aos olhos do Senhor Vigário, pois não raro resolviam jogar barro nas batinas do Padre, que descansavam no varal, para esquentarem um pouco, entre a missa da manhã e a oração da noite, coisa que já havia até se tornado ponto principal da homilia de um dos domingos anteriores, coisa que acabou fazendo a nave da Igreja ser palco de uma gargalhada geral, visto que a missa das dez, é a mais freqüentada pela "manada estudantil".
Mas naquele dia, mal a "Manada" terminou de descer o morro do Colégio, o céu escureceu de repente, e um raio cortou o espaço, atingindo o velho Colégio Municipal, fazendo em pedaços boa parte de sua velha estrutura, que há muito pedia uma boa reforma!
Saíram feridos do episódio, oito dos funcionários da limpeza, a velha Diretora, com um grande corte na cabeça, e dois estudantes do último ano, que estavam realizando uma pesquisa na Biblioteca!
Ao saber do ocorrido, o velho Padre, ajoelhou-se frente ao altar e, comovido, disse:
_"Obrigado, Senhor, por haver permitido que aquele raio chegasse atrasado para a aula...

Quinta-feira, Junho 28

O PRESENTE

O morro estava em festa , pois dona Eularia, a mais antiga moradora, completaria oitenta na quadra da escola de samba do morro, com gastos pelo centro e por alguns comerciantes. com os sambistas se apresentando e o morro em peso como convidados, em uma festança como nunca havia sido feita .
Dona Eularia, mãe do santo das melhores, era uma das criaturas que se coloca no mundo só com coração, sem outra coisa.
Era a parteira oficial do Canta Galo, desde que se conhecia como gente, que fez o primeiro parto aos dez anos, trazendo ao mundo o velho Justino pouca prosa, que acabou casando com sua filha Malvina, trinta anos depois.
Justino já estava no “andar de cima “, mas Malvina ainda estava lá, ao lado da mãe.
Quando perguntavam a Eularia sobre a saúde, ela responde:
_Vai como Deus quer e permite! Aqui vou estar, até que o criador me avise que esta na hora de “bater com as dez” e ir prestar minhas contas, que estão penduradas em um prego já enferrujado!
Pois assim era Eularia, sempre de bom humor e com uma gargalhada pronta para a vida.
A festa, preparada com carinho, tinha de tudo, tinha e de tudo provou Eularia... até tomou o tal do “whisky” que chamava de “cachaça de gringo”, do litro que ganhou de presente do Juvenal, presidente da escola de samba do canta galo.
Lá pelas duas da manhã com o salão lotado e o arrasta pé pegando fogo, entrou pelo portão um punhado de pessoas, os convidados se entreolharam, e o salão ganhou profundo silêncio.
Eularia, do alto de seus oitenta anos, desceu os dois degraus que a separavam do salão, largou o lugar de honra que ocupava no palco e, amparada por dois de seus netos, se dirigiu ao grupo que entrava.
Era um grupo de dez ou doze homens, todos vestidos de negro, com luvas de couro de mesma cor, trazendo pintado nas jaquetas uma caveira dourada.
Trançada do meio por dois sabres.
Todos do morro conheciam aquela marca...
Era a marca do grupo de delinqüentes comandados por Mauro Cara de Cavalo, elemento com vasta lista de contravenções e crimes procurado pela policia como elemento de alto perigo.
Pois foi justamente ao Mauro, que Eularia se abraçou, dizendo!
_Meu menino! Pensei que não pudesse vir!
_Não deixaria minha madrinha, sem o abraço costumeiro! – disse Mauro, beijando as mãos de Eularia.
A anciã abandonou o apoio dos netos e, de braço dado com Mauro, voltou ao seu lugar no palco, com largo sorriso na face.
Mauro, após colocar Eularia com todo cuidado, em sua cadeira, dirigiu-se aos presentes:
_Em homenagem a madrinha, eu e meus rapazes resolvemos dar um presente ao morro. Não foi comprado com dinheiro desonesto posso lhe garantir!
Neste momento, as portas do salão foram totalmente aberta entrou uma ambulância, equipada para funcionar como UTI móvel.
Nas portas, trazia uma inscrição:
“Ao povo, com o abraço de Eularia Maria da Conceição.”
_Esta ambulância, continuou Mauro _ Vem acompanhada de
um motorista enfermeiro e medico, que pessoalmente vou cobrir os custos até que a comunidade, com minha ajuda e de meus rapazes, consiga construir, em mutirão, o posto de saúde, no terreno que já comprei. ao lado da igreja. O terreno foi comprado e pago, e tem a escritura tirada em nome de Eularia Maria da Conceição, para que não fiquem dúvidas no que eu disse. Também já esta comprado e pago todo material necessário para a construção do posto de saúde.
Dizendo isso, Mauro Cara de Cavalo deu um beijo na testa da madrinha, e retirou-se com seus rapazes.
Seis meses depois , já com o posto de saúde e a ambulância em pleno funcionamento Mauro Cara de Cavalo tombava, num confronto com a policia militar.
Ao saber que Mauro falecera, Eularia comentou.
_Um bom menino... um homem de bem...
Após a missa de sétimo dia, que Eularia mandou rezar, em memória de Mauro, a mesma Eularia retirou o pano de inauguração de uma placa de bronze, no principal salão do posto de saúde, onde se lia:

“Por pior que se possa pensar que e um ser humano, há nele algo de digno, se houver em alguém dignidade em procurar!
Em honra de Mauro Cara de Cavalo

O PEQUENO MÁRIO

Mário tinha seis anos de idade.
Aparentada ter, de corpo, uns quatro e, de vivência ,uns dez, visto que vivia nas ruas, dormindo onde podia e comendo, quando lhe davam.
Seus pais, ele não sabia quem eram, pois nunca os conheceu.
Fora deixado, ainda de colo, num dos bancos da Praça da Sé, em São Paulo, e chegou aos seis anos graças a um grupo de garotos que o adotaram, ainda trocando fraudas.
A mãe, que conheceu e reconhece, é Julia, uma garota de dezesseis anos, que na época tinha dez, e cuidou dele como pode, roubando até, para que não lhe faltasse o leite.
Julia , hoje, não mais esta nas ruas, pois os homens da Febem a colocaram num hospital, pois Julia esta com uma doença grave que o pequeno Mário não sabe explicar direito.
“Cabeça de Prego” é quem cuida de Mário agora, e foi ele quem contou pró Mário sobre Julia.
Mário e os outros meninos vivem na praça, dormindo nos buracos do metro, pois e o único lugar quente que conhecem.
Vez ou outra, um dos garotos é pego pela policia, e fica fora das ruas pôr uns tempos, mas logo volta.
Só quem nunca volta é Julia.
De vez em quando, Mário chora, com saudades de Julia.
Mas chora baixinho, sem ninguém ver, pois o “Cabeça de Prego” não admite que Mário chore, pois diz que chorar e coisa pra mulher, e o Mário fica com vergonha.
Nas ruas, Mário já aprendeu muita coisa: já sabe amarrar os tênis, que ganhou do Juarez, pois não serviam mais pra ele; sabe fazer “cara de fome”, pra ganhar trocados das senhoras que passam na praça: sabe escolher o pão mais mole, dos que encontra no lixo do bar da esquina: sabe que tem que respeitar o padre da matriz, pois e ele quem da os presentes na época do Natal ;e os ovos de Páscoa, além de roupas e outras coisas, vez ou outra.
Outra coisa que a vida ensinou a Mário, foi evitar a policia , pois foi ela quem levou Julia, e o deixou só .
No correr dos anos, Mário conquistou alguns amigos .
Seu Onofre, dono da padaria, lhe garante o café da manhã, chova ou faca sol: o Melquito, dono do restaurante, prepara todos os dias o prato de Mário, e não e com restos não, pois Mário come numa mesinha, ao lado do pessoal da cozinha, com direito até a um copo de suco, que varia todos dias.
Mário tinha um cachorro, o “Felpudo”, mas o caminhão atropelou.
Quando o dia tá quente, Mário e seus amigos vão pra fonte e “caem n’água “, quando a policia não esta vendo.
Vez ou outra, Mário e a turma vão passear de metro, e é sempre divertido, pois Mário “faz de conta” que é tatu, cortando a terra e entrando nos buracos de concreto.
Talvez o dia mais triste da vida de Mário, foi quando o Souza, um menino da turma, com menos de dez anos, pegou carona na carroceira de um caminhão e acabou caindo, batendo a cabeça no asfalto, chegou morto ao hospital.
No Natal passado, Mário ganhou um pião de seu Onofre, com fieira e tudo.
Parece mentira, mas Mário conserva o presente como ganhou. Nunca rodou o pião.
Nem uma única vez.
Assim vive Mário, menino da Praça da Sé .

O MATUTO

(Em memória de Massilom Bueno)


O jovem nascera cuidando de plantação. Não sabia e não queria fazer outra coisa. Foi por causa disso, que havia se sujeitado a ser "alugado".
A única coisa que pediu, foi que o Coronel, dono da terra, lhe permitisse viver isolado, num barraco que ele mesmo levantou, no meio do matagal, a dez metros onde ficava a roça de cana-de-açúcar, que o Coronel encarregara-o de cuidar.
O combinado, era que em cada lote de tonelada de vareta caiana, que fosse colocado nos caminhões, o Coronel pagaria a ele, dez por cento do valor do carregamento, ao preço do dia.
O dono da terra, ao fechar o negócio, não achou que o pagamento ao peão, que trabalharia sozinho em grande extensão de terra, fosse um grande dinheiro.
Acontece, que ninguém conhecia o método de plantio e colheita do qual o matuto era conhecedor, e... não deu outra!
No final da safra, o pedaço de roça do matuto, apresentou quatro vezes mais peso em tonelada, do que qualquer outro pedaço de terra do velho Coronel, e este, rompendo o compromisso, negou-se a pagar contra-entrega.
O matuto foi à casa grande, e o dono da terra, no lugar de o pagar, não o recebeu, mandando seus capangas lhe darem uma boa surra.
Não contente com isto, remeteu ao pedaço de terra do matuto, meia dúzia de homens, que atearam fogo em seu barraco...
O matuto, após recuperar-se da surra, conseguiu emprestado de um amigo, uma espingardinha "pica-pau", e carregando-a com caquinhos de vidro, sorrateiramente chegou ao principal curral do fazendeiro, fez mira, e descarregou a "pica-pau" bem entre os olhos do touro reprodutor do Coronel, orgulho da fazenda.
Não contente com tal façanha, o matuto, munido de uma caixa de fósforos e um galão de querosene, ateou fogo no canavial!
Como era época de "noroeste", em menos de duas horas a fazenda inteira era uma fogueira só!
No outro dia, pela manhã, enquanto chegava à cidade a notícia do Coronel arruinado, que cometera suicídio, entrava no buteco do Oscarim, um matuto, com uma espingardinha "pica-pau" descarregada ao ombro; um cigarro apagado à boca e uma caixa de fósforos vazia no bolso, pedindo ao balconista, um fósforo, para acender o cigarro.
Ao escutar o comentário sobre o suicídio do Coronel, sentou-se num banquinho existente à porta do buteco, puxou longa tragada do cigarro de palha, e disse:
_"Grande perda! Honesto que nem aquele, nunca mais encontrarei! Mais ainda bem que consegui cobrar dele, tudo o que ele me devia!

O HOMEM TAVA OCUPADO

_Eu quero falar com o senhor prefeito! – dizia o homem bem vestido, à secretaria do burgomestre.
_O senhor marcou audiência prá hoje? – perguntou a experiente funcionaria publica, abrindo a enorme agenda.
_Não houve tempo para isso, senhora! Apenas troquei a camisa e vesti o paletó!
_Audiência hoje, sem hora marcada impossível!
_Mas e uma questão fundamental! É necessário que eu fale com o prefeito agora!
_Hoje e impossível! Sr. Prefeito embarca daqui a pouco para Brasília! Tem audiência marcada! É impossível!

Duas horas depois, na cidade vizinha , um majestoso enterro tinha inicio, saindo do hospital modelo em direção ao cemitério local.
À porta do cemitério, dois senhores, trajando preto completo, conversavam.
_Então ? o homem vem?
_Não sei ainda... mandei chamar1
_Eu não entendo o que esta acontecendo...
_Nem eu, que sou mais velho que você!
_Ele não apareceu no hospital nenhum vez?
_Só no inicio da semana passada... ficou dez minutos e saiu... alegou que tinha compromissos...
_Isso não esta correto, você não acha?
_Nem correto... nem ético...
No meio da conversa chegou outro homem um pouco mais moço... o mais velho lhe perguntou.
_Então? Falou com o Home? _Não, pai .... a secretaria disse que ele não podia atender!
_Você insistiu, filho?
_Quase invadi o gabinete?
As cinco da tarde, o cortejo fúnebre saia do necrotério...
As cinco e seis da tarde, um prefeito embarcava num avião de carreira, na cidade vizinha....
O filho, famoso, ia ao planalto...
A Mãe ,orgulhosa, ia para o alto...
Coisas da política!

O FUNCIONÁRIO PÚBLICO


O homem fazia, há quarenta anos, a mesma coisa: chegava na repartição às sete e cinquenta da manhã; batia o ponto; ia para a sua sala; sentava em sua cadeira, frente à mesa; pegava o jornal do dia e o lia, do começo ao fim...
Em seguida, lá pelas oito e trinta da manhã, abria o grande armário, retirando de lá um calhamaço de papel, o qual colocava sobre a mesa...
O selecionava, de acordo com os assuntos.
Separava meia dúzia de carimbos, os molhava na almofada de tinta azul, e começava...
Carimbo na almofada...Carimbo no papel...
Carimbo na almofada...Carimbo no papel...
Isto ia até ao meio dia, quando saía para o almoço, engolido meio às pressas, pois às treze horas, lá estava ele novamente, sentado em seu lugar...
Carimbo na almofada... Carimbo no papel...
Dez para as cinco da tarde, juntava ele os papéis ainda por carimbar, e os guardava no antigo armário...
Os devidamente carimbados, iam para a mesa do Chefe, que mecanicamente os assinaria, mas somente no dia seguinte, pois o expediente da Repartição, estava terminado...
Eram dezessete horas em ponto...
Após o "até amanhã" aos companheiros, voltava o velho funcionário para casa...
No outro dia, às sete e cinquenta da manhã, começava tudo de novo...Quarenta anos...
Um belo dia, aposentaram-no por serviços prestados ao Estado, com direito a salário integral e um ótimo relógio de ouro massiço!
Passaram-se seis meses...
Certo dia, lá pelas quatro da tarde, o telefone da repartição avisou:
_"... O velho servidor havia falecido!"
No enterro, onde compareceram todos os seus antigos amigos, o médico da família comentou:
_"Morreu de Tédio!"

O CASO DA ONÇA

Quando Juca entrou no bar, trazendo pela coleira uma onça pintada, foi um reboliço só, pois ninguém esperava aquilo, ainda mais vindo de Juca, um pacato lavrador, que morria de medo quando os amigos contavam histórias de animais.
Mas era o Juca, o medroso do Juca, que trazia a onça na coleira pra dentro do bar, sem nenhuma cerimonia e sem aviso nenhum, quase matando o velho Onofre, dono do boteco e cardíaco. de susto.
Tudo começou na semana passada, quando o Januário, filho de seu Onofre, resolveu dar uma de valente, e desafiou o Juca para um duelo de coragem.
Venceria , quem trouxesse o bicho mais perigoso ate o boteco, no prazo de uma semana.
Na Sexta foi a vez de Januário, que trouxe um jacaré de dois metros, dentro de uma jaula de ferro.
O Pessoal cumprimentou Januário, tomaram cerveja em comemoração, mas susto mesmo, ninguém tomou com o jacaré.
O Juca ia deixar as coisas acabarem assim, mas o Januário levado pelos comentários sobre o medo do Juca, amolou demais o coitado do adversário, chegando mesmo a chama-lo de “boiola“ e outros nomes feios.
Juca então resolveu trazer a onça, e acabou com a prosa do Januário, que tremeu feito vara verde na porta do banheiro do boteco, pedindo copo d’água, pra acalmar o medo.
Duas horas depois, as coisas já estavam mais calmas na cidade, e o Juca pode levar embora a onça, que havia sido alugada de um circo, na cidade vizinha.
Alem de ser uma onça domesticada, acostumada ao publico, Juca ainda havia tomado a precaução de dar uma injeção de tranqüilizante no bicho .
Vê lá se Juca era besta de correr riscos!

O CARROCEL

O carrossel girava sem parar e, montados nos cavalinhos de madeira, os meninos da favela se divertiam, fazendo de conta que eram mocinhos e bandidos, em perseguições intermináveis.
Havia três dias que o carrossel ali se instalava, no espaço entre o Auto posto do Mathias e o bar de seu Alfredo, local amplo, usado para o futebol diário daqueles que na favela viviam, sem diversão e sem luxo.
Fora obra de Mathias, a vinda do Carrossel, pois que o comprara já usado, de um parque de diversão que entrou em falências.
Como não havia perspectiva de aumento do Posto de Gasolina, pelo menos por enquanto, Mathias resolveu usar o terreno para o divertir dos pequenos, e assim a favela ganhou seu carrossel.
Tinha ele dez cavalinhos de madeira, em cores diversas, já começando a descascar a tinta.
Entre um cavalinho e outro, um pequeno banquinho, para as crianças menores.
Funcionava por intermédio de um amontoado de engrenagens, movidas por um motor elétrico, ligado por fios à tomada central do Auto Posto do Mathias.
Funcionou o Carrossel por quatro dias, sem problemas, levando alegria e diversão aqueles garotos sofridos e sem futuro.
Na manhã do quarto dia, um curto-circuito na instalação do Posto, provocou pequeno incêndio. Por sorte ninguém saiu ferido, e o fogo não atingiu a reserva de combustível, apenas danificou por completo a rede elétrica.
Sem a rede elétrica, além de não funcionar as bombas do Posto, não funcionava também o Carrossel, e isso deixou as crianças decepcionadas.
Mathias saiu, em busca de um eletricista e as crianças por sua vez, começaram a correr de porta em porta, procurando ajuda para que o Carrossel voltasse a girar.
Em pouco tempo a favela inteira estava envolvida.
A parte elétrica, foi substituída por dois motores usados de geladeira, os fios foram trocados por fiação nova, doada por José da Ajuda, dono da loja do Sopé do Morro, e já que era prá ajuda, os filhos da Maria do Morro e pintores de parede dos bons, se prontificaram a pintar os cavalinhos, já que estes já se descascaram.
Juntaram com os amigos, varias latas de tintas à óleo, de diversas cores, e se puseram na pintura, enquanto a parte elétrica era consertada.
Quando o Mathias chegou, ao final da tarde, com um eletricista, o Carrossel já estava todo pintado com cores brilhantes e o Auto posto também já funcionava a pleno vapor, pois as crianças também haviam conseguido uma caixa nova de força, presente de seu Melquito, dono da loja de materiais para a construção, que não só deu a caixa de força, como também mandou trocar toda a fiação do Auto Posto, coisa que o Mathias ameaçava fazer a anos.
Mathias, ao ver o Carrossel todo pintado de novo, e funcionando, e o Posto atendendo a freguesia sem problemas, sentou-se em um pequeno banco de madeira e deixou duas lágrimas banharem seu rosto.
Vendo-o emocionado, as crianças o rodearam, e um menino, o mais pequeno deles, disse ao já idoso comerciante:
_ Não chore, seu Mathias, pois nosso Carrossel está lindo de novo, e nós o amamos muito !
Foi ai que Mathias chorou de verdade, pois compreendeu que aquelas crianças, embora na humildade dos pobres, souberam reconhecer o presente do velho aos seus iguais, e tiveram fibra, para fazer a comunidade entender.
O Carrossel ainda lá está, girando como sempre, com a comunidade preservando-o.
Os filhos de Filó, dão mão de tinta nos cavalinhos periodicamente... Mathias já faleceu, mas em testamento, doou o terreno do Carrossel à comunidade, que o mantém como tributo ao seu benfeitor.

O BAÚ DE SEU PADRE

A igreja matriz da pequena cidadezinha estava lotada, pois o vigário pedira a presença da comunidade na missa das dez daquele domingo, e a religiosidade do povo se fez presente, principalmente dos paroquianos mais humildes.
Na comunhão, padre falou aos fiéis sobre o sacrifício do cristo e da essência do significado do ato da comunhão, que era o simbolizo da união dos homens com a fé do cristo.
Da Omelia, entretanto, pouco falou o vigário sobre religião, pois o assunto era reforma da matriz, que estava com o telhado quase despencando.
Pediu o padre ajuda a seus fiéis e logo depois foi feita a coleta dos donativos
Ao meio da coleta, entretanto, forte chuva teve inicio na cidade, com um vento que chegava a doer.
Quando a chuva cessou, e o vento se tornou apenas uma brisa suave, a missa já havia terminado.
Meia hora depois ,o padre recolhia-as à sacristia, após despedir-se dos fiéis à porta da igreja.
Sob à mesa, encontrou ele um pequeno baú, contendo dobrões de ouro.
Junto ao baú ,uma carta:
_“Use este ouro para construir uma igreja nova, ou reformar esta. não peça a quem não tem nada para dar. Espere o poder divino, pois ele tarda, mas não falha”
A carta não trazia assinatura.
O baú trazia, na tampa, gravado a fogo, à marca do cristianismo.
Em cada dobrão de ouro, gravado estava o peixe, como no baú.
O padre, assustado comunicou o fato ao bispo, e este relatou o fato a Roma .
A igreja foi reformada, e o baú, guardado no cofre da Sacristia.
O baú continha cento e oitenta dobrões de ouro.O interessante e que lá ainda estão os cento e oitenta dobrões de ouro, pois embora o padre os tenha vendido para a reforma da igreja, dois dias depois eles apareceram no baú, sem ninguém os recolocarem lá, pois estavam no cofre da sacristia.
Coisas da Fé, presume-se...

O ARMAZÉM

O armazém do Custodio era muito mais do que um simples armazém de secos e molhados, como podia parecer para quem via o armazém, pois aquele local era o centro de tudo, naquela cidade, que nem no mapa do estado aparecia.
Ali, se resolvia tudo, em nome da comunidade e se ditava as regras de conduta de conduta até da própria vida da população.
Foi no armazém do Custodio, que a oposição conseguiu encontrar um nome , para ganhar as ultimas eleições gerais; foi ali também que lançou-se o nome do Justino, para presidente da Associação Comercial, além de sair dali o nome do presidente do Clube Campestre, que de campestre não tem nada, pois fica na parte central da cidade mas, com fala o Sebastião, sacristão das matriz, o nome não é coisa importante desde que o tal clube sirva a população, e é o que acontece; pois é no “campestre” que nasce todas as ajudas comunitárias, dirigidas à população carente.
O Armazém do Custodio é, sem duvida, o coração da cidade, pois é daquelas três mesinhas de armar, que o Custodio coloca frente ao armazém, invadindo a calçada, que sentam para o aperitivos “notáveis” da cidade, pois a cidade é do povo, mas quem manda realmente, senta-se naquelas mesas, com toda certeza.
Foi ali que nasceu a candidatura de “Chico Filo”, para deputado estadual.
O coitado do Chico só ficou sabendo dois dias depois, quando invadiram seu sitio, ao pé do morro, pra lhe informar que ele, o Chico, era o candidato da cidade.
O Chico perdeu a eleição, mas ganhou um bocado de amigos, que na eleição pra prefeito ajudaram a oposição a ganhar a prefeitura e doze cadeiras na câmara municipal.
Chico não foi o candidato, pois esta honra ficou para o Dr. Pimenta, mas o Chico ajudou muito, tanto que Dr. Pimenta arrumou um emprego para o filho do Chico que agora é continuo da prefeitura.
O Chico fala que o filho ganhava mais no escritório de despachante, que trabalhava a mais de cinco anos, quando o Pimenta o levou para a prefeitura, mas agora é emprego fixo e isso, nos dias de hoje, vale alguma coisa.
O engraçado é que o Chico, depois da eleição do Pimenta, pouco aparece no armazém e, quando o faz, nem chega a esquentar a cadeira, muito diferente do que acontecia na época da eleição, quando o Chico era figura constante e obrigatória.
Padre Clementino é quem deve estar com a razão, quando diz que política é a arte de plantar e colher depressa pois, quem espera, perde a safra.
_Chico plantou, e bem plantado, mas na hora de colher, esperou demais, e ai, o Pimenta aproveitou!
Disse o padre certa vez, numa conversa na casa de dona Marcolina, no aniversario de casamento da bondosa senhora e seu Lindouro, líder da situação, quando o nome do Chico foi colocado numa conversa sobre o armazém.
Carmelita, mulher do Custodio disse que o armazém nunca esteve tão movimentado como no dia que a “casa amarela” foi fechada pela policia e a Maria Pouca Roupa resolveu colocar a boca no trombone, e escolheu o armazém, para palco de seu discurso.
O que Maria disse de verdades naquele dia, deixou muita gente de cabelo branco e, menos de duas horas depois o Dr. Fugencio relaxava a ordem de fechar a “casa amarela”.
Nunca mais a policia chegou perto da casa de Maria Pouca Roupa, e Custódio nunca tremeu tanto como naquele dia, pois a Maria fez uma confusão tão grande no armazém, que em certo momento, não se sabia mais quem era da situação e quem era da oposição, pois Maria lavou a roupa suja, sem se preocupar, toda misturada, e foi difícil secar peça por peça.
Foi no armazém também que o Américo se escondeu, quando Melquito o pegou nu, na cama de casal, com a Ernestina e o jogou pela janela do segundo andar do sobrado, nu como havia nascido.
De certa feita o Paiva, dono do cartório, resolveu contar nas paginas do “diário”, as histórias do armazém, mas a coisa não durou muito, pois depois que o jornal publicou a primeira história, o Paiva apareceu com escoriações pela corpo, e desistiu da idéia.
No carnaval passado quase que acontece o fim do armazém do Custodio, pois um grupo de jovem, ligados à situação, que agora é oposição ao Pimenta, jogou uma bomba caseira no armazém bem quando tava todo mundo reunido para o papo diário.
Foi uma correria dos diabos!
Acabou levando dois para a farmácia do Juares, com escoriações pelo corpo e com um talho no olho do filho da Cremilda, que não tinha nada que ver com a história, apenas tinha ido buscar dois quilos de feijão mulatinho pra mãe e acabou quase cego do olho esquerdo.
Cremilda saiu em defesa do filho e por pouco o armazém do Custodio não é fechado permanentemente, pois a Cremilda, viúva do finado Jetulino, que antes de morrer havia sido prefeito por três vezes, fez o maior fuzuê com o acidente do filho, responsabilizando o Custodio pelo ocorrido.
A coisa foi tão feia, que até processo na justiça rendeu, e Custodio se viu em papos de aranha pra pagar a tal indenização, que o juiz determinou ser paga ao menor, que era arrimo de família”.
Cremilda, quando foi procurada pelo seu vigário, a pedido do Custodio, para um acordo, foi taxativa:
_Não tem acordo! Tá na hora destes cabras descobrirem que existe lei, e que é pra ser respeitada!
Foi assim que o Custodio quase perde o armazém.
O teria perdido se Dr. Pimenta não lhe adiantasse algum.

NUM HOUVE TEMPO

Maria era uma humilde do campo, que havia saído do sitio de seus pais com o casamento, e viera para a casa de seu marido, na cidade.
Casinha pobre, construída pelas próprias mãos, com três cômodos de alvenaria, com pintura de azul claro por fora, um amarelo indefinido por branco, com piso de vermelhão, que Maria acostumou-se a manter encerado. O casal, sem filhos, viveu naquela casinha, ao pé do morro, mais de dez felizes anos.
Cremente, marido de Maria, era pedreiro por conta, trabalhando somente por empreitada mesmo assim, nada faltava ao casal, pois Maria lavava roupa para fora e contratada foi para lavar roupas de um motel, que ficava na estrada.
O casal não possuía parentes, a não ser um ao outro.
Certo dia, com uma milhar, Cremente ganhou no bicho.
Foi uma festa, com bolo de fubá e refrigerante de garapa!
Naquela mesma semana, entrou na pequena casinha uma geladeira nova e uma TV à cores, coisas que Maria “namorava” a muitos anos.
_Viver só de juros, é pecado!
Diria Maria, quando Cremente lhe contou que o gerente do banco, onde aplicou o dinheiro, avisou-lhe que o juro mensal da aplicação, dava mais do que o dobro do que eles ganhavam por mês, trabalhando de sol à sol.
Em poucos meses, só com os juros, conseguiam o suficiente para comprarem um bom terreno na beirada da estrada.
Alguns meses depois, Cremente começou a construção da nova casa, feita com bom material e no capricho!
A nova casa ficava frente a curva da estrada, no final de uma ladeira.
Possuía um bom quintal na parte, onde Maria montada uma pequena horta, de onde tirava as verduras para o dia à dia.
Nada faltava ao casal, pois o capital estava bem aplicado e os juros, lhes dava uma boa renda.
Num sábado pela manhã, Cremente resolveu dar uma boa limpeza na horta e Maria resolveu ajuda-lo pois gostavam de ter longas conversas.
No alto da ladeira, antes da perigosa curva, uma carreta com grande peso, perdeu os freios.
A carreta, desgovernada, não pode fazer a curva....
Não houve como evitar....
O quintal da frente da bela casinha foi destruído.....
Não houve tempo para fugas......
Não houve tempo para nada.......

NA RUA DA FORCA

O bairro da forca ficava distante...
_Longe pacas!
Como dizia Clementino, quando perdia o ônibus e tinha que voltar do serviço “solando asfalto “
La nunca existiu calçamento oficial, pois nem o bairro tinha oficialidade, visto que era um amontoado de casebres, feitos em mutirão, em um terreno de invasão, que o proprietário a tempos tenta retomar.
Clementino, antes de morar no bairro da forca, vivia mudando de ponte em ponte, com a mulher e os meninos, visto que era um dos milhares de “sem teto”, que enfeitam as cidades grandes.
Diz Clementino que sua vinda para o bairro da forca foi comum milagre, pois ao meio dia estava sendo despachado da ponte e, na mesma noite, conseguira dar à família um teto, que já era seu lar a uns bons quatro anos.
_Pra quem quer teto, para ter pão, mutirão é a solução!
Não cansa de repetir o bom Clementino, quando tem oportunidade.
Nasceram ele, a mulher Rosa, e os três meninos, na caatinga do nordeste da Bahia.
Vieram para o sul, procurando melhores dias.
Clementino, embora não escreva uma única palavra, é pedreiro de mão cheia, e não lhe falta vaga, nas construções da cidade grande mas, sem estudo, ganha salário mínimo. Daí, como vai pagar aluguel?
Rosa, para ajudar o marido, “pilota tanque” para quem pode pagar, e levanta outro salário, quando muito!
Com cinco bocas para sustentar, sobra pouco para o aluguel e Clementino nada mais pode fazer, a não ser procurar qualquer abrigo por família.
Primeiro, foram as pontes e viadutos.....
Agora, o barraco de zinco...
Quando subia a rua de casa, que não e nem uma rua, mas uma picada, cercada de matagal e pequenos casebres de madeirite, com coberturas de zinco com luzes de lampião à querosene, como a embelezar a escuridão, Clementino deparou com algo estranho: um papelzinho dourado, com umas listas e uns números, que Clementino não sabia ler, não sabia dizer também o que era, mas abaixou-se e pegou o papel, colocando-o no bolso da camisa.
Não se podia classificar Clementino de ignorante, pois embora analfabeto, tinha lá seus dotes de esperteza. Guardou, portanto, com muito cuidado, o papelote colorido.
Quando o despertador avisou que eram cinco da manhã, Clementino já levantou pronto, pois dormira vestido.
Apalpando o bolso da camisa, constatou que o pequeno papelote ainda estava lá.
_Hoje descubro o que é isso!
Pensou ele com seus botões, enquanto requentava o café, que Rosa fizera na noite anterior, e dele tomava um gole.
Fazia já algum tempo que o tal do sindicato tinha conquistado vale refeição, e isso tinha conseguido evitar que Rosa tivesse que levantar as três da manhã, para fazer a bóia do marido, como antigamente.
Clementino já conseguia dar a esposa algum sossego, e isso lhe fazia bem.
Após o beijo costumeiro na esposa e nos filhos, saiu o pai de família para o escuridão, em busca do sustento.
À hora do almoço, passou ele pôr uma casa lotérica.
Na porta , viu ele alguns bilhetes em exposição.
Será que aquilo é um tal destes bilhetes? Que o Joaquim da Carminha vive comprando ?Como será que funciona este treco?
Pensou Clementino, enquanto entrava na casa lotérica e pedia explicações para a funcionaria.
Após as explicações, Clementino enfiou a mão no bolso da camisa e, com muita dificuldade, foi conferir o tal papelote.
Naquela tarde, a casa 98, onde morava Rosa, os meninos e o pedreiro Clementino foi esvaziada.
A família voltou para o sertão da Bahia, onde Clementino montou casa, um pequeno bar com petiscos e colocou os meninos em boa escola.
Rosa nunca mais pilotou tanque, pois o bilhete, que Clementino encontrou na rua da forca, estava premiado pela loteria federal.

MACHADO

O morro do pepino já havia passado por muitas situações, e a comunidade já acostumara-se a encontrar corpos sem vida, em terrenos vazios.
Já estavam acostumados a enfrentar o medo de balas perdidas, quando a policia resolvia trabalhar um pouco, e invadia o barraco do Machado, procurando dar a voz de prisão ao coitado, só por causa de seu meio de sobrevivência: vender um pó branco, parecendo talco, para uns bacanas que, vez ou outra, subiam o morro.
A policia não gostava do Machado, mas ele era querido e respeitado no morro do pepino, pois não havia sido o Machado que conseguiu o dinheiro para enterrar dona Gestrudes, que resolveu morrer logo na hora que o filho, desempregado, estava sem nenhum no bolso?
Foi o Machado quem providenciou tudo, e não esqueceu nem da pinga e o café para o velório.
Foi ele também quem ajudou Maria Dorotéia, quando o marido dela, pai de dez filhos, fugiu com a loira falsa da Clara Maria, deixando a pobre da Dorotéia sem nenhum para cuidar dos filhos.
Machado, ao saber da situação, deu ordem ao Onofre, dono do armazém, para que não faltasse nada na dispensa de Dorotéia. Teve uma conversinha ao “pé do ouvido” com o dono do barraco, onde vivia a família, e nunca mais Dorotéia teve que pagar aluguel.
É certo que se comenta que o Machado, vez ou outra, dorme no barraco de Dorotéia, mas é apenas um boato sem fundamento, obra de quem não tem o que fazer.
Machado é querido por todos1
Nasceu, ali no morro mesmo, na casa do velho Machadão, que tinha já cinco filhos, quando sua mulher pariu Machado.
Quando o menino tinha lá seus doze anos, Machadão teve um enfarte, ao ver a mulher aos beijos e abraços com um tal de Olavo.
Machadão foi desta pra melhor, deixando seis filhos órfãos .
A mãe, ficou sem amante também, pois o pequeno Machado, dois dias depois da morte do pai, pegou o tal do Olavo distraído, numa das subidas do morro, e abriu-lhe a cabeça, com o machado de cortar lenha.
A mulher, ao ver o amante morto, enlouqueceu, sendo internada e vindo a falecer, anos depois.
O pequeno Machado não quis ir, como os irmãos, para a casa de parentes e a comunidade do morro o adotou. Passou a viver na casa do seu Amarildo; na casa do Nicanor ou na pensão de dona Euclastia.
Quando Machado estava com seus quinze anos, Nicanor foi morto por um PM bêbado.
Machado sumiu, após o enterro do amigo, e só reapareceu dois meses depois.
O morro ficou sabendo, por comentários, que Machado mandou o PM bêbado pra “cidade dos pés juntos”, em frente ao batalhão da PM, e o fez com o revolver do defunto.
Daquele dia em diante, Machado não teve mais sossego, pois vez por outra a Policia Militar sobe o morro, tentando colocar-lhe as mãos.
A comunidade, ao seu modo, o protege como pode, e Machado retribui a proteção, pois no morro do pepino não há roubo.
O ultimo morador do morro que foi roubado, foi o Zé Padeiro, que teve um encontro desagradável com um delinqüente armado, na subida do morro, perdendo no ato o relógio e a carteira, com a féria da padaria.
Machado ficou sabendo do caso pela boca da vitima, e ficou vermelho que nem pimentão maduro:
Vinte e quatro horas depois, batia Machado à porta de Zé Padeiro. Trazia, em uma das mãos, o relógio e a féria roubada.
Na outra mão, Machado trazia um presente ao amigo: as orelhas do delinqüente!
Isso aconteceu a uns três anos atras.
De lá pra ca, o morro do pepino é lugar seguro, tanto que os barracos dormem de janelas abertas e os pais de família tem a certeza que o pouco que têm não lhes será roubado, pois Machado e à lei no morro do pepino.
Machado também pensa nos pequenos, e arrumou terreno, onde levantou uma creche, com lugar para mais de cinqüenta crianças, que lá ficam, enquanto as mães trabalham fora.
A capela de padre Justino, em um vendaval, perdeu o telhado.
Machado, três dias depois, já estava na igreja, dando inicio as obras de reforma da cobertura e pintura da capela sem custo algum nem para a igreja, muito menos para a comunidade.
Padre Justino em agradecimento, mandou fazer uma placa de madeira entalhada e a colocou ao lado direito do altar, próximo à porta da sacristia, onde se lê!

“Com Machado no morro do pepino, governo não é necessário e a policia, só atrapalha”

A placa ainda esta lá, pra quem quiser confirmar.

INGRESSO CARO DEMAIS

O grande artista iria se apresentar na cidade, e aquele era o ultimo dia para a compra dos ingressos pois, para comprá-lo na porta, com certeza o preço dobraria, na mão dos cambistas.
Filomena e Onofre eram classe média.
Ele, empregado no escritório da usina açucareira, a mais de dez anos, recebia mensalmente um salário razoável, que dava ao casal certa tranqüilidade, permitindo moradia digna e mesa farta.
Filomena, desde mocinha, era balconista de confiança da única loja de grande porte da cidade, e lá já estava a muitos anos, com um salário compatível com a responsabilidade, e justo era querer estar entre os poucos casais que iriam prestigiar o renomeado artista, cujo ingresso estava na faixa de dois salários mínimos por pessoa.
Onofre, ao saber quanto desembolsaria pelos ingressos, achou um absurdo cobrarem tanto por uma única apresentação, mas como Filomena queria ir, sacou do talão de cheques e pagou os quatro salários mínimos, pois raramente Filomena lhe pedia algo.
Naquela tarde, horas antes da “grande noite”, Filomena se produziu para o evento, com unhas feitas no salão e cabelo escovado pelo mesmo profissional que cuidava do cabelo da esposa do prefeito, que cobrava os “olhos da cara”, por uma simples tesourada, mas valia a pena.
Na hora marcada, lá estava o casal, em meio à elite da cidade, impecáveis no trajar, ostentando nas mãos os ingressos, comprados a um preço absurdo.
Sentados em seus lugares, aplaudiram até a ultima canção do renomeado artista.
Enquanto isso, na casa do casal, o telefone não parava de tocar!
Lá pelas duas da manhã, voltou o casal à residência logo depois tocava o telefone.
Era Benjamim, irmão de Onofre, avisando da morte do pai, acontecia à meia-noite.
Onofre voltou ao carro e, minutos depois, estavam na casa do pai, na cidade vizinha.
Ao abraçar a mãe, Onofre escutou:
_Filho! Teu pai te chamou das nove a meia-noite! Estávamos te telefonando desde as oito! Onde estava?
Onofre não respondeu
Nunca mais o casal compareceu a um espetáculo qualquer!

INDUGÊNCIAS

Nos antigamente, como hoje, os dogmas e ensinamentos da igreja, tem poder inacreditável na mentalidade dos humildes.
Em certas cidades de Minas Gerais, este poder ganha tal força, que as pessoas levam cada palavras ditas como verdade e a igreja, por sua vez, tira seu proveito.
Assim foi o que aconteceu, quando um punhado de freiras andou pela zona da mata mineira, oferecendo indulgências ao povo.
Segundo o que as freiras atestavam, quem adquirisse as tais indulgências, tinham o perdão dos pecados, cada indulgência, dava perdão a um pecado, no purgatório.
Uma das filhas de Marta de uma cidadezinha próxima à Viçosa, para facilitar a vida ou a morte, comprou um punhado das tais das indulgências e as colocou dentro de um saquinho de pano, ao fundo do guarda-roupa e, com a vida, esqueceu das tais indulgências.
Trinta e poucos anos depois, vítima de velhice múltipla, a Filha de Maria, após quatro anos de leito, veio a falecer, comovendo toda a família.
Aconteceu o que se esperava: ninguém se lembrou ou encontrou o saquinho de indulgências.
Após a missa de mês, numa reunião do centro espirita da cidade, lá estava sua neta mais nova, kardecista de carteirinha, colocando o nome da avô na mesa, para a esperada ajuda espiritual.
Em dado momento da reunião, a médium encarregada de transcrever mensagens, psicografa uma mensagem de São Pedro, dirigida a neta da anciã, reclamando da falecida.
Segundo São Pedro, a anciã estava comprando a maior confusão na porta do céu, a mais de um mês, se negando a pagar seus pecados, como manda a lei do criador pois, segundo a anciã, já estava com todos os pecados pagos, pois possuía em seu poder, indulgências suficientes para cobrir seus pecados, e não arredava o pé da porta do céu, ate que São Pedro aceitasse as indulgências, como pagamento.
São Pedro resolveu aceitar a palavra da idosa, mas avisava que não aceitaria a palavra de ninguém, a não ser que lhe apresentassem as tais das indulgências, à porta do céu, do contrario era purgatório sem desculpas.
Daquela dada em diante, alem de flores, muitos caixões dos moradores da cidadezinha, levava um punhado de papelotes, devidamente assinados pelo sacerdote da matriz.
Coisas que acontecem nas Minas Gerais.

HOMEM DE LAMPIÃO

Já fazia mais tempo do que a memória podia lembrar que o sol estorricava aquele pedaço do chão.
O capim, outrora abundante, hoje era apenas um amontoado de bolos de fios amarelinhos, que a brisa fazia dançar no descampado , sem destino certo.
As árvores, poucas ainda em pé, eram apenas um amontoado de gravetos, ligados entre si a um tronco sem vida .
Carcaças de animais, enfeitavam o que outrora havia sido pasto aqueles mesmos animais.
Quando a noite caia, o mormaço transformava-se numa brisa gelada que doía os ossos do mais forte dos homens.
No meio de tal “fim do mundo”, só os bravos conseguiam sobreviver.
Bravos como João Baldoino, que a uns bons vinte anos morava naquele local, em uma choupana de um único cômodo, onde procurava abrigo e isolamento, que lhe permitisse dar asas as suas recordações, que o faziam voltar ao tempo de seu ontem, quando tinha o mundo no seu horizonte e ninguém à ditar-lhe regras de conduta.
O tempo da recordação era do cansaço, onde o homem podia ser livre, ser macho, ser conquistador....
Tempo em que João Baldoino atravessava as planícies, tendo como companhia seu paralelo ao ombro, a garrucha na cintura e o facão, pendurado na bainha de couro cru.
João Baldoino era homem de Virgulino Ferreira, aquele a quem apelidaram de “lampião” e deram o título de “Rei do Cangaço”.
Hoje, no entanto o tempo era outro......
O cangaço já tivera seu fim.......
Iniciara seu fim no ataque da volante ao bando de lampião, onde foram para a tal da “cidade dos pés juntos” Virgulino, Maria Bonita e um bom punhado de valentes.
João Baldoino estava lá .
Quando a coisa chegou ao fim, Baldoino tinha um bala ao ombro, um corte profundo no braço esquerdo e uma raspança de chumbo na cabeça.
Os homens da volante, o pensando morto, deixaram-no ao deleite dos abrutes.
Quando voltou a si, Baldoino estava só......
Horrorizou-se com o que viu!
Viu corpos e mais corpos de companheiros espalhados, com sangue a manchas no solo do sertão como tinta.
Os homens da volante, quando Baldoino acordou, ainda cortavam as cabeças dos mortos!
Baldoino viu o volante cortar a cabeça de Maria Bonita e desesperou-se com o horror daquela cena!
Percebeu que logo seria a sua vez e, ao descobri-lo vivo, testemunha da barbaridade que faziam pôr certo os volantes o matariam.
Quase sem poder mover-se, arrastou-se para um local seguro, longe dos soldados, e esperou.
A noite chegou e, com ela, partiu a volante.
João Baldoino, enlouquecido pela dor, adormeceu.
Ao acordar, estava na casa grande do coronel Joaquim Lourenço, amigo de longa data do compadre Virgulino.O coronel lhe deu abrigo e trabalho, e hoje Baldoino vive do recordar, pois só lhe resta a recordação dos bons tempos, quando macho era macho, liberdade tinha preço e o paralelo, ditava a força do sertão.

CANGRENA

Infelizmente era verdade: Orlando Bola Sete estava morto, e ninguém podia fazer nada, a não ser rezar um pouco e levantar um brinde ao velho amigo, que se não vivera como um homem de bem, morrera como um macho!
A história da morte do Orlando, tem que começar a ser contada uns vinte anos antes, senão, quem a escuta, sem saber o começo, não entende nada!
Orlando veio ao mundo numa sexta-feira da Paixão, enquanto o Padre da Matriz, fazia uma prece bonita sobre a morte do homem de Nazaré...
Mas não terminou a dita prece, pois teve que transformar a Sacristia em sala de parto, visto que a negra Sebastiana, resolveu dar a luz ali mesmo, no meio da missa, tendo o Padre, como aparador do rebento.
Ao apará-lo, para que não batesse a moleira no chão da Sacristia, o Padre fez a única besteira, que teve coragem de confessar em toda a sua vida: salvou Orlando Bola Sete de não chegar a ser nem bola, quanto mais um número tão alto!
Após tomar a bundinha negra do rebento, dois sonoros tapas, que ecoaram por toda a nave da Matriz, Bola Sete colocou a boca no trombone, e não fechou mais a "dita cuja"!
Eu já lhes contei que o Padre se arrependeu da besteira que fez, salvando o Bola, mas Seu Vigário, estava num daqueles dias em que levantou-se "inspirado para fazer burradas", e resolveu dar um presente para o pequeno Bola, que naquela época, não estava com o número tão alto como conseguiu alcançar com o tempo, mas isto não tem nada a ver com a história.
O que tem a ver com a história, é que o Seu Vigário, não se sabe ainda porque cargas d'água, resolveu "fechar o corpo" do garoto, e para mal dos seus pecados, o fez com água-benta!
Quando completou doze anos, brincando no bambual, uma cobra Jararaca, deu uma mordida na perna do filho de Sebastiana. Nêgo Orlando, apelido que já ganhara, entrou em febre de quarenta graus por três dias!
Nem Dona Joaquina, Mãe de Santo das melhores, filha de Oxum, não dava nada por sua vida!
No começo da noite do terceiro dia, Orlando sentou-se na cama, disse que estava com fome, e raspou um prato fundo de feijão com farinha de mandioca!
Com dezoito anos, entrou numa briga com João Unha-de-Fome!
Foi uma confusão que durou três horas, de onde Bola Sete saiu com um punhal gravado ao peito e o João, com caixão, encomendado pela Promoção Social...
Passou ele oito dias, entre a vida e a morte, na cama de casal de sua mãe, que rezava vinte e quatro horas por dia...
Ao fim do oitavo dia, Bola Sete abriu os olhos, pegou o cabo do punhal e o arrancou do próprio peito... O corte fechou em duas semanas!
Na semana passada, bêbado de cair, Bola Sete teve uma discussão com o Seu Vigário, por causa de "Maria Perna Torta", prostituta das rameiras, que o Senhor Vigário, resolveu não permitir que entrasse na Igreja para a reza das sete, vestindo aquela sua famosa saia, que os meninos do Colégio já havia apelidado de "Abajur de Nádegas", porque a professora disse que "bunda" era palavrão!
Nêgo Orlando, com a "cara cheia", resolveu defender a rapariga, e chamou Seu Vigário de vários e sonoros palavrões cabeludos, inclusive ofendendo a honra da santíssima progenitora do Vigário, que obediente às leis da Igreja, não respondeu à altura, limitando-se a dar um banho de água benta no embriagado ofensor...
Ontem Bola Sete morreu, vítima de gangrena no pé esquerdo, cujo começo foi uma picada de marimbondo, que o Nêgo Orlando Bola Sete nem ligou para cuidar!

FILHOS

A menina completava doze primaveras e já não mais se sentia uma criança, como seus irmãos. Dentro da naturalidade da seus doze anos, já começava o ver o mundo à sua volta com outros olhos. O olhar da adolescência, que a fazia mudar de fantasias, de esperanças, de sonhos.
Pouco brincava com sua coleção de bonecas, pois agora eram outras as suas prioridades. Agora eram agendas, foto de artistas, adesivos para roupas e outros coisas da idade critica, que a menina não e mais uma menina, ainda não e uma moça e pensa em ser mulher.
Trocar-se diante do pai? Nem pensar! Já lhe nascia o pudor. A vergonha de mostrar seu corpo, embora ele ainda estivesse em formação.
O pai {como todo pai) ainda a via como uma menina, que a poucos meses atrás ainda se trocava sem fechar porta do quarto, ou pedia para o pai fechar o zíper da calca, pois era duro de mover.
Agora, a presença do pai nestes momentos, fazia a garota corar e pouco falava com o pai agora. Não raro, cochichava ao ouvido da mãe, dizendo ser “coisa de mulher”, assuntos que, no ontem. falava abertamente frente ao pai.
Agora eram “coisas de mulher”, como seu pai, que ainda era o mesmo, de uma hora para outra, se tornasse um estranho.
Não mais procurava o colo do pai, como antigamente, e raramente lhe pedia algo, que agora sabia das coisas pela mãe, quando esta se lembrava de contar.
Vez ou outra, as duas irmãs se estranhavam”, e era uma dificuldade para a mais nova entender que a irmã já não era mais uma menininha...
Era, quase uma moça!
Ate os beijos, que o pai recebia, não eram freqüentes e melosos, como no antigamente.
Foi assim, neste clima de mudanças radicais, que a ex.- menina, quase mocinha, encontrou o seu primeiro namorado e a situação, pois a primeira paixão se tornou presente no coração e no sentimento da “menina moça”, ela não sabia muito bem o que acontecia.
Em meio a tudo isso, a natureza resolveu se manifestar, e a menina tornou-se freguesa da farmácia, de “28 em 28 dias”.
Agora, a menina era moca, quase uma mulher, e seu mundo tinha inicio com suas fantasias; seus medos; seus pudores e sua realidade.
O pai, como bom pai, longe estava de magoado, ao contrario; estava feliz, pois havia conseguido o quase impossível, pois a doze anos atrás lançara ao mundo real um ser humano completo, ou quase completo, e aquela menina que lhe sentava aos joelhos, pedindo histórias e dormindo antes do final, agora estava quase pronta para o mundo, só faltando-lhe o polimento orientado.
Quando o pai comentou com a mãe, e esta explicou o que ainda vinha pela frente, o pai entendeu:
“Filho criado, trabalho dobrado”
E o velho pai voltou a se preocupar..

ESTELA

O chorar manso teve início nos primeiros raios do sol,. em frente a porta central do convento das carmelitas descalças,. logo depois de alguém bater forte na porta de madeira maciça, que lá estava a bons cinqüenta anos .
As bondosas carmelitas contavam que a porta havia sido doada ao convento pôr um carpinteiro de bom coração, cuja filha única viria a ser, mais tarde, noviça do convento, onde faleceu de tifo, na década de trinta.
A porta recebe, semestralmente, banho de imersão em querosene, vinagre e cânfora ,para não sofre ação de cupins e o Juvencio, quando a porta seca do banho de imersão, lhe dá três camadas de verniz. Foi o pai do Juvencio, hoje aposentado, quem começou a cuidar da porta, que possui em alto relevo, no mais puro entalhe, a imagem de Nossa Senhora, com Jesus morto ao colo. O engraçado disso tudo, é que os anais do convento não possuem registro do nome do benfeitor, que doou a porta .
O Choro chamou a atenção de uma noviça que veio atender as fortes batidas e, quando percebeu que no cesto de vime, enrolado em cobertores, estava uma criança, foi um verdadeiro reboliço no convento, pois, nunca havia acontecido algo parecido, naquele local santificado.
A criança, uma bela menina, parecia saudável, embora esfomeada, visto que logo depois que as madres a levaram para dentro, duas mamadeira de leite de cabra, que as bondosas freiras retiraram de sua mascote , tão logo viram a bonita menina.
Pôr mais que procurassem, as freiras nunca encontraram os familiares da menina, e foi ela criada no convento.
Aos quinze anos, conhecia todos os rituais das carmelitas e estava pronta, a pequena Estela carmelita de Jesus , a se tornar uma serva de Jesus , mas este não era seu destino, pois não possuía aptidão para servir a Deus.
Era vista a cuidar do pomar do convento, com a alegria estampada no rosto, mas quando se tratava de rezas e cânticos, seu semblante mudava.
Aquela não era sua vocação, e embora nada reclamasse, seguindo os rituais com perfeição, se percebia que não sentia se bem nas coisas da religião e o tempo se passou, com as madres mais idosas adiando a iniciação de Estela.
Ao completar dezoito anos, o convento a recomendou para um trabalho voluntário no hospital da cidade, e no contato com os doentes, Estela descobriu a medicina, a vocação que Deus lhe reservara.
Aos vinte e três anos, após sete anos de trabalho voluntário e uma faculdade de medicina, Estela recebia seu diploma. Era agora uma profissional da saúde , e quando teve opção de escolha do local onde queria prestar seus serviços, optou pelo atendimento aos pobres, e lá foi a agora doutora Estela Carmelita de Jesus assumir seu posto, no recém inaugurado hospital de leprosos, num dos bairros mais retirados da cidade.
Tendo o diploma como base clinica e a vida de então, como base de humanidade e humildade, doutora Estela levou pouco tempo para ser a mais estimada e respeitada pessoa daquele hospital pois, aos doentes, se dedicada pôr inteiro e sem reservas.
Passou a ser costume seu percorrer as enfermarias, leito a leito, altas horas da madrugada, para cobrir doentes, ministrar remédios, dar palavras de conforto aos aflitos, acompanhar famílias, na hora do desencarne de entes queridos.
Foram cinqüenta e oito anos de dedicação ao hospital de leprosos...
Com oitenta e um anos, já aposentada, ainda era sua rotina visitar, nas madrugadas, as enfermarias.
Numa destas madrugadas, doutora Estela não apareceu.
Alguma coisa acontecera....
Quando médicos residentes, preocupados foram ao seu quarto, para verificar se necessitava de algo , encontraram-na caída aos pés da cama, já sem vida.
A direção do hospital foi comunicada, e seu corpo examinado.
Estela tinha o corpo coberto pôr chagas.
A lepra dominava o corpo da bondosa doutora.
As únicas partes do corpo não afetadas eram o rosto e as mãos.......
A dor que deveria sentir, segundo os médicos, era algo insuportável ao ser humano!
Os especialistas comprovaram que a lepra estava no corpo a mais de quarenta anos, e nunca ninguém escutou Estela dar um gemido, fazer uma reclamação, colocar um medicamentos no próprio corpo.
O corpo clinico do hospital financiou a construção de uma capela no próprio hospital e, abaixo do altar , foi depositado o corpo de Estela, sob a laje, foi colocada uma placa, onde se lê:

“Em memória de quem deu a vida ,
E a morte, para o bem de seu próximo!”

Todos os meses , na data da morte de Estela , o convento das carmelitas reza missa na capela em memória de Estela Carmelita de Jesus, sua filha.
Neste dia, o corpo clinico do hospital faz, anualmente, doação de duas toneladas de alimentos as pessoas mais carentes, em nome de Estela que já tornou-se nome da ala infantil do hospital.
Dizem, os funcionários do período noturno, que uma senhora toda de branco, com um aparelho de escute ao pescoço, visita as enfermarias.
Vários médicos testemunham que, vez ou outra, sem explicação, são levados a doentes terminais que nem conheciam anteriormente .
Com o correr do tempo, se tornou tão comum estes fatos, que hoje e procedimento normal atender a tais chamadas, com a mesma dedicação dos chamados oficias das enfermarias.
No convento, as coisas não são diferentes, pois as freiras relatam que e comum verem Estela, cuidando do pomar ou adubando o roseiral.
Quem explica?

Quarta-feira, Junho 27

EPIFÂNIO

Naquela cidade, diversão era luxo de poucos, coisa pra gente de posição, que podia “jogar dinheiro fora”, como dizia seu Epifânio, que criara doze filhos, no rigor do trabalho.
Diversão, de fato, era luxo de poucos na pequena cidade, rodeada por pequenos sitiantes, como Epifânio.
Nada fazia Epifânio sair de casa, a não ser uma coisa: o chegar de um circo na cidade!
Quando a grande lona era montada, no terreno do lado da igreja, a cidade se modificada, ganhava vida e movimento, com crianças correndo de um lado para outro, tentando encontrar maneira de ver os artistas e os animais.
Quando, na manhã da estreia , o espetáculo era anunciado por toda a cidade, com cortejo dos artistas e dos animais, parecia que a cidade renascia.
Nestas ocasiões, Epifânio lavava os pés no riacho do sitio, colocava o terno de Domingo, passava brilhantina no cabelo e lá ia ele e a família, para a grande fila frente a entrada do circo.
Quando se iniciava o espetáculo, os olhos do velho Epifânio brilhavam a cada número!
Quando o palhaço aparecia, entretanto, Epifânio sentia as lágrimas rolarem em sua face.Nesta hora, Epifânio era outro homem, que se deixava levar

DIA DA ELEIÇÃO

Panfletos de propaganda eleitoral manchavam a cidade, transformando cada de suas principais avenidas em um tapete de papel picado.
Eram os chamados “santinhos”, de todas as cores , tamanhos e tendências, pois a câmara municipal ia renovar-se e o todo poderoso prefeito deixava a cadeira, coisa que levou um punhado de “bons cidadãos”, e outro punha de novo “não tão bons assim”, a concorrerem aos cargos vagos.
Era uma verdadeira “salada de frutas partidária”, pois nada menos que seiscentos possíveis candidatos lançaram-se na disputa, era um candidato para pouco mais de duzentos eleitores, quando isso.
Um por cento, ou mais da população, estava diretamente envolvida na eleição. Indiretamente, acabou se envolvendo o restante, e a cidade ganhou movimentação nunca visto!
Geraldo da Rosa, que tinha esse nome por estar casado com Rosa Adelaide, a eterna miss da cidade era o dono do Bar Sport, onde a oposição fazia o seu quartel general, e foi no bar do Geraldo da Rosa, que tudo começou.
Miguel Borboleta, o vendedor de bilhetes da federal, que também era “escrevinhador” do bicho, foi agredido fisicamente pela “turma da situação”, no comissão da praça, e baixou no Bar Sport, depois do acorrido, com enorme hematoma no rosto, além de vários arranhões pelo corpo, contando sua história, para quem tivesse paciência de escutar.
Geraldo da Rosa , um dos “cabeças” da oposição acabou por pegar as dores do borboleta e, juntando-se com uma meia dúzia, foi atrás dos agressores.
O encontro dos grupos, aconteceu em frente a igreja matriz, com o sol à pino.
Foi uma pancadaria dos diabos, pois até Maria da Foice se meteu, e acabou com fratura exposta na perna direita, e deu início a outra briga, pois sendo a Maria dona da “casa das tias”, reduto do baixo meretrício, o Álvaro da farmácia, única autoridade no ramo da saúde em toda a cidades negou a acudir a perna sangrenta de Maria da Foice, e a pancadaria recomeçou agora entre os amigos de Maria e os amigos do Álvaro, que acabou atendendo a ferida, pois o José das Dores deu fim na briga, com um tiro de doze, que disparou no forro da farmácia, ameaçando “estourar” a cabeça de Álvaro, se não atendessem Maria, como ela merecia e necessitava.
O Álvaro percebendo que o Zé falava sério, atendeu a Maria, mas o fez de tal má vontade, que a pobre nunca mais andou direito, ficando com a perna torta.
Quando a turma saiu da farmácia, para levar Maria para seu “palácio”, a coisa esquentou novamente.
A praça pegou fogo, pois as “mães de família” da cidade não gostaram nada de verem seus “santos maridos” defendendo Maria da Foice, e a coisa esquentou.
A confusão se generalizou, com marido apanhando de frigideira, pau de macarrão e cabo de guarda chuva.
Quando deu cinco horas, foi que o Geraldo da Rosa se lembrou que ainda não havia votado, e foi uma correria dos diabos até o local da votação, com “empurra - empurra” na fila e outras coisas, que nem e bom falar.
Dr. Marcolino, o juiz eleitoral, diante da confusão formada, deu ordem para se prolongar por meia hora a eleição, e ai o tumulto se generalizou, pois a situação armou o maior banzé contra a decisão de Dr. Marcolino.
A eleição ganhou novo aliado: o desrespeito a lei, pois Dr. Marcolino errou, e a situação errou também, sem falar no Geraldo da Rosa, que berrava que nem um desesperado , defendendo seu direito de votar fora da hora legal.
Seis horas da tarde, seu Lindolfo, chefe dos correios, trouxe um telegrama.
O Tribunal Eleitoral da capital do Estado, diante do ocorrido, anulava a eleição na cidade.
O resultado foi uma briga bem maior!
Foram três dias de confusão generalizada, com saldos negativos para todos os lados!
Dr. .Marcolino respondeu processo de crime eleitoral; Geraldo da Rosa foi preso, por desacato à autoridade, pois deu um murro no sargento Custódio; “vai de valsa”, bêbado enveterado da cidade, foi enternado com trauma alcóolico, por comemorar a vitória de ninguém; Miguel Borboleta teve que vender a casa , do alto do morro, para pagar o prêmio da milhar, pois na confusão, esqueceu de passar a banca o jogo que João das Coves mandou “escrevinhar”, e o João acertou na cabeça, no terceiro prêmio; Masculina Cavadão, filha da Maria da Foice, resolveu “tomar as dores” da mãe, e deu um surra “de criar bicho”, no Álvaro da farmácia.
Dona Masculina, do Açougue Pé de Vento, o único da cidade, não contente com a confusão que ajudou a armar, frente a matriz, pegou o marido desprevenido e rachou a cabeça do pobre, com uma perna de boi, levando o pobre para a UTI do hospital da cidade vizinha.
Na confusão, o vigário da matriz esqueceu de ir até o leito de morte do Analecto, que foi mordido pelo cachorro do Horácio e contraiu raiva.
O pobre acabou morrendo sem extrema-unção!
Maria das Dores funcionaria da coletoria estadual, foi pega sentada no colo do chefe e acabou perdendo o emprego, por atos imorais, tendo que pedir abrigo na casa de Maria da Foice, pois seu marido a expulsou de casa só com a roupa do corpo, causando forte comentário em toda cidade.
O Juarez, dono do posto de gasolina, com a confusão, resolveu fechar o posto mais cedo e ao voltar para casa, fora de hora, encontrou a Joana , sua mulher, só de calcinhas como Marcondes, na sala de estar, no maior carnaval.
Com o susto e a emoção, de se descobrir “corno” coisa que a cidade toda já sabia, menos ele, o Juarez caiu para traz mortinho da silva, com enfarte fulminante.
Como se não bastasse a Carlota, filha do Horácio, o dono do cachorro que mordeu o Analecto, recebeu a noticia de gravidez precoce.
Na altura de seus quinze anos, foi ela contar a grande novidade pro Zé, seu namorado. O rapaz, diante do fato consumado, perdeu as estribeiras e plantou a mão na Carlota, num surra que deu gosto, alegando que o filho não era seu. Carlota, em desespero, jogou-se na ribanceira do rio, sendo encontrada horas depois, com uma hemorragia dos diabos.
A cidade só voltou ao normal depois que o vigário, já recuperado do esquecimento da extrema-unção do Analecto, benzeu com água benta casa por casa.Só quem não quis a casa benzida foi dona Masculina, pois era filha de santo do terreiro de Pai Onofre, mas providenciou limpeza ao seu modo.

CONTAS Á PAGAR

O carro importado, com emblema famoso junto ao cofre fronteiriço, parou na avenida movimentada do centro, obrigado pelo sinaleiro, que mudara de cor.
O motorista, rapaz ainda, aproveitou a parada para fazer uso de seu celular.
Não percebe o aproximar de estranhos que em instantes, estavam encostados à porta do veiculo.
_É um assalto, moço!
Falou um garoto com roupas comuns, surradas pelo tempo, não aparentando mais do que seus doze anos, apontando ao motorista um Táurus, calibre 38, carregado.
_Você esta brincando, garoto? – Disse o rapaz, não acreditando no que acontecia.
_É um assalto moço! –Repetiu o garoto, apontando a arma _ O que tem ai pra mim?
O motorista colocou a mão na maçaneta e empurrou à porta contra o corpo do menino.
Com o tranco, a arma dispara, e o filete de sangue corre do peito do motorista, que tomba para o banco do carona, enquanto o assustado garoto corre pela avenida, levando a arma.
No final da tarde, enquanto o rádio e a TV dão a noticia da morte, em plano avenida, do jovem e promissor executivo, o garoto sobe o morro e, com cara assustada entra no barraco onde lhe espera a mãe, seis irmãos menores e o pai, que visivelmente embriagado, lhe pergunta.
_Então? Quanto conseguiu hoje, garoto?
_Nada! O moço reagiu! - Respondeu o menino, assustado.
A mão do alcoólatra estalou no rosto do menor com tamanho fúria, que um filete de sangue escorreu da boca do pequeno infrator.
_E porque você não limpou o cara? – Perguntou o pai, em fúria.
_Fiquei com medo! - Respondeu o menor, limpando o sangue.
Novo tapa, e outro filete de sangue escorreu da boca do menino, manchando a camisa encardida que vestia.
_E agora? – Disse o alcoolizado pai –Como vou pagar a conta do boteco?
O menino, passando a mão no rosto, saiu pela porta do barraco e sumiu, na escuridão do começo da noite.
Seis meses depois um menino, o mesmo garoto, é manchete na TV.
“Menor é baleado por PM, durante assalto em coletivo”- Diz o locutor do noticiário, que mostra o corpo sem vida do menino.
Ao ver a imagem, na TV preto e branco do boteco do morro , um freguês, grita
_“ Mataram meu filho!”
O dono do botequim, virando-se para um outro freguês, diz:
_É... Mas uma conta, que não vou receber! Coisas deste pais!
COISAS DA ECONOMIA.


_Qual é o preço da banana moço?- Perguntava uma freguesa ao feirante.
_Depende, minha senhora! – Respondia o comerciante.
_Depende do que?
_Ora, minha senhora, do dólar!
_Mas eu quero a banana....não caviar russo!
_Pois olha, ontem, este tal de caviar estava mais barato do que a banana, num sabe?
_O senhor esta curtindo com a minha cara?
_De maneira alguma, freguesa! É que a banana, ontem, estava cotada a três dólares, e o tal do caviar, valia dois e oitenta!
_Isso é um absurdo!
_Também acho, dona!
_Quanto vale, hoje a dúzia desta “preciosidade”?
_Deixe-me ver.... três dólares e quarenta e cinco....
_Tá muito caro!
_Também acho!
_Vou levar maçãs!
_Nacionais ou argentinas?
_Nacional, que é mais barata...
_Não, minha senhora!
_Não o que?
_A argentina, pela cotação, tá mais barata hoje!
_É um absurdo!
_Também acho!
_E quem resolve?
_E eu sei lá ??!!
CLEMENTINA.



Clementina vivia isolada em uma casinha ao pé da serra, sobrevivendo de pequenos serviços e do que conseguia tirar do pequeno de chão, entre a casa e a serra, onde plantara uma pequena horta e alguns vegetais.
Seus pais haviam falecido de lepra, e a jovem Clementina foi isolada pela vila, com medo da doença.
Clementina, embora filha de leprosos, não desenvolvera doença alguma, mas mantinha-se em seu canto, ao pé da serra, preparando pequenos serviços a quem lhe procurasse .
Seu sorriso era franco, aberto e humilde, e cativava todos com quem tratava.
Desde muito jovem aprendera a arte do bordado em linho, e era a melhor bordadeira da região, visto que seus trabalhos estavam nas melhores casas da cidade, e recebia encomendas de todo o estado.
Esta era a sua maior fonte de renda.
Alem dos bordados, Clementina ganhara fama pôr suas “garrafadas” feitas com ervas medicinas de seu próprio cultivo, que serviam para diversas doenças.
Não havia sido uma “garrafada” de Clementina, que colocara novamente em pé o marido de Das Dores, de quando se rendeu, levantando saca de cimento, ainda na construção da casa nova?
Também não havia uma garrafada sua, feito à filha de Marcolina, colocar pelas urinas as pedras, que o doutor Marcos teimava em operar ?
E quando o Juvencio pegou aquela infecção nos pulmões, não foi Clementina e suas garrafadas que o colocaram novamente respirando com normalidade ?
Foi Clementina também que deu cura na tosse do vigário, que carregava aquela rouquidão já fazia tempo
Clementina era assim desde menina......
Logo aos dez , já se prontificava a ajudar, e foi com quase treze que ajudou no parto do filho da Gertrudes , que nasceu virado.
Pois Clementina contrariando às ordens de doutor Inocencio, pai do doutor Marcos já falecido, sentou-se na barriga de Gertrudes e só então nasceu o menino .
Agora, Clementina não mais se aventura, pois já esta na beira dos oitenta, com fortes dores pela corpo.
Pôr certo ainda faz seus bordados e mistura suas garrafadas, mas não se aventura a fazer o que fazia quando moça, pois a idade não lhe permite.
Nunca casou a Clementina .
A única companhia que possui e um gato de nome Germano, que criou desde pequeno.
No ultimo sábado, sentiu fortes dores no peito, e pensou que ia para o outro lado, mas tomou chá de boldo e sentiu-se melhor.
Horácio, como faz todos os dias, chegou no casebre de Clementina no final da tarde, e sentiu algo estranho.
Chamou Clementina, mas ela não lhe respondeu .
A porta da frente, como sempre, estava só encostada, mas Clementina não estava lá.
Horácio foi encontrá-la estendia embaixo do pé de manga, tendo Germano deitado ao seu lado.
Clementina estava morta !
Na mão direita, preso entre os dedos, portava ela um terço de contas com pequeno crucifixo.
No peito dos pés, tanto no esquerdo como no direito, Clementina possuía uma ferida em forma de furo, de onde ainda brotava um filete de sangue.
Na palma das mãos, o mesmo ferimento .
Na testa, pouco acima dos olhos, se podia ver uma fileira de furinhos, todos brotando sangue .
Horácio, assustado, não tocou no corpo .
Quando o vigário chegou, e viu o que Horácio lhe mostrou, postou-se junto ao corpo e puxou as orações em terço, que Horácio procurou acompanhar.
A cada pedaço do terço, o corpo se compunha .
Primeiro foram as chagas dos pés, que se fecharam.
Depois foram as chagas das mãos e, pôr fim, sumira os pequenos furos da testa da anciã.
Clementina ganhou uma serenidade absoluta, e o corpo, que estava gelado, voltou a quentura normal como se vivo estivesse .
Parecia que Clementina havia suspirado a poucos minutos, e já se passara horas.....
Seu corpo ganhou sepultura cristã e até hoje de seu mausoléu brota um vazamento de água doce, com gosto de manga que os crentes recolhem em pequenos vidrinhos.
Corre notícia que o líquido recolhido da sepultura tem cura certa para várias doenças , se usado com esperança e fé .
Horácio, na data em que se comemora a morte de Clementina não pode sair de casa .
Seus pés ficam roxos, com cor de sangue pisado, e as mãos ganham a mesma tonalidade .
Horácio sente dores por todo o corpo, e não encontra ânimo para nada.
No primeiro ano da morte de Clementina, bem no local em que seu corpo foi encontrado, sem mais aquela, pegou fogo no casebre ao pé da serra.
O mais estranho e que a horta e o pomar, nem sequer foram atingidos pela fumaça.
Explicação ? Para que ?
ASFALTO




O prefeito da pequena cidade, eleito faziam menos de dois meses, enfrentava como podia a cobrança da população, tendo em vista suas promessas de campanha.
Prometera sem pensar nos conseqüências, que iria asfaltar cem por cento da cidade, mas esqueceu de que os cofres da cidade não tinha recursos, para a obra de asfaltar a cidade.
As cobranças do povo, no entanto, eram constante e direito, não dando trégua nem ao prefeito e nem aos seus assessores, e a coisa já estava incomodando o bom andamento da administração, pois nenhum funcionário da prefeitura podia circular pela cidade, sem ouvir as cobranças pela promessa feita.
De certa forma, a cidade tinha lá suas razões, pois o Juvenal, motorista de taxi, comprou um carro usado do Mário Quitandeiro.
No registro , mandou colocar a cor do carro, ou seja: mostarda, e assim foi feito o registro oficial, só que o Juvenal não falou com o Mário, quando fez o documento.
Na primeira chuva que caiu, pesada como sempre, o Juvenal descobriu que havia cometido um erro, pois o carro era bege, e não mostarda. A “mostarda”, era poeira, do barro vermelho que é , em seu todo, o calçamento da cidade.
Ninguém sofre mais com isso do que a Maria do Juarez, que depois da morte do pobre, sustenta os filhos como o lavar de roupa pra fora.
Já perdeu a conta das roupas que, do varal, voltaram para o tanque por causa do pó, que levanta da rua, quando um carro passa.
Certa manha, um matuto bem intencionado, encontrou-se com o prefeito na porta da prefeitura, e logo foi dizendo:
_Olha, eu tenho cá uma idéia, que vai resolver todos os problemas da cidade!
_Que idéia é esta? - Disse o prefeito.
_Uma idéia para asfaltar, praticamente de graça, toda a cidade!
_Ora, amigo, a cidade não tem dinheiro! Respondeu o prefeito.

_Mas, para asfaltar, não é necessário gastar dinheiro nenhum!-
respondeu o matuto.
_Como assim? Perguntou o prefeito, curioso.
_Ora, vamo asfaltar a cidade com a bosta de boi, ora! -respondeu o matuto, serio.
Foi uma gargalhada geral, entre os assessores do prefeito, que o acompanhavam.
O matuto, magoado, saiu, prometendo mostrar o que dizia.
Uma semana depois, um caminhão despachava à porta da prefeitura, uma mistura estranha, feita de bosta de vaca, capim seco, água e um quarto de cimento comum, e o matuto acompanhado por dois amigos, espalharam aquela mistura na rua de chão batido, alisando muito bem tudo. Em duas horas, a rua frente a prefeitura não tinha mais nem um centímetro de barro a vista e não havia mais uma poeira levantando do chão.
Quando o prefeito chegou, o matuto disse:
_Não falei? Asfaltei a rua e não custou nada pra cidade!
_Mas esta fedor? Perguntou o prefeito.
_Ora!- falou o Matuto _ eu prometi o asfalto, e cumpri! Não falei que seria um asfalto com odor de rosas!
Quem mandou o prefeito não saber fazer promessas?
ABAIXO A LEI INJUSTA

O povo havia invadido a praça central da capital do estado , em uma grande manifestação contra o aumento descontrolado da carestia , pois o povo fugia do comércio , e muitos médios comerciantes fechavam seus estabelecimentos , pôr falta de clientes.
O povo , como sempre , decepcionado com a falta de ação dos responsáveis pêlos poderes constituídos , invadia a praça pública , numa pacifica manifestação popular .
O presidente do sindicato do comercio varejista , com uso do megafone , em meio a palavras de ordem dirigidas a população , acusava pela carestia reinante a tal lei , e suas conseqüências .
O ato popular durou o dia inteiro .
Manoel Antônio dos Prazeres era um homem honesto e simples , que nascera e vivera sempre numa cidadezinha ao norte do estado , lá constituindo família e bens .
Pôr sua honestidade , dignidade e simplicidade , conseguiu o respeito e a amizade de todos em sua cidade natal .
Gozando de popularidade e muitos amigos , eleito foi vereador a câmara municipal .
Pôr força deste mandato , estava ele em visita a capital , quando deu-se a manifestação popular .
Meio assustado , mas muito curioso , meteu-se ele no meio da multidão , sem saber direito o que acontecia .
Esperto , como todo matuto que se preza , podia não entender , mas prestava uma atenção danada .
Quando escutou falar na tal da lei seus sentidos se colocaram em alerta .
Ao voltar à pensão , onde se hospedara , procurou saber que lei era aquela , que o homem culpava pôr tanto estrago . Outro hospede da pensão , estudante de economia , prontificou-se a explicar “tin-tin pôr tin-tin “ de que se tratava .
Explicou tudo e , pôr fim , explicou também que a tal da lei valia em qualquer lugar.
O matuto , sem perder tempo , voltou no mesmo dia para sua cidade .
Logo ao chegar , reunir seus assessores e , junto a eles , elaborou projeto de lei para apresentar na sessão da câmara, no dia seguinte .
No dia da sessão , pediu a palavra:
_Estive na capital ! Confesso que voltei meio que assustado , pois o povo foi lá pra Praça Central e colocou a boca no trombone , pôr causa de uma Lei que , pôr erro de não sei quem , tá provocando um punhado de desemprego pôr lá . Fiquei sabendo também que a tal da lei vale aqui também . Pôr isso, fiz o projeto, pedindo que se revogue a “Lei da Oferta e da Procura” imediatamente!
Pôr incrível que pareça , a lei foi revogada pôr treze votos a zero !
Coisas da Política .
A VOLTA DE MARIA DAS DORES


Havia seis anos que Maria das Dores deixara o Sítio, em companhia de um turco, vendedor de panos coloridos, frascos de água-de-cheiro e colares de contas coloridas de vidro barato, que as meninas da região diziam ser a última moda lá na Capital.
Seu pai pedira para o "mascate" levá-la, pois não encontrava meio de sustentá-la, sendo "alugado" do Coronel Edmundo Borges dono das terras e de certa maneira, dono dele também, já que a conta que tinha no Armazém do Coronel, ele não conseguiria pagar, mesmo vivendo cem anos. E tinha também, o caso da filha do compadre Leôncio, a menina Joana, que enquanto o Coronel não levou para a Casa Grande, não sossegou...
Um ano depois, a menina voltou para casa, "buchuda", e o Coronel espalhou para os quatro cantos, que a menina, na época com treze anos, era "quenga"...
O compadre Leôncio, teve um ataque e foi para a terra dos "pés-juntos", por vergonha, deixando a pequena Joana como distração para os peões...
Não queria aquilo para Das Dores, por isso, resolveu entregá-la ao turco... ele cuidaria bem dela, e lá se foi Das Dores e o turco "mascate"... isso há seis anos...
O sol resolvera anunciar que o dia era perfeito...
O mormaço iniciava-se, estorricando os poucos pés de mato, que conseguiam viver naquele deserto, onde só viam o novo dia, os homens fortes e os bois valentes...
Com o sol à pino, já quase ao meio-dia, um menino de seus doze anos, chegou à porta do casebre, trazendo um telegrama ao velho "alugado".
Como o matuto não soubesse juntar as letras, pediu ao menino, que soletrasse o que dizia aquele pedaço de papel...
O menino, com dificuldade, leu o telegrama:

_"Pai, chego no trem das duas. Beijos em todos.
Das Dores."

Agradecendo ao garoto, com uma lágrima já pendurada no canto dos olhos, o "alugado" entrou em seu casebre e aos berros avisou à velha mãe, que a filha voltava, enquanto vestia sua melhor roupa e calçava suas botinas, que herdara do finado Leôncio, que Deus o tenha, e partia em carreira para a Estação, para esperar o trem, pois, sua Das Dores voltava...
Chegou ele à Estação, quando o trem começava a apontar na curva do Cemitério, junto à ponte, e já se podia ver a velha "Maria-Fumaça", entrando majestosa na linha reta que a traria à Estação...
O coração do velho pulava tanto quanto os vagões balançavam...
A mente do pai aflito fazia-lhe perguntas...
_"O que traria Das Dores de volta?"...
_"Será que estava doente?..."
Estático, permanecia o velho "alugado" na Estação, com os olhos fixos na Locomotiva e nos três vagões de passageiros, que a velha máquina teimava em puxar desde a Capital...
Finalmente o trem parou...
Descem vários peões e... Maria das Dores!...
Vestia um conjunto de brim, com saia pouco acima dos joelhos, colar de pérolas legítimas ao pescoço, e cabelos impecavelmente penteados.
Dois minutos depois, o velho "alugado", cai para trás...
O médico do Posto de Saúde, depois de examinar o ancião, deu o diagnóstico:
_"Enfarto do miocárdio... morte instantânea!"
Das Dores, desesperada, abraça-se ao companheiro de viagem, que teria ido à Capital especialmente para buscá-la.
Quando o Chefe da Estação chegou perto da cena que ali acontecia, antes mesmo de cumprimentar Das Dores, estendeu a mão ao seu companheiro e disse:
_"O que posso fazer pelo senhor, Coronel Edmundo Borges
A FÉ

No alto da escadaria do morro da boa viagem, apareceu certa manhã uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, faltando a cabeça.
A imagem estava bem no meio de uma mesa farta, daquelas preparadas no capricho, pelos adeptos do candomblé.
Do lado direito, estava uma vela azul acessa e, no esquerdo, dentro de um copo de vidro, cheio até a boca de azeite de dendê, se via a cabeça da santa.
Amontoou-se o povo, ao redor do achado, sem saber como colocar fim aquele afronto religioso.
Maurício da Joana, mestre em solucionar problemas, arrumando outros, sentenciou:
_Isso é uma falta de respeito!
Jerônimo da Conceição, com a autoridade de filho de santo, com cabeça raspada na Bahia, e montureira de guias multicoloridas ao pescoço, bateu o pé no chão três vezes, e disse:
_Ninguém toca em nada, pois é despacho pro bem!
A confusão se formou, pois uns apoiavam Maurício, que queria retirar tudo aquilo da escadaria do morro, e outros apoiavam Jeronimo, que dizia que o trabalho merecia respeito.
Conceição, mãe de santo das melhores, já passando de seus setenta e tantos anos, foi chamada e, ao chegar não falou com ninguém, apenas colocou a mão no copo de azeite, retirou dele a cabeça da santa, e a colocou-a ao seu lugar.
Quando Conceição virou-se ,a cabeça caiu do pescoço da santa e mergulhou novamente no copo de azeite.
Conceição , ao ver aquilo, ajoelhou-se frente à imagem, e prestou seus respeitos, acompanhada por Jeronimo e alguns moradores.
A escadaria do morro, a esta altura, já estava repleta, querendo ver a santa.
Meia hora depois um cego, que ao pé do morro vendia velas, começou a dizer aos gritos que estava vendo a santa, e a noticia se espalhou.
O “Zé da Venda”, dono de uma xiboca no meio do alameda, colocou refrigerante e cervejas em lata em algumas caixas de isopor, e espalhou os filhos em meio a multidão, tentando faturar um extra.
Marcolina, doceira de mão cheia, fez um tabuleiro de quindins e entrou na multidão.
Em minutos, tinha vendido todos!
Três dias se passaram, e lá estava a multidão e, no alto da escadaria, o tal despacho, com a santa ao meio, sem cabeça.
Horácio, carpinteiro de mão cheia, devoto “ate debaixo
d’água” de Nossa Senhora Aparecida, quando viu que o tempo começava a fechar, com ameaça de chuva, fez uma espécie de cobertura, com madeira, e colocou em cima da santa.
No alto da escadaria, ficou parecendo que havia uma pequena capela, de tão caprichado que ficou o trabalho do Horácio!
Marcolino, que ganhava a vida como fotógrafo, fez bela foto do alto da escadaria, tendo o despacho e a santa, como modelo. Vendeu mais de duas mil copias a três reais cada.
Faturou “uma baba”, com a idéia!
Joana, que tinha uma vendinha de imagens de santo, em meia hora ficou sem seu estoque de Nossas Senhoras Aparecida, e mandou buscar mais em Jacarepaguá, onde era fabrica.
A movimentação no morro, chamou a atenção da igreja católica, que tinha pequena capela ao pé do morro.
Padre Justino esteve ao pé do despacho e, pra susto de muitos, abençoou a multidão e, ali mesmo, acabou rezando missa e distribuindo hóstias sagradas.
O morro nunca mais foi o mesmo, depois que apareceu aquele despacho no alto da escadaria.
Ate o índice de crimes comuns e roubos, caiu cinqüenta por cento, depois que a santa sem cabeça apareceu.
Descobriu-se certo tempo depois, que o cego que viu a santa nem cego era, mas quem ia contar ao povo?
Logo, um grupo de “notáveis” do morro, formaram uma espécie de confraria, que tinha como objetivo o preservar do local onde apareceu o despacho e coordenar o uso comercial da imagem e suas conseqüências para a comunidade.
Em pouco tempo, graças a coordenação da tal confraria, o morro ganhou calçamento, rede elétrica extensiva aos barracos, uma creche, posto de saúde e outros benefícios sociais que, ate então, eram sonhos de idealistas.
No local do despacho, a confraria mandou levantar uma capela de alvenaria no alto da escadaria.
Um ano depois, como a capelinha começou a ficar pequena para os romeiros, que diariamente movimentavam o morro, a confraria pediu desapropriação de alguns barracos e foi feita a reforma da capelinha, nascendo no local uma media igrejinha.
No ato de transferir a imagem para a nova capela, já aumentada, descobriu-se que a imagem da santa possuía uma espécie de mola no pescoço. Era por isso que a cabeça da santa não parava no local.
Embora descobrindo-se que tudo não passava de uma bem montada fraude, ninguém espalhou a noticia pois, fraude ou não, o despacho no final da contas acabou beneficiando o morro e o que interessa é o resultado, como em tudo na vida.
Afinal, o que vale é a fé!
O SUSTO !

Filha de Maria das Dores, era Maria Doroteia.....
Nascera da união de sua mãe com um tal João Caetano, homem de andanças pelo sertão, que só vira a menina uma única vez, quando a guria ainda mamava leite materno.
Vinte e poucos anos já se passaram...
Maria das Dores teve tifo, e poucas semanas depois estava morta , deixando a única de suas filhas solitariamente desamparada.
Nada tendo de seu, nem renda para sobreviver, Doroteia acabou na casa de Flora, que recolhia meninas solitárias para as usar, como diversão para os viajantes, que passavam raramente pelas bandas daquela vila.
Doroteia já era moça feita, embora agisse como menina-moça, que corre dos homens, embora os queria conhecer bem de perto.
Um belo dia, um já idoso senhor, embora bem conservado, passou pela vila.
Passou dois dias na cidade, e durante este tempo dormiu, comeu, bebeu e se divertiu na casa de Flora, onde conheceu Doroteia e por ela se apaixonou.
De fato, foi ele o primeiro a possuir Doroteia, entre os outros que com ela dormiram, no correr da vida.
Quando o homem partiu, Flora perguntou seu nome a Doroteia e, com a resposta, Flora caiu para traz, morta.
Flora conhecia a história de Maria das Dores, e o nome do amante de Doroteia, a fez morrer de susto.
Ele se chamava João Caetano, o caixeiro viajante
!

Segunda-feira, Junho 25

COISA CORRIQUEIRA

O tiro cortou a rua , e antigiu em cheio o peito de Onofre , que assista ao jogo do Palmeiras , na sala de estar.
Foi um baque surdo , acompanhado de um filete de sangue.....
Onofre nem soube o que o atingiu.......
Quando Maria chegou perto , nada mais havia para ser feito , pois a bala atingira o coração do Palmeirense , com força muito superior a um gol do Corinthians , feito de falta e sem barreira .
A bala atravessou a vidraça da sala , num ângulo perfeito , como se soubesse o endereço do pai de família .
O grito de Maria ecoou pela casa , e chegou a rua , onde a confusão já se fazia formada , pois cabo Laurindo segurava um revolver , apontando-o para o Mário.
Já havia errado um tiro , mas o próximo, não era comum errar .
João Cardoso , dono do armazém tentava conversar com o cabo, que não queria conversar, pois Mário havia destratado Laurindo e isso, o antigo membro da força pública , não admitia.
Quando o grito de Maria alcançou a pequena multidão, foi como um banho de água fria, pois todos se viraram para a mulher que atingia a rua , trazendo as mãos manchadas pelo sangue do marido .
Cabo Laurindo, ao ver o sangue, instintivamente largou a arma, pois entendera o que havia acontecido .
Onofre era seu compadre, padrinho de seu filho do meio, e Laurindo o tinha em alta conta .
Mário correu para a casa de Onofre, e voltou confirmando: a bala atingira o velho Onofre, que lá estava sentado no sofá, com bermuda verde, sandálias havaiana nos pés, camisa do Palmeiras e uma bala, alojada no coração.
Chamou-se a polícia.
João Cardoso recolheu a arma de Laurindo e a guardou na registradora do armazém .A rua em instantes se tornou o centro das atenções do bairro .A polícia chegou meia hora depois.....Laurindo entregou-se.......
Onofre foi para o instituo medico legal e Maria acompanhada pôr Mário e amigos, providenciou o velório....
Coisas corriqueiras, nada mais do que coisa corriqueira .....

AS TELHAS DE ZINCO

Já faziam vinte dias que a chuva maltratava as folhas de zinco, que cobriam o pequeno barracão, onde o pai, a mãe oito filhos menores viviam, amontoados num quadrado três por três, feito de madeirite e coberto por aquelas folhas de zinco, que o pai arrumara com um amigo e prendera aos caibros com cordas de nylon, que a ação da chuva, ameaçava fazer com que se soltassem, num perigo iminente de vir tudo ao chão e ficarem todos ao desabrigo. A luz já havia sido cortada há algum tempo, quando a Companhia numa inspeção de rotina, descobriu que o homem havia puxado um fio clandestino, diretamente do poste da rua. A água vinha de tonéis, que a mulher colhia na fonte natural atrás do casebre, ao pé do morro.
Na parede do lado direito, colado com durex de "segunda", ganho pelo garoto mais velho no Parque Infantil, podia se ver uma foto colorida de Sua Santidade o Papa, ao lado da Basílica de Aparecida do Norte, sem moldura... Do outro lado, uma foto antiga de Fidel Castro, também colada à parede com durex, se sustentava também sem moldura...
Junto à cama, uma mesa ostentava um rádio de pilha já antigo, que teimava em continuar funcionando apesar da goteira que sobre ele pingava sem parada. O fogão, era colocado num canto do barraco. Eram quatro tijolos que seguravam uma grade de ferro batido, (que um dia fôra um portão de uma casa da rua de cima, há muito abandonada). A pia, se é que assim se pode denominar, era um tamborão de lata de 50 litros cortado ao meio, e pintado com piche para não enferrujar, ficava ao fundo. No outro lado do quadrado, uma rede presa aos cantos das folhas de zinco, balançava, fazendo dormir um menino de olhos verdes, nariz escorrendo e chupeta encardida à boca... De repente, a chuva parou.
Minutos depois, um carro estacionava à porta do barraco, se é que podemos considerar como porta de algum lugar, aquelas duas folhas de madeirite, atravessadas por quatro pequenas ripas.
Vamos considerar... pois foi ali que o carro negro estacionou...
Um homem, vestindo terno preto de linho, adentrou pela porta traseira do veículo, aberta gentilmente pelo motorista...
Com um aceno de mão, deu ele adeus à mulher e aos oito filhos, enquanto mandava o motorista seguir em frente...
O carro negro, em sua chapa oficial, denunciava o emprego do pai daquela família:
"Prefeito Municipal"

A DOENÇA DA MARIETA

Ao cair da tarde à porta do armazém de secos e molhados, dois amigos se encontraram, para o “bate papo” de todas as tardes, pontuais como o Big-Bem de Londres.
_Então, compadre Bento, como vão as coisas?
_Assim, assim, compadre Chico! Podiam melhorar um bocadinho!
_O que aconteceu agora, meu compadre?
_É a Marieta!
_O que aconteceu com a pobre?
_Sei não, compadre! Já chamei ate Dr. Anacleto...
_E o foi que o homi disse, compadre?
_Disse que a Marieta tá com a doença ruim...
_Doença ruim, compadre?
_È....parece que é vírus!
_Vírus, compadre? Então é coisa feia mesmo!
_Parece.... óia o que já gastei di remédio, num tá escrito!
_E ela num melhorô nem um bocadinho?
_Melhoro! Ontem, inté que fico di pé, pra desenferruja, mas deitou logo.... acho que vô perde a Marieta!
_Que é isso, compadre? Num pode ser tão grave , vai!
Pois parece que assim é, compadre! A pobre num come nada a quase uma semana! Nem durmi direito! Escuto a pobre gemendo a noite toda!
_E o que ocê pensa faze?
_Dr. Anacleto tá pensando ate em levar a pobre pruma clinica, lá da capital, mas eu não sei não...
_Purque , compadre?
_Ora, acho que a viagem é muita longa pra coitada. Vamo que ela piore na viagem?
_Ora, cumpadre, Dr. Anacleto sabe o que faz homi! E de mais a mais, você vai cum ela, não vai?
_Por certo que vou!
_Intão. Se ela passa mal na viagem, ocê chama o doutor, ora!
_É....ocê tem razão! Acho que é o melhô mesmo! Vou dizer pro Dr. Anacleto que nois vai, e o mais rápido possível! é bom mesmo, cumpadre, pois doença não é brincadeira!
_É ....e o Anacleto já avisô que pode ser contagioso o que a Marieta tem !
_Contagioso??!
_É.... Ele disse que pode pega!
_E como é que ocê vai faze?
_Ora, vou tratar a Marieta!
_E se pega nos outro?
_Não vai ter jeito... Vou ter que sacrificar!
_Todo o rebanho?
_Fazê o que , cumpadre?
_Que pena! A Marieta é uma vaquinha tão bonita!
Conversas de matutos...

SUPEROME

Quem seria capaz de acreditar, se nem eu mesmo acreditava?
O homem pulou de dez metros, e não morreu, ao contrario, saiu andando normalmente!
No meus quase seis anos de vida, já havia visto coisa, que até Deus duvidaria , mas nunca tinha visto aquilo!
Aos três anos e meio, perdi o rumo de casa....
Andei muito, até chegar a essa praça, onde encontrei um punhado de outros meninos, e aqui eu vivo, comendo quando da pra comer, brincando de esconde-esconde e pega-pega com a policia, e dormindo nestes buracos, porque sobe um ventinho quente.
Não vi minha mãe...
Acho que ela desistiu de mim, porque eu pedi a boneca que falava....
As vezes, quando a saudade aperta um pouco, ou o estômago dói de fome, eu choro...
Mas é só um pouquinho, pois logo vem o Juvenal, que é o pai da rua, me dá um pescoço e pronto, o choro vai embora.
A coisa ficou preta, foi quando metralham aqueles “pivetes” lá no rio..... Os “omens” não deram refresco.... quase de hora em hora, a “casa “de um caia, e lá ia ele pra Febem.
O Juvenal, que e um “pai da rua” batuta, levou a gente pra porta de uma grande loja, e lá estamos morando, já vai pra mais de três meses, mas só de dia. À noite, a gente volta pro quentino do buraco, porque senão, o Juvenal falô, que a gente pode morrê de frio.
Foi lá que eu vi o homem cai de dez metros de altura, e não se quebra todo! Vi ele dentro de uma caixa preta, cheia de botões pra aperta.
O Juvenal riu pra caramba quando contei pra ele, assustada, o que tinha visto.
Ele disse que o cara, e o tal do “superome”, e a caixa preta, é a tal da televisão!
Eu queria descobrir e como e o Juvenal sabe dessas coisas...
Acho que é por isso que ele e o “pai da rua”, nê?

SOLIDARIEDADE

Havia mais de quarenta horas que aquele homem estava sentado ali naquele mesmo local, no corredor do Pronto Socorro Municipal, segurando um chapéu surrado entre as mãos, cabisbaixo, cabelos já grisalhos, paletó pedindo um ferro de passar, sapatos implorando uma graxa de há muito...
Vez por outra, levantava os olhos, procurando alguém... Fazia já quarenta horas que agia assim... Não dizia uma palavra... Não se movia dali...
O local onde estava, era em frente à Unidade de Terapia Intensiva. Há quase quatro dias, trouxera para aquele Pronto Socorro, um menino sem nome... Sem história... Sem nada...
Não era seu parente... Nem sequer o conhecia...
Quarenta horas atrás, viajava o idoso pela estrada de chão batido, indo para casa, após um longo dia de trabalho.De repente, aparecendo não se sabe de onde, surgiu em frente a seu veículo, aquele pequeno garoto, e embora o automóvel não estivesse a muita velocidade, o atropelamento, foi inevitável!
Quarenta minutos depois, tanto o menino quanto o idoso, davam entrada no Pronto Socorro Central!
Após avaliação do Corpo Clínico de plantão, o menino foi internado na UTI, com suspeita de múltiplas fratura, inclusive um traumatismo craniano.
O menino entrou na UTI...
O velho, sentou-se na cadeira...
Quarenta horas...
Dois mil e quatrocentos minutos...
Ali, frente à Unidade de Terapia Intensiva, aquele senhor, olhava para as próprias mãos... sem saber direito o que fazer!
Era a primeira vez que lhe acontecia algo assim... Sentia-se impotente... Solitário... Parceiro somente de seus sentimentos.
Por várias vezes, nas últimas quarenta horas, voltara seu pensamento ao passado, quando ainda tinha uma esposa, dois filhos... uma família!
A esposa, morrera na virada dos anos setenta, vítima de câncer... Os filhos mudaram-se para longe, após casarem-se, e já faziam uns bons dez anos, que não lhe davam notícias...
Acostumara-se a ser só...
Calado...
Pensativo...
Há mais de vinte anos era dono de um pedaço de terra, fora dos limites da cidade...
Ali construíra um pequeno rancho, onde passava as noites...
Pela manhã, dirigia-se aos Correios, onde era o responsável pelo Posto, há mais tempo do que podia lembrar...
Agora estava ali, sem saber o que fazer...
Em certo momento, dirigiu-se ao idoso uma das enfermeiras, trazendo às mãos uma folha de papel...
Era o Boletim!
O garoto teve traumatismo craniano e, em consequência deste, veio a falecer...
O idoso levantou os olhos, olhou para a enfermeira, levantou-se da cadeira que estava sentado, há mais de quarenta horas, e saiu do Pronto Socorro...
Ninguém mais o viu...
Na manhã seguinte, o Posto dos Correios não abriu...
Ficou fechado durante uma semana...
Ao final da tarde do sétimo dia, um desconhecido encontrou um corpo, dentro de um Ford 29, parado à beira da estrada que levava à parte rural do município...
Era o velho funcionário dos Correios e Telégrafos...
O médico legista constatou:
_"Enfarto do Miocárdio!"

OS ALVES

A família Alves era o que se pode classificar de um grupo familiar austero, onde o pai ditava as regras e comandava os seus num regime bem próximo da disciplina militar.
A um simples olhar do pai, qualquer filho seu sentia-se literalmente humilhado, menos Álvaro, o caçula da pequena tropa, que tinha “cinco soldados rasos e duas soldadas rasantes” , apelido que Álvaro colocara na tropa.
As “soldadas rasantes” eram idênticas, pois eram gêmeas, e prendadas nas coisas do lar, visto que eram as mais velhas na tropas dos “sete subordinados” do General” e da “Generala”, como entres si, denominavam os pais.
Álvaro no entanto, embora obedecesse as ordens do “comando superior”, podia ser considerado como um rebelde naquela pequena tropa de elite, pois nunca deixada de fazer suas travessuras.
Sim. Tinha respeito aos pais, mas longe estava do pavor que seus irmãos sentiam do “comando superior”, seguia as ordens, mas o fazia ao seu modo, mantendo-se com a personalidade livre das influências dos pais.
Pois não foi Álvaro, que colou o chapéu do pai no cabide de casa da avó, no último Domingo de Páscoa? Não havia sido ele que soltara o tal sapo, na reunião para o chá, que a mãe organizara na sala de jantar, pouco antes do Natal? Não havia esvaziado os quatro pneus do carro de seu vigário, de quando da visita que o bom padre fez a família, quando Neuza pegou catapora?
Álvaro não deixava passar a oportunidade de divertir-se, não levando em conta as conseqüências. Tinha ele seus quinze anos ou menos, quando aprontou sua maior proeza.
Já a tempos, comentava com os irmãos que estava sentindo algo estranho”, e que crescera pêlos naquele lugar.
O Pai chamou-o e explicou certas coisas, de uma forma rude e rápida, sem haver maiores esclarecimentos, da mesma forma que havia explicado aos irmãos, quando estavam na mesma idade.
O menino começava a tornar-se homem, e a coisa agora era outra, pois as travessuras haviam de mudar de rumo, e foi o que aconteceu, quando uma prima., já mocinha, veio passar férias na casa dos Alves.
Criada fora da rigidez das primas, garota, já com seus quatorze anos, vestia-se com liberdade. Liberdade que Neuza e sua irmã não se permitiam, por ordem dos pais.
Mas a prima era visita, e o “Pelotão” ganhou nova “recruta”, mas com menos rigor a ela dispensado.
Álvaro, ao ver a prima circulando pela casa, com os joelhos a mostra, e os seios à saltar do colo, começou a pensar coisas que nunca havia permitido que passasse a léguas de sua imaginação, e começou verdadeiro cerco à prima .
Com o tempo, tornou-se verdadeira sombra da prima, seguindo-a como um cordeirinho faminto.
Não havia lugar que a garota estivesse, que lá não se encontrasse Álvaro com aquele seu olhar de pedinte esfomeado.
Certa feita, o alto comando” resolveu levar à tropa para almoçar fora. Foi uma correria!
No meio da confusão, a porta do quarto de hóspedes foi deixada entreaberta ,enquanto Flávia, a tal prima, trocava-se após o banho.
Álvaro, aproveitando a correria da casa, se postou frente a porta, só saindo dali quinze minutos depois, quando Flávia já estava totalmente vestida.
Embora já pronto para sair, Álvaro teve que trocar-se novamente, antes de entrar no carro do pai para o passeio.
No outro dia, pela manhã, a garota encarregada a lavagem da roupa da casa, encontrou as roupas de baixo do Álvaro como que úmidas, parecendo que haviam caído em um tonel de cola... ou coisa parecida.

PEDRO FILÓ

Pedro Filô era um daqueles que nasceram , e Deus esqueceu de dar juízo.
Já passava dos trinta anos, mas ainda vivia pelos terreiros, a dar corrida nas galinhas, empinando e fazendo quadrados, enfernizando a vida do gato, a quem amarrava latas ao rabo, só pra se divertir com o desespero do animal.
Estivera uns tempos em um hospital da capital, onde os médicos atestaram que, embora cronologicamente já passasse dos trinta anos, tinha ele mentalidade de um garoto de seus quatro anos, quando muito.
Mesmo tendo pouco juízo, Pedro Filô era um bom filho, sempre pronto a ajudar aos pais, quando chamavam.
Alto, bem apanhado, tinha ele a força de dois homens.
Vivia ele e a família, em cômodos alugados do coronel Justino, que tinha Pedro Filô em alta conta, visto que não tinha filho homem.
Coronel Justino tinha uma única filha, já com seus quinze anos e Pedro era companhia constante da menina.
Um dia, a filha do coronel Justino apareceu prenha.
Foi um Deus nos acuda!
As senhoras das redondezas comentavam o fato, e analisavam quem seria o pai.
Todos os rapazes da redondeza eram suspeitos, menos o pobre do Pedro Filo, pois não o julgavam capaz do feito.
A Joaninha, filha do coronel Justino, nunca revelou o nome do pai da criança, que nasceu nove meses depois .
O menino criou-se forte como um touro, mas com distúrbio mental, que os médicos , a quem o coronel Justino levou-o para consulta, alegaram que era um caso de atraso mental congênito, trazido desde a concepção.
O pai de Juaninha não entendeu nada que o medico disse, e trata o neto com o maior carinho.
São coisas da vida!

SERÁ QUE CHOVE?

De certa feita, na estrada que liga a cidade de Coimbra a Viçosa, na tal das Minas Gerais, dois matutos se encontraram.
Um, ia de Viçosa para Coimbra, e o outro vinha no sentido contrário, viajando sem destino.
Dizia a quem lhe perguntasse, que havia "saído para distrair as idéias", isso há uns vinte anos e ainda não havia conseguido". Portanto "não podia voltar. Voltar, seria dar prova de mentiroso, pois como podia voltar, se suas idéias ainda não estavam distraídas?"
O que tinha destino, perguntou-lhe então:
_"Será que chove?"
O andarilho, pensou um pouco... olhou para o céu... coçou a testa levantando o chapéu de palha... sentou-se num toco de árvore morta que havia ali no acostamento da estrada... enfiou uma das mãos no bolso da camisa, retirando um punhado de palha especial, enquanto que, com a outra retirava do bolso das calças, um bom pedaço de fumo-de-rôlo curtido. Depois, do outro bolso fez sair um canivete afiado... Picou um bocado do fumo, ofereceu ao outro, que recusou, porque não fumava e passou então a fazer seu cigarrinho... sem pressa nenhuma... mas, consciente de que o companheiro lhe fizera uma séria indagação.
Quando o cigarro ficou pronto, ele colocou-o nos lábios, ascendeu-o, tirou uma bela tragada, colocou o cotovelo no joelho esquerdo e virando-se para o companheiro, disse:
_"E se ma'le pregunte... Pruquê o amigo qué sabê?"
O outro matuto, que trazia às costas uma enxada de bico, dessas de desenterrar mandioca, apoiou-a no chão, encostando-a no barranco...
Arregaçou as pernas das calças, postou-se de cócoras em frente ao outro, retirou do bolso da camisa uma latinha própria para transportar rapé... tirou dela uma boa pitada... levou a uma narina, depois à outra, deu uma forte fungada... guardou a latinha, e respondeu:
_"Pur nada não... só tava puxano prosa..."
O outro, levantando-se, arrumou o chapéu na cabeça, enfiou os dedos polegares por dentro do cós das calças, um de cada lado, deu leve puxão, e levando-a até à cintura, respondeu:
_"Ah bão... nesse caso, chove não!"

Domingo, Junho 24

DONA DURVALINA

Aquele senhor, já estava sentado no banco da praça, quando Dona Durvalina passou por lá, às seis e meia da manhã, para ir enfeitar o altar de São Loureço, por causa da graça que alcançara, quando pedira ao bom Santo, para fazer com que seu marido criasse juízo e parasse de beber, pois a recomendação do médico fôra taxativa: "ou parava, ou ia ser a principal atração de um velório... o seu".
A velha senhora não estava com disposição para ser chamada de viúva, e espalhara aos quatro ventos: "ou o Santo dá seu jeito, ou o velho toma vergonha. O que não quero é enterrar-me em vestimentas de luto fechado, por um porqueira, que nunca valeu coisa alguma!"
Segundo Dona Durvalina dizia, o Santo fez o milagre, e ela pagava seu quinhão da promessa, com fervor e gratidão, pois não era mulher de dever nada a ninguém, principalmente a São Lourenço, que devia ter um prestigio dos diabos, pois conseguirá fazer o velho desistir da cachaça, coisa que nenhum ser humano conseguira, por isso todos os dias, às seis e meia da manhã, atravessava ela a praça, e entrava pela porta lateral da Igreja, indo enfeitar o altar do Santo, chovesse canivete ou tivesse um sol de lascar.
Aquele senhor, com terno de casimira quadriculada e camisa branca de mangas compridas com colarinho alto, calça azul-marinho, meio desbotada pela ação das lavadas constantes, meias brancas, sapatos pretos impecavelmente sujos de lama, gravata de seda, com motivos florais e um pequeno chapéu de feltro, com uma pena azul-turquesa do lado esquerdo, que caía-lhe sobre os olhos, estava sentado no mesmo lugar, quando Dona Durvalina voltou da Igreja, às nove da manhã, logo após a missa.
Ao meio dia, Dona Durvalina atravessou novamente a praça, pois lembrara-se que tinha de buscar massa de tomate para o macarrão, prato que resolvera preparar naquele domingo, e seu Alencar, Dono da Mercearia, arreava as portas de seu estabelecimento as doze horas e quinze minutos, pontual como o Big-Bem, só voltando às suas atividades comerciais na segunda feira.
Quando passou pela praça, tanto na ida como na volta do mercadinho, Dona Durvalina avistou o mesmo senhor, no mesmo lugar, com as mesmas vestimentas.
Eram treze e trinta, quando Dona Durvalina colocou, ao centro da mesa, a bela travessa de porcelana chinesa, com a sua já famosa macarronada, e chamou os filhos: três meninas, já gastando pequena fortuna na caderneta da farmácia de Seu Valdomiro, em absorventes íntimos, que usavam como se fossem rolos de papel higiênico; um menino de doze anos, que vivia perseguindo as meninas do Colégio Municipal, onde há quatro anos não alcançava nota para sair do primeiro ano do primário, e o mais velho, que completaria vinte e um anos no próximo sábado, com missa encomendada ao Monsenhor Nonato, que já cedera o Salão Paroquial para os festejos, já encomendados ao Buffet de Marcolina, a mesma que fizera a festança do filho do Senhor Prefeito, da qual Dona Durvalina gostara tanto...
Com o almoço à mesa, e os garotos todos sentados, Dona Durvalina, após servir um a um, também sentou-se...
Foi aí que lembrou-se:
_"Cadê o Mané?!
Foi uma correria!...
A casa foi revirada de ponta a cabeça, e nada...
Quando os garotos já estavam se cansando da procura e reclamavam que a macarronada esfriara, D. Durvalina, teve um "estalo" de memória...
_"Augusto! - falou ao filho de doze anos - Corre na praça e avisa teu pai que o almoço está na mesa. Ele esta lá, sentado no banco, esquentando o chapéu de feltro!"

A ELEIÇÃO

A eleição terminara, e o resultado levava a oposição ao poder! A situação não fizera o Prefeito e nem conseguira colocar maioria na Câmara de Vereadores, que de nove edis, só um sendo situação, conseguiu reeleger-se.
A cidade entrou em festa! Rojões cortavam o céu! Bandeiras da oposição se faziam dependurar nas janelas! Cabos eleitorais vitoriosos, festejavam nos bares e nas casas noturnas!
A casa de "Maria Cavanhaque", Dona "Cavanhaque", como os fregueses chamavam a já idosa prostituta, tinha gente que não acabava nunca. As "raparigas", com camiseta do novo Prefeito eleito, sem nada mais por baixo, cortavam o salão, numa verdadeira orgia eleitoral, "tudo, tudinho", bancado pelo "fundo de Campanha" do partido vencedor!
Na casa de "Jacinta Bigoduda", cuja dona, uma também ex-prostituta, que ganhara este apelido, pelo grande número de pêlos, que haviam se acumulado em sua "antiga fonte de renda", nada era diferente, pois suas meninas, nuas em pêlo, entretinham os vitoriosos, que conseguiam abarrotar as duas casas, transformando a rua do baixo meretrício na maior orgia que aquela cidade já tinha visto, superando e muito, a farra que montou o Bispo, quando o Papa descobriu que ele tinha o hábito de ali passar as noites, e o destituiu do cargo, levando-o a montar uma festa quase tão boa quanto esta, que a oposição estava patrocinando, com o dinheiro suado dos contribuintes do partido, que também participavam da festa, mas nem se lembravam que era o seu próprio dinheiro que mantinha as duas casas e as meninas, abertas para a farra até o dia amanhecer.
No outro dia, a cidade só funcionou normalmente após o meio-dia, pois, como diria o Seu Manoel, dono da Padaria Sol Nascente:
_"Temos uma cidade, sim senhor, mas ela dormiu com cavanhaques e não pretendem vocês quererem que ela acorde, antes de pentear os bigodes."
Lá pelas duas da tarde, o Prefeito chamou o Chefe de Gabinete, convocou seu Secretariado, e anunciou oficialmente o resultado das urnas:
_"Ele ganhou, nós perdemos... agora, somos oposição, portanto, a coisa muda de figura..."
E deu por encerrada a reunião.
Ao fim do dia, o Prefeito voltou para casa.
Na hora do jantar, o velho Coronel era o senhor Todo-Poderoso, sentado à cabeceira, o último dos grandes senhores da terra, pai de um rebanho de três filhos: dois rapazes e uma mocinha.
Após o jantar, o orgulhoso Coronel, chamou o filho mais velho ao Gabinete...
_"Tudo correndo bem meu rapaz?"
_"Tudo, senhor meu pai!"
_"Como estão eles encarando a coisa?"
_"Otimamente senhor... sem problemas!"
_"Está certo "senhor Prefeito"... faça uma boa administração e não me deixe dívidas, para que eu as tenha que pagar daqui a quatro anos!

SUICIDA

Parado à beira de um rio profundo, um homem resmungada consigo mesmo.
_Me jogo, ou não me jogo? Acho melhor jogar-me logo, e acabar com isto!
Um senhor, de certa idade, que passava pelo local, escutou aquilo e resolveu intervir.
_O que é isto moço? Porque quer se matar tão jovem?
_A vida não me vale de nada! Minha esposa trocou-me por um caixeiro viajante; meu filho esta preso, por roubo; minha filha se prostituiu e não sei onde anda; meu filho do meio, levado pelo irmão anda não sei onde, traficando bolinhas; a minha sogra, depois que minha mulher se mandou, nunca mais quis saber, nem de mim ou de meus filhos; meus amigos me devem uma nota preta, e não me pagam nem os juros, minha amante {que eu não sou de ferro} apareceu de barriga. Tenho certeza que o filho não é meu: o senhorio pediu-me a casa, e já recebi a ordem de despacho: meu carro, que comprei à prazo, a financeira tomou de volta, por falta de pagamento: a companhia telefônica cortou a linha lá de casa, só porque não paguei a conta: fui assaltado ontem a noite, e o ladrão levou meu relógio rolex, que ganhei de meu pai: nervoso com o assalto, cai em um buraco perto de casa, e acabei quebrando meus óculos; Tive uma discussão com o padre, e ele me excomungou da igreja; fui no centro de Pai de Ogum, e o guia me disse que costuram meu nome na boca de um sapo: minha empregada pediu as contas, por falta de pagamento: meu cachorro, que criei desde pequeno, atacou-me ontem, e por pouco não me tirou um bife da canela; e ainda por mal dos pecados, minha mãe se recusa a falar comigo, porque diz que não criou filho pra ser corno. O que o senhor faria, numa situação destas?
_Me sentava em frente a TV, e assista a um bom filme...
_A TV pifou a semana passada!
_Então monta um joguinho de buraco...
_Não posso! o desalmado do cachorro comeu as cartas!
_Então vá fazer uma viagem...
_Ate que eu ia, mas não tenho dinheiro prá passagem...
_Vá a pé’!
_Sofro de gota!
_De bicicleta!
_Os pneus estão furados!
_Que tal uma pescaria?
_Não sei pescar!
_Passear a beira mar...
_A salitre me faz mal...
_Um passeio de canoa...
_Sofro enjôo...
_Escutar rádio...
_Sou meio surdo...
_Porque então não da um tiro nos miolos?
_Pensei nisso , vendi o revolver à tempos, pra comprar comida!
_Porque não assalta um banco! Você reage, e a policia te mata!
_E se não matarem?
_Te prendem, ora !
_Ai fico vivo!
_Mas na cadeia, e mais fácil morrer!
_Como!
_Te enforca com os lençóis!
_E se não derem lençóis?
_Eu não sei
_Então vamos fazer o seguinte: olha pra aquele lado ali, é da um Alô pros parentes, pois você acabou de participar da “pegadinha do Faustão”!

EITA CIDADE PORRETA....

Aquela e uma boa cidade , com uma boa população.
A Igreja Matriz fica na praça 2 de julho , ao lado da agência do Banco do Brasil , onde seu vigário tem conta corrente , que sempre esta no vermelho.
No terreno da Matriz , fica a casa paroquial , onde mora o seu vigário , Ederaldo , o sacristia e Carmem , sua esposa , dona de um corpo estruturalmente bem proporcionado , que a turminha de parceiros de turco , juram que é amante do vigário , mas nunca se conseguiu provar o “corneamento compulsivo” do Ederaldo , mas assim mesmo segue o comentário, que já ultrapassou a mesa do jogo de truco, com certeza.
Do outro lado da praça , fica a padaria do Germano , o cinema e a casa de dona Elclacia, a dona do terreno onde o Marcos “boa boca” montou o único posto de gasolina da cidade, e ficou rico.
Elclacia, além do terreno do posto, é também a dona de todas as casas da rua de baixo, onde fica a casa de Maria Boa Bisca , que recolhe meninas desprotegidas pela vida e as coloca a disposição dos amigos, mantendo a casa aberta, com festa todo dia, a partir das nove da noite.
Elclacia é viuva do Honorário, que foi prefeito, mas isso a muitos anos , quando a cidade valia a pena. Agora, em tempo de eleição, os partidos tem que catar candidato quase a unha, pois o orçamento da cidade não da pra nada!
Filomena dos Santos, Dona Filó, é a única professora da cidade . O ordenado de Filomena e tão pouco que, pra sobreviver, Filó faz “bico” na casa de Maria Boa Bisca. Como se não bastasse o ordenado ser uma miséria Filó não recebe a oito meses, pois a prefeitura alega não ter recursos. Com isso, ganha a cidade, pois a mesma professora que ensina o ABC para os pequenos, ensina o resto da lição, para os mais velhos.
Diz o prefeito que isso é democracia, e ninguém discorda dele, pois afinal a Filó é boa professora e sabe bem dar suas aulas, indo muito além do que diz os planos educacionais da Prefeitura.
A Carmem veio para a cidade com um grupo de ciganos , e se perdeu de amores pelo Ederaldo que estava ainda “ensaiando” para ser sacristão e, quando os ciganos foram embora, Carmem ficou.
Seu vigário apoiou o casal , fez o casamento e deu ao Ederaldo o cargo de sacristão. O mais estranho é que, antes disso, seu vigário nunca quis ninguém na casa paroquial, mas agora anda à comprar roupas pra Carmem, que anda pela cidade em tal luxo que coloca a Maria das Mercês, filha do coronel Fugêncio, nos chinelos.
Não e toa que a turminha do truco fala que o padre passa o Ederaldo pra traz.
A cidade fez movimento pra expulsar a tal da Carmem, quando os ciganos foram embora , mas seu vigário conteve os ânimos.
Agora, com o passar do tempo, Carmem já tem seu espaço, sendo inclusive filha de Maria, respeitada até pelo João Curtido, que vive de porre, vive na praça e faz “xixi” na campa do pobre do Honório, todo dia de Finados, em honra do amigo.
Quem não gosta muito desta “Honraria” com o Honório é a viuva, dona Elclacia, que molha sempre os cotovelos, quando vai rezar o terço no cemitério, em dia de Finados. Aliás, Elclacia reza um terço pró marido, ao lado da campa, no cemitério, todo santo dia às seis da tarde. Seu vigário tá cansado de dizer que é exagero, mas a viuva não leva a sério o aviso do padre, e atrasa o fechar do cemitério todo dia.
Talvez esteja na hora da viuva saber que o Honório não era lá este santo que todo mundo diz, pois mantinha casa montada, sem que a Elclacia soubesse, pra Joana do Peito Caído, ex-afilhada de Maria Boa Bisca, lá na rua do cartume, mas não há quem ganhe coragem de contar pra Elclacia.
É coisa que todo mundo sabe, menos a pobre viuva.
O mais engraçado de tudo isso a Joana Peito Caído, que “na vida civil”, tem o nome pomposo de Joana Albuquerque, vive de “leva e traz” com Elclacia, pois as duas são filhas de santo do terreiro de Pai Germano, no morro do cemitério. Passam o dia de Sexta-feira as duas, lado a lado, fazendo os tais quitutes para os santos e, no cair da noite, lá estão as duas, na reza do atabaque. Preparam o banquete, todo enfeitado com lírios silvestres, doces diversos, salgados, farofa sem sal e sem açúcar e o galinha preta. Pouco antes do barracão abrir, há o banho das sete ervas, que Joana prepara com esmeros. Ao cair da tarde de Sexta-feira, pouco depois do crepúsculo, Joana Peito Caído abre as portas do barracão e começa o chegar do povo, gente humilde, trabalhadores do corte da cana, que escolheram o barracão, ao invés da majestosa igreja matriz.
Quando as badaladas da matriz avisam que já são oito da noite de Sexta-feira, Elclacia sai do quartinho e senta-se na cadeira de espalmo longo, no centro do barracão. Agora não e mais a dona da rua de baixo, a proprietária do terreno do posto de gasolina, viuva do Honório; filha de Maria.....
Hoje e Sexta.
Dia de função no terreiro de Pai Germano, onde dona Elclacia e mãe pequena.

JOÃO DE DEUS E O COBERTOR SALTANTE

A casa se localizava à beira da estrada. Fôra construída em barro, jogado aos montes, sobre a armação de bambu, tanto por fora quanto por dentro...
Era uma casa de três cômodos, sendo sala, cozinha e quarto, com um banheiro no fundo do quintal.
Nas paredes, já se via o surgir do musgo, que ali se formava por excesso de umidade e escassez de cuidados com o imóvel, que a Unidade Municipal de Saúde, já constatara por duas vezes, estar com foco do "Barbeiro", o inseto transmissor da "doença de Chagas"!
Mas os proprietários continuavam ali, sem arredar o pé, tomando água de uma fonte natural não potável, que corria a céu aberto, descendo do barranco de barro vermelho, que se podia ver aos fundo do quintal.
O casal de idosos, que nos fins de tardes sentava-se à porta da frente, a menos de dez passos da movimentada rodovia, trazia no rosto as marcas do tempo, e no andar, o peso da idade...
Eram os avós do pequeno garoto, que corria sobre a luz do infinito, tentando capturar um pequeno coelho do mato, que teimava em deixá-lo chegar perto, mas corria-lhe das mãos, em saltos, que faziam o menino se divertir.
A esperteza do animal, o estimulava, ao ponto de não o deixar desistir de colocar-lhe as mãos.
Não o iria transformar em sopa, ou na refeição do dia...
O queria como mascote, como companheiro de aventuras, como aquelas que o avô contava-lhe, quando estava de "boa maré", sobre o homem "caolho", de óculos e chapéu de couro cru, que havia existido no antigamente, e que havia perdido a cabeça junto com uma bela mulher, só porque queria justiça, nada mais do que justiça!
Por certo, para conseguí-la, foi vez por outra injusto, mas o erro é dos mortais, e como dizia seu avô:
_".... O homem foi macho!"
Pois é. Queria ser macho também, e não seria aquele "Cobertor Saltante", que o faria desistir de ter o seu mascote, não senhor!
Queria, porque queria, e pronto...
E era "aquele mascote"... Outro não o contentava!
Já se acostumara com ele, ora bolas!
O tio, que morava na cidade, já havia lhe trazido um "vira-latas", mas o pestinha foi atravessar a pista, não se sabe para que, e... virou adubo do roseiral do avô, que lá o enterrou, com direito a uma cruz de galho seco, e lá ainda estava ela, já com uma roseira lhe aproveitando como apoio.
Pelo menos, depois de morto, o "pestinha" do vira-lata servia para alguma coisa, pois a roseira da cruz, era a que melhor estava aguentando o calor que estava fazendo...
O asfalto da estrada, ficava marcado com os pneus das "jamantas" pesadas, que passavam numa velocidade tamanha, que se podia escutar até o vento, assobiando...
Mas o danado do "Cobertor Saltante", não se assustava com o barulho da estrada. A única coisa que o assustava um pouco, mas também não era muito, era a vassoura da vovó, quando ela resolvia, vez por outra, varrer o chão batido e levantar poeira...
Mas não era só o "Cobertor Saltante" que reclamava...
A mãe do menino, uma moça que a uns tempos atrás resolveu ir de carona até a cidade, e ao voltar, trazia já no ventre seu rebento, sem saber direito explicar quem havia sido o caminhoneiro com quem passara a noite, também reclamava com a anciã, este seu costume, principalmente se o praticasse, quando a roupa estava no varal. A moça tinha que lavar tudo de novo, pois os lençóis que já não eram tão brancos como deveriam ser, ficavam amarelos, "que nem se tivessem com ecterícia", como dizia ela, reclamando com sua mãe...
Quem também não era muito chegado no varre-varre, era o velho, que na noite em que a velha tinha esses "ataques de limpeza", não pregava o olho, numa tosse danada, e um pigarro que ardia-lhe a garganta.
O "Cobertor Saltante", quando a idosa senhora começava o varre-varre, se escondia em sua toca, e lá ficava, até que ela desistisse da tarefa de limpeza.
O menino era outro que não gostava, mas não era por nada não. Ele não gostava, é porque com a poeira que se levantava com o uso da vassoura, ele não conseguia ver onde seu companheiro se escondia, pois, se soubesse, já estaria com ele ao seu lado há muito tempo, desde o dia , em que a mãe não o viu sair do cercado, e o pegou ainda engatinhando ( pois não tinha mais do que uns seis meses), quase já no meio da pista, indo atrás daquele a quem hoje já chama de "Cobertor Saltante", mas que naquele tempo chamava apenas de... - "dá...dá...dá..."
Mas o tempo do dá...dá...dá... , já era passado...
Daqueles tempos, ao hoje, já se podiam contar seis longos anos de correria cansativa pelo chão batido, com o menino, sempre a três ou quatro passos atrás do "Cobertor Saltante"...
Às vezes, quando o tempo mudava e a chuva caía, transformando o barro batido em lama vermelha, a jovem mãe não deixava o valente corredor sair de casa, e ele ficava pelos cantos, brincando com meia dúzia de gravetos, vez por outra procurando pela janela, com aqueles seus olhinhos vivos, o companheiro de aventuras, e sempre o via a saltar na chuva, refrescando-se...
Naqueles dias de chuva, além dos bolinhos de farinha de trigo, água e açúcar, queimados na gordura quente, eram os dias das perguntas:
_"Mãe, por que o vô é vô?"
_"Porque ele é meu pai, filho.."
_"E por que eu sou filho?"
_"Porque você nasceu de mim..."
_"E cadê o meu pai?"
_"Não sei... Deve de tá por aí..."
_"E como é meu nome?"
_"João de Deus!"
_"Por que... de Deus?"
_"Porque foi Deus que te deu prá mim!"
_"E não me deu prá um pai também?"
_"Não sei..." - Uma lágrima rola dos olhos da jovem mãe...
_"Mãe!!! Porque que ocê tá chorando?"
_"Não é choro não, filho... É cisco!
_"Há! Bão! Deixa eu assopra, que passa..."
Certo dia, um carro bonito, com quatro grandes portas e um cavalinho de aço no capô, parou frente à casa...
Dele, saiu um senhor, que a mãe apresentou ao menino como sendo o seu Tio Antônio, que viera da cidade grande, em visita aos velhos.
Após beijar o menino, levou o estranho mais de duas horas, em conversa com a jovem senhora.
Quando terminou a conversa, a mãe chamou João de Deus, e lhe disse:
_"João, você já está ficando um rapazinho. É hora de você estudar, ir para a Escola, ficar inteligente... O Tio Antônio veio da cidade, para buscar você. Você vai morar com ele, e a Tia Gertrudes, mais a Magda e a Hortência, suas primas..."
_"E ocê, mãe?"
_"Eu vou ficar aqui, para cuidar da vovó e do vovô..."
_"E eu num posso ficar não?"
_"Tá na hora de você ir pro Colégio, e aqui não tem Colégio... Só lá na cidade, onde mora o Tio Antônio mais a Tia Gertrudes..."
_"E eu não vou voltar mais?"
_"Vai... Quando puder... Nas férias..."
_"E o "Cobertor Saltante"?"
_"Quem?"
_"Meu amigo... o "Cobertor Saltante"!"
_"Há... Teu Coelho... Eu cuido dele prá você!"
"Ocê num esquece de dá comida e água?"
_"Não esqueço não, filho..."
_"Promete, mãe?"
_"Prometo, filho!"
_"E ocê vai ver eu?"
_"Vou... Assim que puder..."
_"Óia, mãe, se o pai aparecê, dizendo que Deus deu eu prá ele também, dá o endereço do Tio, e manda ele levá o "Saltante", prá passá um tempo comigo... Talvez, com a aula lá no Colégio, eu aprenda a correr mais que o "Cobertor", né mãe?"
_"Talvez, filho... Talvez..."
_"Intão eu vou!"
A jovem mãe, com lágrimas nos olhos, arrumou as roupas do menino na única mala da casa, uma antiga maleta de papelão... Deu banho no garoto numa antiga bacia de alumínio, que o avô usava para lavar os pés, trocou-o com a roupinha nova, que o Tio lhe trouxera, e lá foi João de Deus, para a cidade grande, tentar ser que nem seu Tio Antônio: estudar, ser gente, ter carro grande... e esquecer pai e mãe...
Dois dias se passaram...
O pequeno coelhinho vinha até a porta da casa, corria de um lado para outro, fazia festa, e como João de Deus não aparecia, sumia pela vegetação rala e as moitas de capim...
Na manhã do terceiro dia, não houve festa na porta da casa...
Nem correria, de um lado para outro...
Bem em frente à casa, na estrada, jazia "Cobertor Saltante", que um caminhão havia atropelado...
Virou adubo de roseira, o amigo de João de Deus.

A PRIMEIRA MISSA

O menino partira, de perto de seus pais, aos doze anos, levado pelo Sacerdote, que resolvera fazer de seu coroinha mais fiel, o seu sucessor.
Arrumara a matrícula do garoto no Seminário, e todos os meses, mandava-lhe notícias de Seu Juca e Dona Ester, pais do noviço, gente humilde, que se sustentava com a venda do trabalho braçal de Seu Juca, como meeiro de Manoel Paranhos, o proprietário da terra e padrinho do menino, que todo orgulhoso, espalhava aos quatro ventos, que brevemente, seu afilhado seria Bispo, se não conseguisse ser Papa, já que em Roma seu prestígio de Coronel era pouco.
Mas Bispo, batia o pé que conseguiria fazer do garoto, nem que para tanto, tivesse que "queimar" alguns cartuchos na política da Capital...
_"O filho do Juca vai ser Bispo, sim senhor!"
O Seu Juca, o pai, pouco falava sobre o assunto. E só concordara com o Seu Vigário, porque Dona Ester lhe pediu muito, e não negava nada a sua esposa.
Ele era "espírita de carteirinha", com cadeira cativa no Terreiro de Pai-Ogum, e não se sentia muito bem com aquela história toda, ainda mais com a conversa do Coronel, espalhando aos quatro ventos, que o menino ia virar Bispo...
Já estava fazendo dez anos, que o menino deixara a Vila, com aquela conversa de ser Padre, e Seu Juca, nunca mais o vira...
Naqueles dez anos, sujeitou-se a trabalhar feito mula, para que Dona Ester, pudesse comprar à prestação no Turco, os paramentos e as batinas necessárias para que o filho realizasse sua Primeira Missa, que segundo o Seu Vigário, iria acontecer no próximo domingo, às dez horas, com a presença do Bispo, do Senhor Prefeito, do Seu Coronel, e todos os padres das Paróquias da redondeza, segundo mandava os tais dos "rituais", coisa que Seu Juca, não entendia muito bem mas, "se era o gosto de Ester, vá lá... que se compre os tais Paramentos... e as tais batinas... e que se realiza o "ritual..."
Que Ester mande fazer seu vestido bordado, na Mariquinha Costureira... Ele, o velho Juca, vai à missa com o terno de sempre...
Só para seu "desencargo de consciência", pedira a Pai -Ogum para jogar os Búzios para o rapaz, e o santo ditara:
_"O menino será feliz, e que o pai conforme-se, e apoi-o, se puder..."
O domingo chegou...
Às oito, chegou o rapaz, em carro especial do Bispado, e trancou-se na Casa Paroquial...
_"Nem sequer foi dar um beijo na mãe, o ingrato!" - Pensou com seus botões, Seu Juca...
Às oito e quarenta, chegava ao casebre de Seu Juca e Dona Ester, um "Padreco" desconhecido, dizendo-se representante Oficial do Bispado, e ali estava, por ordens do Senhor Bispo, para orientá-los e leva-los à missa.
Seu Juca olhou o relógio, fez as contas, e respondeu:
_"Óia, Seu Padre, a cadêra taí... O Sinhô senta, e ispera, inquanto eu vô dá mio prás galinha e lavage prus porco... A Ester, vai sirvi um cafezim pro Padre!... É gostoso, pruque nóis adoça cum rapadura. O Sinhô fique à vontade, viu?!"- e saiu...
Dona Ester serviu o café ao "Padreco", e "entrou na prosa", contando para o Padre, quase toda a história do filho. Às nove e meia, Dona Ester entrou para se arrumar, colocando o vestido negro, bordado na gola, nas mangas e na barra, vestimenta que a renovava uns vinte anos...
Seu Juca, após lavar os pés em uma bacia de alumínio, entrou também para o quarto, deixando ao "Padreco" como companhia, a velha Maricota, uma galinha caipira, orgulho de Seu Juca, que Dona Ester ameaçava transformar em canja todo domingo.
Às nove e cinquenta, saiu do quarto o casal...
Seu Juca, com terno negro, gravata preta e camisa branca, com punhos e gola engomados, além do cabelo muito bem penteado para traz, e a barba perfeitamente escanhoada, estava irreconhecível...
Em companhia do "Padreco", deixaram o casebre...
Quando o casal entrou na Igreja, lá encontrou toda a cidade, espalhada pelos bancos. Até Pai-de-Ogum , lá estava, com seu terno de linho branco, e camisa da mesma cor, tendo como campainha sua esposa, e como gravata, suas "guias de santo", além das filhas de seu terreiro, todas ricamente vestidas com os paramentos de seus respectivos "santos de Cabeça"...
O Coronel, também lá estava, com sua esposa e filhos, todos com a roupa de domingo, muito bem vestidos, por sinal...
Ao canto na nave, Seu Juca avistou a turma do Truco, seus amigos do "Buteco do Juarez", todos inacreditavelmente sóbrios, acompanhados por suas "elegantes" esposas...
Ao fundo da nave, foi Dona Ester que viu "Maria Pouca Roupa" e suas meninas, e pensou: - "Não é lugar pr'essas decaídas!" - Mas quando ia reclamar com Seu Juca, ele a chamou para sentar-se no lugar a eles reservado, no primeiro banco.
Sentaram-se, tendo ao seu lado o Senhor Prefeito, sua esposa e a única filha do casal, com seus dezoito anos, ainda solteira e descompromissada...
Dizem as más línguas, que a moça é tão virgem como no dia em que nasceu, pelas mãos de Dona Violeta, a parteira, "única autoridade médica" daquele fim de mundo, como diria o Justino, o Farmacêutico, sentado ao lado de Dona Violeta, dois bancos atrás de Seu Juca...
Lá também estavam todos os filhos do Terreiro de Pai-Ogum, por força do convite que lhes levara o Representante do Bispado, quem nunca mais esqueceria, o vexame de ter que entrar num "terreiro de macumba", só por causa dos caprichos de um jovem Padre, que fazia questão da presença de todos os seus amigos, sem distinção de raça, cor ou religião, isto sem falar na ideologia, pois o Farmacêutico, Seu Justino, era "Comunista"...
Todos em seus devidos lugares, o Órgão da pequena Igreja se fez escutar. E teve início, aquela que seria a Primeira Missa do menino, que um dia fôra Coroinha, naquele mesmo altar...
Seu Juca e Dona Ester, com os olhos rasos d'água pela emoção, viram, depois de dez longos anos, seu menino saindo da Sacristia, e subindo os três pequenos degraus que levavam ao altar...
Se tornara um homem!
Tornara-se robusto, forte, porte atlético, rosto fino, barba comprida e bem aparara...
Dona Ester, ao vê-lo usando os paramentos que comprara no Turco, e ainda não acabara de pagar, sentiu uma lágrima molhar-lhe o rosto...
"Maria Pouca Roupa", ao ver tal figura, puxou uma de suas meninas pelo braço, e sentenciou-lhe ao ouvido:
_"Que disperdício de homem!!!"
O Coronel, também puxando sua esposa pelo braço, disse-lhe:
_"Será nosso Bispo, não tenha dúvidas!!!"
A parteira, com os olhos úmidos, virou-se para o Farmacêutico, e falou:
_ "Nasceu raquítico... Olha só no que se tornou!"
Na hora da comunhão, o jovem padre desceu do altar, ajoelhou-se aos pés da mãe, e lhe disse:
_"Mãe, dá-me sua benção!"
Dona Ester, profundamente emocionada, beijou a testa do filho, que logo depois levantou-se, e estendendo a mão, cumprimentou o pai, dando-lhe um grande abraço.
Seu Juca sentiu então, uma lágrima correr-lhe a face, e disse-lhe baixinho:
_"Deus te abençoe, filho meu!"
O rapaz, quando voltou ao altar, trazia os olhos marejados, e duas lágrimas, lhe molhavam as barbas...
Ao fim da missa, o Bispo anunciou:
_"Minhas senhoras e meus senhores, caríssimos paroquianos, de amanhã, em diante, sua paróquia ganha novo Sacerdote: o Padre Joaquim Bernardo, filho da terra e amigo de vocês. Aos seus pais, os meus mais profundos respeitos, e ao jovem Sacerdote, minhas bênçãos pessoais e o meu desejo sincero, de que tenha de Deus, a ajuda para sua missão!"
Foram quatro dias e quatro noites de festa...
O Prefeito, decretou feriado municipal...
O Coronel mandou matar oito bois, dois por dia...
A parte líquida da festa, correu por conta do "Buteco do Juarez", pagamento feito pela "Turma do Truco"...
"Maria Pouca Roupa" abriu sua casa gratuitamente, em comemoração ao belo Padre, que a Matriz ganhava...
Um mês depois, já se podiam ver as mudanças...
Toda a "Congregação das Filhas de Maria", se renovara. Na listagem, apareciam os nomes de diversas filhas de fazendeiros da região, que nunca frequentaram, com bom grado, as atividades da Paróquia, indo às missas dos domingos, quase aos trancos, por imposição dos pais...
De uma hora para outra, todas corriam à Sacristia, dando seus nomes como integrantes da Congregação.
Até a filha do Prefeito, colocou seu nome entre as novas "Filhas de Maria"!!
A Igreja, com o novo Padre, abriu conta no Banco, para fazer frente a uma reforma, já necessária de há muito...
O jovem Padre encomendou da Capital, um novo Jogo de Sinos para substituir o antigo, pequeno e já ganhando ferrugem...
Em menos de um ano, a cidade ganhava nova vida. Parecia que o "belo Padre", com sua mentalidade evoluída, fizera a cidade se renovar...
A nave foi reformada em seis meses, tempo recorde, ficando ainda "boa importância", na conta bancária...
Dois meses depois da inauguração da nova Nave da Matriz, uma "bomba" estourava na cidade!...
O filho de Seu Juca e Dona Ester, não era mais o Sacerdote da Matriz...
Era agora "Filho do Terreiro de Pai-de-Ogun", e... noivo de Marcolina, filha do Senhor Prefeito, grávida de quatro meses.

A SOBREMESSA

Dona Carmela, era há mais tempo que a memória se lembra, a responsável pela Agência dos Correios da pequena cidade, onde tudo era de conhecimento de todos, e os segredos dos "antigamente", guardados a sete chaves, das quais, Dona Carmela, já tirara cópias de há muito!
A vida de Dona Carmela, viúva há tanto tempo, que nem mais sabia onde andava a sua certidão de casamento, era a de uma senhora de meia idade, embora comentassem vez por outra, que algumas noites, a boa senhora, deixava a porta dos fundos aberta, por onde entrava Seu Malaquias, altas horas da noite, pé-ante-pé... e só saía pouco antes do galo cantar.
Comentavam que Dona Carmela fazia o pobre do Seu Malaquias suar frio, frente às posições eróticas que inventava, à luz do lampião...
O finado, aparecera morto certa manhã, nu em pêlo, com os olhos arregalados e um sorriso sacana aos lábios...
O médico, chamado às carreiras, constatou que o pobre morrera do coração!
Assim ficara viúva Dona Carmela, que acostumara-se, com o correr do tempo, a deixar a porta dos fundos aberta...
No dia anterior ao velório do finado, Dona Carmela, mestra de forno e fogão, preparara para a janta, moqueca de linguado, regada a azeite de dendê, e contava, algumas horas antes do sepultamento de seu marido, que o finado, havia se empapuçado com sua deliciosa iguaria!
Contam, aqueles que ao velório compareceram, que o defunto teve de ser enterrado com a barrigudinha, das calças, aberta, pois não houve "Cristo" que conseguisse fazer seu "mastro" baixar a bandeira!
Motivo foi de risos no "Buteco do Turco Abdala", amigo do falecido, onde o finado passava as horas da tarde, em constante contar de causos...
Dona Carmela arrumou a maior confusão no velório, quando "Joaquina Prega-Aberta", uma velha cafetina da cidade vizinha, resolveu aparecer, com "duas fulaninhas"...
O trio, encostado ao caixão, chorava aos soluços, enquanto a velha cafetina, alisava o "mastro", que não descera a bandeira...
O enterro do finado foi o mais concorrido da cidade, pois o caixão, por causa da altura do "mastro", não fechava, e teve de ir de casa ao cemitério aberto!
Seu Lindolfo, velho amigo do falecido, mas "sarrista de carteirinha", garantia no velório, de "pés juntos", que o que matara o finado, não fôra a moqueca de linguado...
-"Foi a sobremesa, preparada com esmêro e qualidade, que só a comadre Carmela sabe fazer!"

DIA DE ELEIÇÃO

Panfletos de propaganda eleitoral manchavam a cidade, transformando cada de suas principais avenidas em um tapete de papel picado.
Eram os chamados “santinhos”, de todas as cores , tamanhos e tendências, pois a câmara municipal ia renovar-se e o todo poderoso prefeito deixava a cadeira, coisa que levou um punhado de “bons cidadãos”, e outro punha de novo “não tão bons assim”, a concorrerem aos cargos vagos.
Era uma verdadeira “salada de frutas partidária”, pois nada menos que seiscentos possíveis candidatos lançaram-se na disputa, era um candidato para pouco mais de duzentos eleitores, quando isso.
Um por cento, ou mais da população, estava diretamente envolvida na eleição. Indiretamente, acabou se envolvendo o restante, e a cidade ganhou movimentação nunca visto!
Geraldo da Rosa, que tinha esse nome por estar casado com Rosa Adelaide, a eterna miss da cidade era o dono do Bar Sport, onde a oposição fazia o seu quartel general, e foi no bar do Geraldo da Rosa, que tudo começou.
Miguel Borboleta, o vendedor de bilhetes da federal, que também era “escrevinhador” do bicho, foi agredido fisicamente pela “turma da situação”, no comissão da praça, e baixou no Bar Sport, depois do acorrido, com enorme hematoma no rosto, além de vários arranhões pelo corpo, contando sua história, para quem tivesse paciência de escutar.
Geraldo da Rosa , um dos “cabeças” da oposição acabou por pegar as dores do borboleta e, juntando-se com uma meia dúzia, foi atrás dos agressores.
O encontro dos grupos, aconteceu em frente a igreja matriz, com o sol à pino.
Foi uma pancadaria dos diabos, pois até Maria da Foice se meteu, e acabou com fratura exposta na perna direita, e deu início a outra briga, pois sendo a Maria dona da “casa das tias”, reduto do baixo meretrício, o Álvaro da farmácia, única autoridade no ramo da saúde em toda a cidades negou a acudir a perna sangrenta de Maria da Foice, e a pancadaria recomeçou agora entre os amigos de Maria e os amigos do Álvaro, que acabou atendendo a ferida, pois o José das Dores deu fim na briga, com um tiro de doze, que disparou no forro da farmácia, ameaçando “estourar” a cabeça de Álvaro, se não atendessem Maria, como ela merecia e necessitava.
O Álvaro percebendo que o Zé falava sério, atendeu a Maria, mas o fez de tal má vontade, que a pobre nunca mais andou direito, ficando com a perna torta.
Quando a turma saiu da farmácia, para levar Maria para seu “palácio”, a coisa esquentou novamente.
A praça pegou fogo, pois as “mães de família” da cidade não gostaram nada de verem seus “santos maridos” defendendo Maria da Foice, e a coisa esquentou.
A confusão se generalizou, com marido apanhando de frigideira, pau de macarrão e cabo de guarda chuva.
Quando deu cinco horas, foi que o Geraldo da Rosa se lembrou que ainda não havia votado, e foi uma correria dos diabos até o local da votação, com “empurra - empurra” na fila e outras coisas, que nem e bom falar.
Dr. Marcolino, o juiz eleitoral, diante da confusão formada, deu ordem para se prolongar por meia hora a eleição, e ai o tumulto se generalizou, pois a situação armou o maior banzé contra a decisão de Dr. Marcolino.
A eleição ganhou novo aliado: o desrespeito a lei, pois Dr. Marcolino errou, e a situação errou também, sem falar no Geraldo da Rosa, que berrava que nem um desesperado , defendendo seu direito de votar fora da hora legal.
Seis horas da tarde, seu Lindolfo, chefe dos correios, trouxe um telegrama.
O Tribunal Eleitoral da capital do Estado, diante do ocorrido, anulava a eleição na cidade.
O resultado foi uma briga bem maior!
Foram três dias de confusão generalizada, com saldos negativos para todos os lados!
Dr. .Marcolino respondeu processo de crime eleitoral; Geraldo da Rosa foi preso, por desacato à autoridade, pois deu um murro no sargento Custódio; “vai de valsa”, bêbado enveterado da cidade, foi enternado com trauma alcóolico, por comemorar a vitória de ninguém; Miguel Borboleta teve que vender a casa , do alto do morro, para pagar o prêmio da milhar, pois na confusão, esqueceu de passar a banca o jogo que João das Coves mandou “escrevinhar”, e o João acertou na cabeça, no terceiro prêmio; Masculina Cavadão, filha da Maria da Foice, resolveu “tomar as dores” da mãe, e deu um surra “de criar bicho”, no Álvaro da farmácia.
Dona Masculina, do Açougue Pé de Vento, o único da cidade, não contente com a confusão que ajudou a armar, frente a matriz, pegou o marido desprevenido e rachou a cabeça do pobre, com uma perna de boi, levando o pobre para a UTI do hospital da cidade vizinha.
Na confusão, o vigário da matriz esqueceu de ir até o leito de morte do Analecto, que foi mordido pelo cachorro do Horácio e contraiu raiva.
O pobre acabou morrendo sem extrema-unção!
Maria das Dores funcionaria da coletoria estadual, foi pega sentada no colo do chefe e acabou perdendo o emprego, por atos imorais, tendo que pedir abrigo na casa de Maria da Foice, pois seu marido a expulsou de casa só com a roupa do corpo, causando forte comentário em toda cidade.
O Juarez, dono do posto de gasolina, com a confusão, resolveu fechar o posto mais cedo e ao voltar para casa, fora de hora, encontrou a Joana , sua mulher, só de calcinhas como Marcondes, na sala de estar, no maior carnaval.
Com o susto e a emoção, de se descobrir “corno” coisa que a cidade toda já sabia, menos ele, o Juarez caiu para traz mortinho da silva, com enfarte fulminante.
Como se não bastasse a Carlota, filha do Horácio, o dono do cachorro que mordeu o Analecto, recebeu a noticia de gravidez precoce.
Na altura de seus quinze anos, foi ela contar a grande novidade pro Zé, seu namorado. O rapaz, diante do fato consumado, perdeu as estribeiras e plantou a mão na Carlota, num surra que deu gosto, alegando que o filho não era seu. Carlota, em desespero, jogou-se na ribanceira do rio, sendo encontrada horas depois, com uma hemorragia dos diabos.
A cidade só voltou ao normal depois que o vigário, já recuperado do esquecimento da extrema-unção do Analecto, benzeu com água benta casa por casa.
Só quem não quis a casa benzida foi dona Masculina, pois era filha de santo do terreiro de Pai Onofre, mas providenciou limpeza ao seu modo.

FOFOCAS DE BAIRRO (.)

O dia amanheceu chuvoso...
A goteira do quarto de Leocádio pediu urgentemente, a presença da panela, que sua mãe correu para colocar no chão, aparando a água que pingava, antes que tudo se transformasse numa poça, como acontecera na última vez.
_"Menino! Tem que subir no telhado, e arrumar a telha!"
_"Amanhã, mãe... Sem falta!"
Era a mesma conversa, toda vez que chovia...
Leocádio era noivo de Mercedes, a filha do meio de Dona Esperança, que morava na rua de baixo, no sobrado que fora do José Messias, o mesmo que embuchou a filha da Rosária, e teve que casar às pressas.
O casamento durou pouco, e o José Messias vendeu o sobrado para a mãe de Mercedes, quase a preço de bananas, com medo das pragas que lhe rogou Rosária, Mãe-Pequena do terreiro de Pai-Marinho, dito e falado que recebia uma esquerda que conseguia secar pimenteira, só no olhar atravessado daquele já idoso homem de côr, com cabelos côr de neve, sempre vestindo branco, trazendo ao pescoço, aquela montoeira de colares de contas multi-coloridas, que tanto assustaram José Messias, quando foi lá no terreiro, procurando Dona Esperança, viúva de há pouco, e lhe ofereceu o sobrado, por um preço tão barato, que a viúva não teve como recusar, mudando-se oito dias depois, pouco antes de Mercedes fazer seus doze anos.
Já faziam dez, que vivia ali a velha viúva, Marcolino, seu filho mais velho, com seus já trinta anos completos, professor de Música e, diziam os rapazes, "meio afeminado"; Mercedes, que já estava com seus vinte e dois e era Professora Primária, e a mais nova, Efigênia, com dezoito anos, namorada do Joguimar, motorista da ambulância do ambulatório da Prefeitura, que ganhava tão pouco, que para economizar, filava a bóia na casa da sogra todos os dias, e comentavam as más línguas, já passara Efigênia "nos cobres", e já fazia tempo...
Gente simples, a família da noiva de Leocádio, filho único de Dona Mariinha, e Seu Epifânio, que era padeiro por profissão já há mais de dez anos, sendo o profissional da Padaria Nova Lisboa, de propriedade do velho português, Seu Joaquim, pai da Rafaela, que as fofoqueiras do bairro não cansavam de chamar de perdida, só porque gostava de namorar com o Agrimaldo, filho do dono do Posto de Gasolina, atrás do muro do Cemitério, e vez por outra, era vista no "Buteco da Vovó", um recanto no alto do "Morro do Cipó", onde tocava violão, o Rolando, que gostava de vê-la dançar rumba, enquanto ele tocava seu violão, ajoelhado a seus pés...
Leocádio já namorara Rafaela, mas desmancharam, quando ele a viu dançando rumba e a chamou para ir embora, mas ela não atendeu, grudando no pescoço do Rolando...
Foi uma briga "dos diabos", e o Seu Epifânio só não pediu as contas da "Nova Lisboa", porque o velho Joaquim lhe disse que a vida pessoal dos filhos, nada tinha a ver com a Padaria...
Oito meses depois, já era o noivo de Mercedes, com direito à macarronada de Dona Esperança, todos os domingos, com chuva ou sol quente, e com direito também, após o farto almoço, a um cálice duplo de licor de Jenipapo, feito no capricho, pela futura sogra, que ainda faz questão de mandar meio litro, toda semana, ao Seu Epifânio, pai de Leocádio, que embora não goste da bebida, recebe o presente, e o transfere para o patrão, Seu Joaquim, viciado em Licor de Jenipapo e jogo de sueca, o qual, promove todo fim de tarde, no quintal aos fundos da Padaria Nova Lisboa, onde um dos parceiros diários, é Seu Gumercindo, pai de Flávia, que costuma falar alto, todo o sábado, lá pelas quatro da manhã, discutindo com o Flávio, seu irmão, sempre pelo mesmo motivo: o excesso de falta de pano nas suas saias...
Seu Gumercindo é casado com Dona Inocência, e além da Flávia e do Flávio, é filha deles também, a jovem Dorotéia, que foi para o Convento das Carmelitas, há treze anos atrás, e virou Serva de Deus...
O tempo passa na velocidade que quer, nesta pequena porção da cidade, que é o bairro da "Padaria Nova Lisboa", e se vocês estão esperando um "Gran Finale" para essa história, eu só lhes posso dar um ponto final... bem pequenino... Este (.)


autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br

E LA VEM REGRA....

A menina saiu correndo do barraco!
Vestia uma sainha de chita, com uma blusa de frio sobre a camiseta de campanha eleitoral, já bem surrada pelo uso.
Passou em tamanha carreira pelo "Buteco de Joana", que nem deu o "Boas Noites" costumeiro ao Pai, que ali já estava há bom tempo, tomando sua cachacinha, jogando conversa fora, já que era um dos "eternos desempregados", vítima por própria conta, dos planos econômicos do Governo...
Quando virou o rosto, procurando Mariazinha, sua filha mais velha, agora com dez anos, só conseguiu ver o vulto que descia a escadaria do morro em uma carreira que dava gosto!
Voltou ele os olhos para o balcão e disse a Joana, dona do buteco, mulher conhecida como decente, embora vivesse com o Nêgo Osório, mais novo que ela vinte anos, em sistema de "amigamento", do qual vieram ao mundo Rafael, soldado do Oitavo Batalhão, e Jandira, agora com dezoito anos, professora recém-formada, que dava aula aos meninos da favela, no barracão atrás do buteco:
_"Êta! Não é que minha menina sabe corrê bem, cumadre? E óia que nem escorregou no limo!
Joana, em resposta ao freguês, comentou:
_"Eu inté tô percupada viu? A menina nunca dexô de me cumprimentá!"
_É... - disse o pai, coçando a cabeça - Isso é istranho mermo... Acho que vô inté l'em casa, só para vê como vai a coisa!
Largou ele a pinga no copo, e subiu até seu barraco, que ficava a alguns metros do buteco...
Lá chegando, ainda da porta, foi falando:
_"Ô Zefa!... qui carrêra era aquela de minha Preta?"
_"Entra Zé!... qui eu te conto tudo, tim-tim pur tim-tim...
Zé entrou, e encontrou a mulher sentada numa cadeira com as pernas abertas, tendo uma bacia ao chão, onde caiam filetes de sangue...
_"Muié!!! O qui aconticeu?!"
_"Sei não Zé... A coisa cumeçô a brotá sangri!!!"
_"Cruiz'im Credo, muié!!! O que tu pensa qui é?"
_"E eu lá sei homi?! Nunca vi isso!!!"
_"E dói??"
_"Óia, duê num dói... mais qui enche o saco, enche..."
_"E o qui vamo fazê?... Será qui pon'açucra, pára?"
_"Sei lá! Foi pru'isso qui eu mandei a menina chamá a Nega Bia... Com tanta rapariga em sua casa, ela deve de sabê o qui tá aconticeno...!
_"Mais Fia... Logo aquela tár de Bia?!"
Mal acabou ele de dizer isso e entrava pela porta, Dona Bia, que vendo aquela cena, começou a rir que nem uma desesperada.
O Zé, achando um despropósito as gargalhadas daquela "fulana", disse:
_"Ora!... Minha muié tá banhano em sangri, e ocê se cagando de ri?!!"
A experiente Bia, contendo o riso, disse:
_"Ora, isso não é nada!... Acontece de vinte e oito, em vinte e oito dias, depois dos doze anos!
O marido, assustado, perguntou:
_"E pru quê, nunca aconticeu antes?"
_"Porque você nunca deixou!!! Com dez anos de casado, tem treze filhos!!! Não há regra que desça desse jeito!

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br



Sexta-feira, Junho 22

UM ATEU, NA MISSA DAS DEZ!

Sabedor que na manhã daquele Domingo, durante a missa das dez, o padre da matriz pediria ajuda aos fieis para a reforma do telhado da nave, destruído parcialmente durante o último vendável, Juvenal avisou a mulher para mandar passar seu terno de linho branco, pois no Domingo iria na missa das dez.
A esposa não podia acreditar! Casada com Juvenal a mais de trinta anos, só viu o marido entrar em uma igreja no dia do casamento, assim mesmo com muita má vontade pois, por ele, casavam só no civil.
Nem nos batizados dos filhos compareceu. Agora, de uma hora pra outra, mandava preparar o terno de linho branco e avisava que ia a missa? Era um acontecimento, digno de ser classificado como algo fora do comum, e foi Maricota, depois da mulher, a primeira a saber da novidade, enquanto estendia roupas no varal da casa do lado, onde morava com o marido Lourenço, parceiro permanente do Juvenal no truco, que acontecia todas as tardes, atrás da padaria do Acácio Mota, frente a praça Vinte e Oito de Setembro.
A noticia de que Juvenal compareceria na missa das dez do Domingo, se espalhou como pólvora, quando Lourenço contou o fato para os amigos, na cervejinha do cair da noite, no bar do Juarez, que fazia funcionar aos fundos o “Bordel da Marinha”, grande amiga do Juvenal, que não acreditou na noticia.
Juvenal, nascido e criado na cidade, era conhecido por sua vocação de “Ateu Convicto”, embora tivesse amizade estreita com monsenhor Nonato de Carvalho, titular da matriz e profundo apreciador das macarronadas de Rosa, mulher do Juvenal.
Rosa era filha de Maria e, no dia das reuniões, Juvenal a levava ate a porta da igreja, mas não entrava. Ficava no papo e na cerveja, na padaria do Acácio Mota, até que Rosa resolvesse “suas” coisas lá com a igreja.
_Compadre Juvenal? Na missa de Domingo? Isso é coisa que quero ver!
Comentou Acácio Mota, quando lhe contaram, na reunião do truco.
O monsenhor Nonato, quando soube da novidade, pois nada ficava sem o saber do monsenhor comentou:
_Acho que ai tem coisa, mas em todo caso, que ele venha! Vou ate reservar um banco, bem na frente, para o casal!
O comentário na cidade, naquela semana, correu solto.
Uns garantiam que Juvenal ia a missa e outros, a maioria, batia pé de que era apenas fofoca.
Diante disto, Leonardo, que era o banqueiro do bicho na cidade, abriu apostas, e quase a cidade inteira fez sua “fezinha”, pois aquele era o assunto do momento.
O prefeito, na Sexta-feira, suspendeu um compromisso que havia marcado na cidade vizinha, para domingo de manhã.
Quando seus assessores mais chegados quiseram saber o porque, respondeu:
_Tenho que estar na missa das dez, deste domingo, pois não posso perder este acontecimento!
O comentário de que Juvenal, querido e respeitado por todos na cidade, estaria na missa das dez do Domingo, ultrapassou até as barreiras das doutrinas cristãs, pois o pastor da assembléia de Deus garantiu aos fieis, no culto de Sexta-feira, que estaria na missa das dez do domingo , na matriz de São João Batista, pois haviam comentários que o santo faria o milagre de levar Juvenal a assistir a missa, e este feito ele não ia perder!
No Domingo , às dez em ponto o monsenhor Nonato Ribeiro de Carvalho, titular da matriz de São João de Batista, dava início a missa.
A nave da igreja estava repleta, com gente em pé põe todos os vãos livres da igreja.
Sentados no primeiro banco, estavam Rosa, vestida com o uniforme da irmandade de filhas de Maria e Juvenal, com seu terno de linho branco, impecavelmente limpo e bem passado.Após a missa, monsenhor Nonato verificou que a coleta do dia dava e sobrava para a reforma do telhado.
Entre os donativos, um papel apareceu, e dizia:

Meu caro Nonato.
Sabe o amigo que sou Ateu, e assim morrerei. Espero que os donativos de meus curiosos amigos sejam o bastante para a reforma do teto da matriz. Se ficar faltando algum, não me culpe, pois fiz o possível.
Juvenal

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br



A PAIXÃO DE SEU TOICINHO


No tempo que os animais, e as coisas falavam, em lancholandia, vivia o Seu Toicinho.
Era um rapaz pacato.
Respeitado por todos, mas triste. Solitário... Amargurado...
Em uma conversa com Seu Salmão, uma espécie de conselheiro da cidade, graças a sua experiência de anos, vivendo no mar, revelou Seu Toicinho, que estava perdidamente apaixonado por Dona Mortadela, filha mais nova do Seu Presunto...
Seu Salmão, nem necessitou perguntar porque estava o amigo angustiado.
Dava pra perceber, só olhando para Seu Toicinho, e sua gordura avantajada...
Mandou então Seu Salmão, Seu Toicinho procurar Dona Coruja, que a anos mantinha um Salão de Estética na rua de traz da Igreja de São Francisco.
Dona Coruja, só de olhar, resolveu qual seria o tratamento..... Seu Toicinho tinha que queimar gorduras, e a única forma que ela conhecia, era Defumação.
E lá ficou Seu Toicinho, 18 dias, pendurado debaixo de um fogão de lenha...
A gordura que dele escorreu conseguiu encher mais de 9 litros , que Dona Coruja iria usar para tratamentos de pele, para peixes, e camarões.
Ao fim dos 18 dias, Seu Toicinho era outro!
Sentia-se mais leve, menos preso ao andar, com maior resistência.
Correu em casa, e vestiu sua melhor roupa.
Seria neste mesmo dia, que pediria a mão de sua amada.
Ao bater na casa da amada, qual foi seu susto, quando quem atendeu a porta, foi Seu Salame... Que havia contraído núpcias com /dona Mortadela, a 10 dias.
Seu Toicinho ficou super abatido...
Nem conseguiu voltar pra casa...
Jogou-se numa frigideira quente...
Tornou-se parte de um dos sanduíches do Mac Donald.


autor: Carlos alberto Lopes
emal: escritor@uol.com.br
NO MORRO DO PEPINO



Quando o dia amanheceu, o sol entrou pela fresta existente no teto, e sua claridade. alcançou os olhos do pequeno Marcelo, que dormia sossegadamente ao lado da cama de seus pais numa rede de barbante.
Com o choro, acordou o casal, que levantou pouco depois.
Enquanto o pai lavava o rosto, numa bacia de alumínio, colocada ao lado de sua cama, a mãe em outro canto do único cômodo da casa, iniciava o preparo do café, colocando uma lata que fôra de leite, cheia de água, no fogão já acesso de uma só boca, que estava amarelado por ferrugem, correndo o risco de explodir a qualquer momento.
O cômodo possuía pouca mobília. Eram, uma rede de solteiro, uma cama de casal; um armário, feito com caixa de frutas, que a mulher transformara em "armário de cozinha", onde três pratos de louça encardida pousavam ao lado de duas canecas de alumínio, dentro das quais alguns talheres de alpaca foram colocados ao acaso.
Encostada na outra parede, havia uma velha caixa de papelão, fazendo as vezes de "guarda roupa", onde ficavam guardadas as poucas peças que a família possuía.
Em um canto, uma caixa de maçãs, coberta por uma já rôta toalha de croché, cheia de buracos, fazias as vezes de mesa, onde estava colocada uma grande estátua de Jesus Ressuscitado, com os braços abertos... Imagem, que na religião dos donos da casa, era chamada de Oxalá.
Frente à imagem, após tomar um pouco de água tingida, muito longe de ser café, o jovem pai ajoelhou-se, orou por instantes e após dar um beijo na esposa e outro no pequeno Marcelo, saiu pela porta, dirigindo-se ao seu trabalho, como fazia todas as manhãs, com sol ou chuva...
Desceu a ladeira e, pouco depois, estava na avenida, onde embarcaria no ônibus, que o levaria à cidade...
Quando a noite desceu, no Morro do Pepino, a alameda ganhou o breu da escuridão...
A única luminosidade que se via, eram os clarões, que saíam pelas frestas dos barracos...
A mãe de Marcelo começava a preocupar-se, pois seu companheiro nunca chegava após o escurecer, sempre voltava pouco antes das seis da tarde...
O leite do pequeno Marcelo acabara, e era necessário providenciar outra lata, mas o dinheiro estava com Domingos, pois receberia "vale", naquele dia...
Com o tempo correndo, a preocupação da jovem senhora aumentou, e ela resolveu, para distrair-se, ligar o seu minúsculo rádio de pilha, presente que ganhara de Domingos, quando recebera ele umas horas extras, tempos atrás...
Poderia, para distrair-se, escutar uma música bonita, como aquela que Domingos costumava cantarolar aos sábados, enquanto varia o quintal do pequeno barraco, pendurado em uma das alamedas do Morro do Pepino...
Ligou o rádio, e uma voz anunciou:
_..."Foi encontrado, na Alameda que dá acesso ao Morro do Pepino, por volta das cinco da tarde, um homem jovem, vítima de assalto... Infelizmente, a vítima faleceu, ao dar entrada no Pronto Socorro. ... Em seus bolsos, foram encontradas a quantia de oito reais, e sua Carteira Profissional... Seu nome era Do...
Nesse momento, a jovem senhora desligava o rádio, dizendo:
_"Chega de notícias ruins... Vou deitar-me! Quando Domingos chegar, levanto e esquento a janta..."

autor: Carlos alberto Lopes

emal: escritor@uol.com.br
ALGUÉM LÁ EM CIMA... OLHANDO!


A bela menina está fazendo, naquela manhã de sol quente; em que os pássaros resolveram cantar a plenos pulmões; em que as flores do jardim teimaram em se abrir em cores vivas; em que as galinhas do galinheiro do fundo da casa, resolveram pôr o dobro dos ovos que costumavam pôr; em que seu pai resolvera dar uma parada no vício (de quarenta anos), de tomar uma pinguinha antes do café; em que seu irmão resolvera não urinar na cama de cima do beliche; em que sua mãe resolvera dormir de camisola de renda; em que seu avô depois de anos, resolvera contar a história de como matou a onça; em que o seu tio voltara da rua, pela primeira vez na vida, antes do dia amanhecer...
A menina estava fazendo... oito anos, que partira para o Reino do "Papai-do-céu"... E via tudo isso acontecer, sentada numa nuvenzinha cor-de-rosa, a meio caminho entre a Terra e a porta do céu, onde São Pedro, de barbas brancas e chave na mão, controlava a entrada e a saída dos bonzinhos, iguais a ela, que saíra só para fazer uma pequena visita à Terra, mas já estava voltando... com um sorriso nos lábios...
Ao passar por São Pedro, disse-lhe:
_"Que bom!... eles não choram mais!... Minhas asinhas já estão quase secas!


autor: Carlos alberto Lopes
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A GREVE

No tempo do antigamente, quando tudo e todos tinham o poder do raciocínio e da fala, houve uma grande seca, porque às nuvens, que são as encarregadas de trazer a terra a chuva, resolveram decretar uma greve, porque o seu raio foi como clandestino em uma das viagens fez um barulho medonho.
Pôr causa disto São Pedro chamou as nuvens “As falas”, dando-lhes tremenda bronca.
As nuvens, mangadas e envergonhadas, pois afinal São Pedro brigou com elas sem motivo, resolveram fazer uma greve, e por causa disso a terra ganhou em período de seca, que levou alguns rios a terem que diminuir de tamanho, e outros, os menores, retornaram às suas nascentes, esperando dias melhores.
A greve das nuvens durou muito tempo, e os se resolveu quando um mediador poderoso se meteu no assunto.
O mediador foi o senhor vento, que foi reclamar com São Pedro pois, pôr não haver chuvas, ele estava trabalhando dobrado, e isso não era justo.
O sol fez também sua reclamação pois, sem nuvens, ele não tinha onde descansar e avisou que, se São Pedro não resolvesse logo aquele assunto , ele também entraria em greve.
Quando se espalhou a notícia que o sol ameaçava também entrar em greve, dona lua se esquentou :
_ Como ?! Então vou ter que trabalhar sozinha ? Isso não e justo.
Diante da situação, o mar, na qualidade de o mais antigo elemento da natureza, mandou uma carta a São Pedro:
“Meu caro Pedro
As coisas já estão ficando difíceis. Venho suprindo água para todo mundo. Não sei se posso aquentar esta situação pôr muito tempo. Acho bom vocês ai em cima, começarem a colocar ordem nas coisas , ou este treco aqui vai pró vinagre”.
“OCEANO”


Para complicar um pouquinho mais a vida do pobre do São Pedro, a “associação dos rios caudalosos” entrou com um mandato de segurança, pedindo garantias de rente oração dos seus antigos leitos, pois já estavam começando uma invasão , pelo “Movimento das Plantas Sem Espaço”.
O PPLS = Partido dos Plantadores em Leito Seco = , aproveitando a situação, solicitava uma reforma agrária nos leitos, pois como estavam, eram áreas improdutivas
O congresso celestial dos arcanjos, pôr sua vez, mandou pedido de explicações a São Pedro , pois já havia a preparação de uma “CPI” para encontrar solução para o problema.
Em contra partida, o Ministério da Saúde Vegetal fez pedido de verba suplementar, pois o estoque de líquidos dos hospitais ecológicos já se encontravam em estado critico.
A Polícia Celestial também mandava representação, já que a seca causava mortes em excesso, e a situação já começava a fugir do controle.
O Sistema Aéreo Animal, atendendo a solicitação de seus subordinados, pedia providencias para o retorno das nuvens, pois sem sombras, já acontecera diversos acidentes aéreos, pôr insolação em pleno vôo.
Como se não bastasse, a “Associação Internacional dos Peixes de Água Doce” entraram com um pedido de garantia de espaço, pois com a diminuição dos leitos fluviais, os leitos existentes estavam com excesso de população , e já acontecia problemas como excesso de detritos fecais e um contingente incalculável de peixes desabrigados.
Diante disto tudo, o Congrego Permanente dos Elementos da Natureza convocou reunião em caráter de urgência.
Desta reunião, saiu um documento, responsabilizando São Pedro pôr todas as calamidades existentes.
Com isso, São Pedro e seu gabinete ficaram em situação delicada perante o Congrego dos Arcanjos.
Numa reunião sigilosa com o “Todo Poderoso”, o nobre chaveiro do céu colocou seu cargo a disposição, mas foi recusada a sua demissão, e se encontrou outra saída: uma reunião entre São Pedro e a Comissão das Nuvens Grevistas.
Nessa reunião , São Pedro foi um excelente diplomata, pois reconheceu que havia sido injusto, ao culpar as nuvens pelo erro do tal raio clandestino.
As oitos da manhã , do sábado de aleluia, o céu ficou negro!
Todas as nuvens voltaram ao serviço com força total.
Foram seis meses de chuva , sem descanso !
Ai , aconteceu um imprevisto. A escala de serviço do Sindicato das Nuvens Carregadas, tinha atraso e não havia como acertar a escala , a não ser com horas extras.
Acontece que a carga de chuva , com hora extra e tudo , deu motivos para reclamações de inundações pôr todo canto.
Mas esta historia fica para outra oportunidade , pois tenho que chamar um pedreiro , para tapar umas goteiras, pois a minha mesa esta já , com poça d’água!
_ É nestas horas que tenho saudades do período da seca.....


autor: Carlos alberto Lopes

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O PARTO

O vento noroeste se fez presente com a fúria costumeira, fazendo a copa das árvores centenárias da praça da matriz vergarem e os pequenos animais procurarem abrigo.
Foi no meio do noroeste, que Maria de Fátima resolveu, sem mais aquela, avisar o Felisberto que seu primeiro filho tava dando seus primeiros sinais de vida e que, se não corresse, ela o colocaria no mundo ali mesmo.
Felisberto se apavorou.
_Como pode ser isso? Já esta na hora?
Maria de Fátima não respondeu, apenas se colocou na posição mais confortável possível, enquanto Felisberto saiu que nem um desesperado, em busca de um local para o inevitável parto, que já estava a caminho.
Em poucos minutos, tia Maricota, parteira de renome, estava
ao lado de Maria de Fátima, para ajuda-la no momento certo.
O noroeste, por sua vez, ganhava mais força e mais violência, fazendo as flores do jardim central da praça, perderam suas pétalas, e o cata-vento, que estava no alto do coreto, de tanto rodar, acabou despencando, caindo no pequeno lago artificial, existente bem em frente ao busto de Teodoro da Fonseca, patrono da cidade.
A igreja, com a força dos ventos, perdeu meia dúzia de telhas, que acabaram caindo no terreno de dona Juvelina, que em dia de noroeste não saia de casa, passando todo tempo rezando diante da imagem de Santa Bárbara.
Seguindo os passos do noroeste, veio a chuva fina, que encharcou a terra esturricada do canteiro das rosas de dona Ercilia, que era professora primária a tanto tempo que escrevia farmácia, usando “PH”.
Maria de Fátima estava em trabalho de parto e o Felisberto desesperado, corria de um lado para outro, tentando encontrar um local seguro para o nascer de seu rebento.
A chuva e o vento continuavam fortes e persistentes, tanto que a companhia de força e luz, achou melhor cortar a luz da cidade, para evitar acidentes.
Sem luz, para mover o maquinário, à usina São João parou a produção, acompanhada por todas as industrias da cidade.
A padaria Lisboa , como tinha forno à lenha, não parou, mas o proprietário mandou acender meia dúzia de lampiões à querosene, para iluminar a padaria e poder atender os fregueses.
Enquanto isso, Maria de Fátima continuava em trabalho de parto, e Felisberto continuava que nem doido, buscando um lugar seguro.
Eram mais ou menos três da tarde, quando um pedaço de telha, caído não se sabe de onde, atingiu a cabeça do menino Lindolfo, filho de Hernestina, e fez Acácio abrir a farmácia, que fechara com medo do vento, e dar oito pontos na cabeça do moleque.
Filomeno, o senhor de mais idade da cidade, com certidão de nascimento escrita a mão e com o brasão do império, que já estava no museu da cidade doada pela família, começou a passar mal lá pelas quatro da tarde e , pelas seis, estava morto
O Dr. Edgar, chamado para atende-lo, diagnosticou que Filomeno morrera de velhice, nada mais que isso.
De uma hora para outra, como tinha começando, o noroeste e a chuva sumiram, dando a um lugar a um lindo entardecer.
Felisberto viu nascer seu rebento quando o noroeste foi embora.
Maria de Fátima e Felisberto ficaram felizes como nunca, pois nascera seu herdeiro, na copa mais alta da jaqueira da praça.
Era um lindo curió, como o pai, só que trazia umas penas de cor indefinidas, como a mãe.

autor: Carlos alberto Lopes
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